Morna ganha dia nacional

PorChissana Magalhães,3 mar 2018 12:21

O dia 3 de Dezembro, aniversário do músico B. Léza, passa a ser oficialmente o Dia Nacional da Morna. O projecto de lei, apresentado pela bancada do MpD, foi ontem (27) aprovado pelo Parlamento. Vasco Martins, autor da ideia, diz-se “muito feliz”.

O dossier de candidatura deste género musical cabo-verdiano a Património Imaterial da Humanidade deverá ser encaminhado até final de Março á UNESCO.

Aprovado por unanimidade dos deputados presentes no Parlamento, o projecto de lei que institui a efeméride contou com 36 votos do MpD, 24 do PAICV e três da UCID. Para além do entendimento durante a aprovação na generalidade, o projeto de lei também teve unanimidade aquando da votação na especialidade, com os votos de todos os deputados então presentes na plenária (34 do MpD, 25 do PAICV e três da UCID).

Presente na sessão parlamentar o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Abraão Vicente, considerou que a instituição da data passa à UNESCO uma “mensagem clara de que Cabo Verde abraça a morna como legado e património imaterial de todos”, tendo ainda ressaltado a união que este projecto de lei suscitou na casa parlamentar, para além do engajamento do público cabo-verdiano.

Informado do aconteci-mento pelo Expresso das Ilhas, o músico Vasco Martins, autor da ideia da instituição do Dia Nacional da Morna apresentada desde 2012, manifestou-se “muito feliz”.

“É a morna na sua dignidade”, declarou o instrumentista que considera ainda o estabelecimento desta efeméride “um bem nacional”.

Como já dito, a ideia para a criação de um Dia Nacional da Morna e escolha da data do nascimento do músico e compositor Francisco Xavier da Cruz, o mítico B.Léza, são da autoria de Vasco Martins que a apresenta e defende publicamente desde 2012, altura em que fez chegar a proposta de levar o assunto ao parlamento ao então ministro da Cultura, Mário Lúcio Sousa. No entanto, o músico rejeita qualquer “politização” do assunto e diz que “compreende” que não tenha acontecido antes a chegada do projecto de lei à Assembleia Nacional.

“ Aconteceu o mesmo no Brasil, com o “Chorinho”. Um músico brasileiro apresentou a proposta a um deputado e demorou algum tempo até ser aprovado no congresso [nr: o Dia Nacional do Choro, celebrado a 23 de Abril] ”, esclarece.

Há dois anos, o também investigador da morna e de outros géneros musicais, voltou a encaminhar a sua proposta a Adalberto Silva (Betú), músico, ex-deputado do grupo parlamentar do MpD e hoje conselheiro do Primeiro-Ministro, pedindo-lhe que intercedesse para que o projecto de lei fosse finalmente criado e submetido à votação do Parlamento. Martins salienta, contudo, não estar preocupado com o seu reconhecimento como autor da proposta. “Importante é que tenha finalmente acontecido”.

Na justificativa do projecto submetido à Assembleia refe-re-se a música como “maior embaixadora de Cabo Verde no mundo” e o lugar de destaque na música cabo-verdiana ocupado pela morna, “pela sua longevidade, pelo seu grau de maturidade e consolidação, pela sua transversalidade territorial e sociológica” e ainda pelo seu contributo particular na “mundialização da música cabo-verdiana”, nomeadamente através de Cesária Évora.

O documento alude ainda à instituição do Dia Nacional da Morna como um contributo do Parlamento cabo-verdiano à candidatura do género musical a Património Imaterial da Humanidade. Entre os “mecanismos de valorização da morna” que o texto defende devam ser estabelecidos, destaca o reconhecimento aos criadores do género, avançando o nome de B.Léza como patrono da data simbólica. Isto, pelo “acervo de qualidade ímpar” que o compositor deixou e por ter “inspirado todas as gerações de compositores e intérpretes de morna que lhe sucederam”.

Ainda na sessão plenária desta terça-feira, Abraão Vicente reiterou que o dossier de candidatura da morna a Património da Humanidade, que considera estar “bem encaminhado”, chegará ao seu destino final – os escritórios da UNESCO em Paris - até 31 de Março.

“Ainda no início de Março far-se-á a entrega simbólica no ministério da Cultura e no senhor Primeiro-Ministro”, disse, lembrando ainda que a decisão do conselho de avaliação da UNESCO só será conhecida em Dezembro de 2019.

O dossier de candidatura da Morna a Património Imaterial da Humanidade começou a ser trabalhado há alguns anos, tendo para o efeito o anterior governo criado o Centro de Estudos da Morna, dirigido precisamente por Vasco Martins. O actual governo, conforme o presidente do Instituto do Património Cultural (que coordena o dossier), já investiu até ao momento cerca de 15 mil contos, montante ao qual se soma mais 5 mil contos inscritos este ano.

“A estratégia actual foi de trazer o projecto para o IPC, criar internamente uma comissão técnica com uma consultoria externa que, em cooperação e articulação com a embaixada de Portugal, disponibilizou um dos maiores experts em matéria de património imaterial. Esse que trabalhou o fado, trabalhou o canto alentejano e conseguiu resultados com a sua inscrição na lista de património imaterial”, dizia Jair Fernandes ao Expresso das Ilhas na referida entrevista (ed. 845 de 07 de Fevereiro).

Na mesma ocasião o responsável do IPC apontou a complexidade do dossier e os passos que acompanhariam e se seguiram à entrega do documento, nomeadamente a activação do plano de salvaguarda da morna que contempla o estudo e a investigação, a promoção da morna, seus compositores, interpretes e os instrumentos musicais associados. Para este fim, o lançamento de uma plataforma online deverá acontecer durante o mês de Março.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 848 de 28 de Fevereiro de 2018.

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Autoria:Chissana Magalhães,3 mar 2018 12:21

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  16 nov 2018 3:23

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