
Há momentos em que o tempo deixa de ser sucessão.
Não porque algo de extraordinário aconteça, mas porque diferentes planos – que habitualmente se dispersam – se encontram e passam a dizer a mesma coisa.
Foi isso que aconteceu.
No espaço público, a Claridade voltou a ser convocada. Não como memória distante, mas como medida. Aos noventa anos, reafirma-se como ponto de exigência: um lugar a partir do qual se lê o presente.
No mesmo gesto, um equívoco antigo é desfeito. Cabo Verde não se divide entre africanidade e crioulidade porque nunca se constituiu nesse registo de escolha. O dilema revela-se, afinal, como erro de formulação – um desvio que, corrigido, restitui ao pensamento a sua base histórica.
Entretanto, num outro plano, mais discreto e talvez por isso mais decisivo, o poial abriu-se. Sem aparato, sem programa excessivo, sem urgência. Abriu-se como sempre foi: lugar de encontro, de palavra partilhada, de escuta com tempo.
E então, no meio desta convergência, o livro.
Não como fecho, mas como fixação. Como momento em que a palavra, depois de pensada, escrita e dita, se organiza e se oferece à leitura com duração. O livro não acrescenta apenas mais um objecto ao percurso: dá-lhe espessura, inscreve-o no tempo, torna-o disponível para além da circunstância.
É neste ponto que a semana deixa de ser apenas intensa e se torna significativa.
Porque quando o pensamento se afirma, a intervenção se clarifica, o encontro se realiza e o livro se fixa, o que emerge não é a soma dos acontecimentos, mas a sua coerência.
E a coerência, quando acontece, não faz ruído.
Faz caminho.
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