
Êss ê qu'ê Mindelo nos querido cantin
Terra que Deus derramâ sê ligria
Terra de B.Leza, terra de Salibana,
Êss ê qu'ê São-Cente coraçon de Cabo Verde
– Jotamont, Morna "São-cente
Há cidades que simplesmente existem. Outras tornam-se paisagens da imaginação colectiva. Mindelo pertence a essa rara categoria de lugares que vivem também dentro das pessoas. Quem alguma vez atravessou a sua baía luminosa, caminhou pelas ruas abertas ao vento do Porto Grande ou escutou uma morna a cair devagar sobre a noite sabe que ali a cidade não se limita a estar: aprendeu a cantar.
A Baía do Porto Grande – esse anfiteatro natural onde a cidade se abre ao mar – não é apenas cenário: é presença. Situada na ilha de São Vicente, é reconhecida internacionalmente como uma das mais belas baías do mundo, integrando o clube das “Baías Mais Bonitas do Mundo”, iniciativa apoiada pela UNESCO. Mas a sua beleza não se explica apenas pela forma do recorte ou pela transparência das águas. Explica-se, sobretudo, pelo que nelas se inscreve: uma história de encontros, partidas e regressos sucessivos que fizeram do Mindelo mais do que um porto – uma memória viva do Atlântico.
Mark Twain deixou um conselho que atravessou o tempo: “Pinta a tua aldeia e serás universal.” Talvez por isso tantos escritores, músicos e pintores tenham encontrado em Mindelo uma matéria inesgotável de criação. Ao cantar uma rua, um cais, uma esquina varrida pelo nordeste ou uma varanda onde a tarde se demora, acabam por dizer algo que ultrapassa a ilha e toca o mundo.
Mindelo nasceu como cidade-porto, lugar de passagem e de encontro no Atlântico. Durante décadas, navios, marinheiros e viajantes trouxeram notícias, ritmos e inquietações que o Atlântico espalhava pelas ilhas. Dessa convivência nasceu uma sensibilidade particular – urbana e cosmopolita, mas profundamente insular – que ajudaria a moldar a vida cultural de Cabo Verde.
Quando, a 14 de Abril de 1879, a antiga vila foi elevada à categoria de cidade, o gesto administrativo limitou‑se a reconhecer aquilo que já se pressentia na experiência quotidiana: o Mindelo estava destinado a ser mais do que um porto. Estava destinado a tornar‑se lugar de criação.
Ao assinalarem‑se agora os 147 anos da cidade do Mindelo, celebra‑se também essa longa cumplicidade entre a cidade e os que a cantam. Geração após geração, poetas, cronistas, trovadores, pintores e artesãos foram acrescentando novos versos à história desta cidade aberta ao mar.
Talvez por isso Mindelo continue a ser difícil de explicar. Como certas mornas, não se descreve – escuta-se.
E, quando a música termina, a resposta surge quase naturalmente, como numa conversa entre amigos ou numa noite de morna à beira do Porto Grande:
Êss ê qu’é Mindel.
Nota | Curtas – Apontamentos breves sobre lugares, gestos e episódios do quotidiano que o tempo tende a apagar.
– Manuel Brito-Semedo
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