

No ano em que Cabo Verde celebra, pela primeira vez, a sua presença histórica numa Copa do Mundo, o futebol oferece ocasião privilegiada para revisitar memórias fundas da diáspora crioula. Muito antes de a bandeira nacional entrar oficialmente no maior palco do futebol planetário, já um descendente de São Vicente deixara marca relevante nos grandes relvados internacionais. José Manuel Ramos Delgado, nascido em Quilmes, Argentina, filho de Faustino Ramos, cabo-verdiano de São Vicente, e de mãe siciliana, surge como uma dessas figuras raras cuja trajectória antecipa, de forma singular, a presença cabo-verdiana no universo global do desporto-rei.

Memória aqui recuperada graças a Fatu Antunes, cabo-verdiana radicada em Ribeirão Preto, São Paulo, cuja atenção à diáspora permite trazer de novo à luz esta história notável. As fotografias agora reveladas – numa delas ao lado de Pelé, no centro de uma constelação futebolística histórica – devolvem rosto, densidade e presença concreta a Ramos Delgado. Capitão da selecção argentina, ídolo do River Plate e defensor histórico do Santos, onde realizou mais de 320 partidas e conquistou títulos nacionais e internacionais, afirmou-se como referência eterna da Vila Belmiro.
Este gesto de partilha revela a importância vital das comunidades emigradas na preservação da memória colectiva. A diáspora transporta histórias, afectos, heranças e fragmentos de identidade que enriquecem continuamente o património cabo-verdiano. De Ribeirão Preto para o imaginário crioulo, Fatu Antunes ajuda a recuperar uma dessas pérolas raras. No exacto momento histórico em que Cabo Verde entra, pela sua própria bandeira, na história mundial do futebol, Ramos Delgado recorda-nos que a crioulidade cabo-verdiana já havia chegado antes – silenciosa, firme e profundamente atlântica.
Nota | Curtas – Apontamentos breves sobre lugares, gestos e episódios do quotidiano que o tempo tende a apagar.
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