
O Tarrafal vai ter museu. E terá, ao que tudo indica, uma memória afinada – e seleccionada. A Portaria n.º 23/2026, de 19 de Março, ao aprovar o Documento Fundador do Museu da Resistência do Campo de Concentração do Tarrafal, fixa o campo como lugar das atrocidades do regime fascista. É verdade histórica. É memória necessária. Nenhuma objecção. Mas é precisamente quando tudo parece consensual que importa olhar para o que fica de fora – para aquilo que não entra no texto e, por isso mesmo, não entra na narrativa.
O problema começa quando a história continua, mas o texto pára. Em Dezembro de 1974, o campo reabre – a chamada III Fase – com prisões arbitrárias de cabo-verdianos por razões políticas, já fora do regime fascista. Trata-se de um facto documentado, ocorrido no mesmo espaço. E, no entanto, não consta do documento fundador. Não é lapso. É escolha. E é nesse ponto que a questão deixa de ser apenas museológica para se tornar política.
Todo o museu implica recorte. Nenhuma narrativa é total. Mas há recortes que esclarecem – e outros que evitam. Quando uma fase inteira desaparece, deixa de ser opção curatorial e passa a ser orientação da memória. E a memória, quando orientada pelo que convém, perde a sua função pública: a de confrontar, interpelar e, por vezes, incomodar.
Se o Tarrafal é um lugar de memória, como afirma a Portaria, então não pode ser segmentado ao sabor do presente. A memória constrói-se também com o que inquieta. Excluir a III Fase não apaga o facto; apenas o desloca para fora da narrativa. E aquilo que é empurrado para fora regressa – mais cedo ou mais tarde – sob a forma de pergunta.
É neste contexto que se inserem três breves extractos da entrevista da Doutora Sandra Cruz ao Jornal 2 da RTP, de 22 de Março, que ajudam a recentrar o debate. O Tarrafal não pode ser lido como um espaço encerrado no tempo do fascismo; um lugar de memória não se constrói apenas com o que é consensual; e a exclusão de episódios não elimina os factos, apenas revela a dificuldade em integrá-los. Três ideias simples, mas suficientes para expor o essencial.
Fica, por isso, a pergunta inevitável: qual o motivo da não consideração, para todos os efeitos, pelo Governo da III Fase do Campo de Concentração do Tarrafal?
Mas há uma outra pergunta – mais ampla, e talvez mais incómoda. Num momento em que Cabo Verde projecta internacionalmente o Tarrafal como lugar de memória, incluindo em processos associados à UNESCO, pode o país sustentar uma candidatura assente na integridade histórica enquanto omite, por razões políticas, uma parte documentada dessa mesma história?
A questão deixa de ser apenas interna. Passa a ser de credibilidade.
Porque a memória que se apresenta ao mundo não pode ser mais estreita do que a memória que se conhece. E num tempo em que os arquivos circulam, os testemunhos reaparecem e as narrativas se cruzam, tentar limar arestas já não protege. Expõe.
Há, porém, uma consequência mais profunda. Não se silenciam apenas factos – silenciam-se pessoas. Rostos, nomes, histórias de vida deixam de ter lugar na memória pública. E quando a memória omite rostos, o que se perde já não é apenas história. É humanidade.
Um museu da resistência que evita a parte incómoda da própria história corre um risco maior do que parece: o de ensinar o passado – mas amputado.
Um museu da resistência que evita a parte incómoda da própria história corre um risco maior do que parece: o de ensinar o passado – mas amputado.
Entrevista:
N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.
– Manuel Brito-Semedo
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