
Maquete da Foto-Homenagem do Club Derby
A notícia chegou no dia seguinte à chegada das minhas netas dos Estados Unidos.
A casa ainda estava cheia de vozes, abraços, risos e daquela alegria que só os reencontros familiares sabem trazer. Havia dias que aguardávamos por aquele momento. As meninas tinham finalmente chegado e a família celebrava a sua presença.
Foi então que chegou a notícia.
Partiu o meu Tio Lalela.
Num dia recebemos quem chega. No outro despedimo-nos de quem parte. Enquanto uma nova geração entrava pela porta da casa trazendo futuro, movimento e esperança, uma figura das minhas primeiras memórias iniciava a sua última viagem. Festa e alegria. Partida e tristeza. Como se a vida nos recordasse, uma vez mais, que é feita destas travessias.
Ao longo destes dias, tenho regressado muitas vezes à Chã de Cemitério.
Não sei se foi a partida do Lalela ou a chegada das meninas. Talvez tenham sido as duas coisas. O certo é que tenho voltado muitas vezes àquela fileira de casas, aos largos das brincadeiras, às pontinhas de esquina de Nhô Fonse e de Nha Tereza, iluminadas por um único poste de luz amarelada, onde tantas noites escutávamos as histórias do Tchéta de Nhô Germano, do Funhû de Nhô 'Nton Bertôl, do Lije de Nhô Fonse e do Lalela de Mãi Liza. Tenho voltado aos anos em que o mundo cabia inteiro dentro do nosso bairro, sob o olhar atento da Mãi Liza.
O Lalela era meu tio. Mas esta designação nunca chegou para explicar a relação que tivemos.
Sete anos mais velho do que eu, cresceu na mesma casa, sentou-se à mesma mesa e foi educado pelas mesmas mãos firmes da Mãi Liza. Por isso, antes de ser apenas tio, foi também uma espécie de irmão mais velho. Daqueles que chegam primeiro a tudo e que, sem o saberem, vão abrindo caminho aos mais novos.
Ainda hoje trago no rosto uma cicatriz. Os colegas da escola chamavam-lhe o meu «sinal de dividir». A culpa foi de uma muf'néza do Lalela. Num carrinho de mão, acabou por me atirar contra umas pedras. O corte foi fundo, levou pontos de agrafo e deixou marca. Na altura chorei. Durante anos ouvi as brincadeiras dos colegas. Hoje sorrio quando passo a mão por aquele risco. O tempo transformou-o numa das recordações que guardo do Lalela.
Quando penso nele, não me ocorre em primeiro lugar o treinador, o desportista ou o homem ligado ao mar. Esses pertencem à memória pública e muitos os recordarão melhor do que eu. O que me surge primeiro é o rapaz da Chã de Cemitério, companheiro das histórias de cinema, das conversas de esquina e das pequenas aventuras que alimentavam a imaginação da nossa geração.
As histórias do Lalela tinham preço. Mandioca cozida, toucinho ou peixe frito. Dependia do que houvesse no jantar. Eu entrava com a comida. Ele entrava com a história. E que histórias! Cowboys, índios, heróis de cinema, perseguições e aventuras sem fim. Sentados na pontinha de esquina, viajávamos para muito longe sem sair da Chã de Cemitério.
Hoje percebo que fazia mau negócio. O Lalela ficava com a mandioca. Eu ficava apenas com a história. Mas, olhando bem para trás, talvez tenha sido eu quem ficou com a melhor parte.
A vida levou-nos depois por caminhos diferentes. Vieram os estudos, o trabalho, as viagens e as responsabilidades próprias da idade adulta. Mas certos laços permanecem para lá da geografia e do tempo. Não porque sejam alimentados diariamente, mas porque ficaram inscritos no lugar onde se formam as primeiras memórias.
Ao longo dos anos fui percebendo o orgulho que o Lalela sentia pelo caminho que eu fazia. Conhecera-me menino, correndo pelas ruas da Chã de Cemitério. Quando aparecia mais um livro, quando alguém lhe falava da universidade ou me via na televisão, havia nele uma satisfação tranquila que dispensava palavras. Era o orgulho simples de quem me conhecera menino e acompanhara a caminhada desde o princípio. E isso, vindo dele, tinha para mim um significado especial.
Talvez um dos episódios que melhor traduz essa ligação tenha acontecido quando nasceu o seu primeiro filho. Eu conhecia bem a história da pequena Crisanta, irmã do Lalela, que morrera ainda criança vítima de tosse convulsa. A sua perda marcou profundamente a Mãi Liza e nunca deixou verdadeiramente a memória da família.
Quando nasceu o primeiro filho do Lalela, sugeri-lhe que lhe desse o nome de Crisanto. Ele concordou. E assim, muitos anos depois da partida da pequena Crisanta, o seu nome voltou a ouvir-se dentro da família. A Mãi Liza nunca a esqueceu. Nenhum de nós a esqueceu. Nem o Lalela.
Hoje, ao recordar o Lalela, percebo que ele pertence a esse património íntimo que nenhuma partida consegue apagar. Faz parte do universo da Mãi Liza, da Xanda e de todas aquelas figuras familiares que ajudaram a construir o que somos e que continuam presentes mesmo depois de ausentes.
A família constrói-se também assim. Com chegadas e partidas, presenças e ausências, memórias que o tempo guarda sem lhes retirar importância.
Guardo também essa imagem do Lalela: a do homem que se alegrava com os meus passos e que fazia questão de lembrar aos outros que o Manecas tinha chegado longe nos estudos, na universidade e nos livros. Hoje, ao recordá-lo, gosto de pensar que uma parte desse caminho também lhe pertence.
Nesta hora de tristeza serena, prefiro ficar com as imagens da meninência. O Lalela nas pontinhas de esquina. O Lalela a cobrar mandioca pelas histórias. O Lalela a inventar aventuras maiores do que o bairro. O Lalela a regressar a casa ao cair da noite. O Lalela antes de ser memória.
Agora que partiu, gosto de imaginá-lo de regresso à casa da infância. E gosto de imaginar também a Mãi Liza à porta, chamando-o pelo nome, com aquela mistura de firmeza e ternura que era só dela.
Enquanto as minhas netas chegavam dos Estados Unidos para encher a casa de vida, o Lalela iniciava a sua última viagem.
Essa é, afinal, uma das mais antigas lições da vida. Uns chegam. Outros partem.
A corrente segue o seu caminho, levando consigo nomes, histórias, afectos e memórias.
Descansa em paz, Lalela.
Foste meu tio por nascimento.
Foste o irmão mais velho que a vida me deu.
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