
Corrigir o olhar é necessário. Deslocá-lo também. Tem ganho espaço uma leitura que inscreve Cabo Verde na história africana do Atlântico, sublinhando a violência da escravidão, o peso do colonialismo e a marca profunda das culturas africanas. Nada a opor. Era preciso dizê-lo, recentrar o olhar, repor densidade histórica.
Mas recentrar não é resolver. Quando tudo passa a ser explicado pela matriz, a pergunta regressa – discreta, mas persistente: não estaremos apenas a mudar o ponto de partida, mantendo a mesma lógica? A África está lá, na origem, na língua, nos gestos, na memória. Está, e de forma indiscutível. Mas origem não é destino.
Há momentos em que a história deixa de somar heranças e começa a produzir formas. Formas que não negam o que as gerou, mas que já não se deixam explicar por isso. É aqui que a questão se torna exigente: prolongamento ou constituição; origem ou forma.
A crioulização é processo, ninguém o discute. Mas há processos que, ao longo do tempo, ganham consistência, espessura e duração. E quando isso acontece, já não estamos apenas perante movimento, mas perante forma. Talvez seja isso que ainda custa aceitar: que há realidades históricas que não cabem inteiramente nas suas origens.
Cabo Verde pode ser uma delas. E é aí que reside o incómodo.
N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.
– Manuel Brito-Semedo
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