AME 2018 ou a prova dos nove da nova largada

PorChissana Magalhães,20 abr 2018 14:50

Rufar de tambores em homenagem à AME 2018
Rufar de tambores em homenagem à AME 2018(Expresso das Ilhas)

Esteve em perigo de não acontecer. Mas, em seis anos de existência, a Atlantic Music Expo (AME) criou uma rede de afectos que fez com que - ultrapassado o susto e a revolta – funcionasse o "djunta mon". A Associação Cabo Verde Cultural tomou a tarefa em mãos e os parceiros, colaboradores, amigos e público responderam à empreitada.

A 6ª edição do AME concretizou-se em encontros, oportunidades, diálogos e muita música. Ontem (19), ao cair do pano, todos agouravam longa vida à Atlantic Music Expo, a babel atlântica para todos os amantes da música e das pontes que esta cria.

Depois da noite inaugural, regada a muita música, na segunda-feira, o Palácio da Cultura Ildo Lobo (PCIL), recebeu a primeira das três conferências e outros tantos workshops que ali tradicionalmente acontecem durante a Atlantic Music Expo. E embora a plateia do auditório não envergonhasse, não estava cheia como já testemunhamos em anteriores conferências inaugurais. Muitos dos delegados preferiam estar cá fora no pátio à conversa. A AME, para além da música nos palcos, também é isso: a informalidade das conversas de café e dos corredores, onde o networking acontece espontaneamente.

No Gota D’Arte, o café do PCIL onde as fotografias de mulheres nuas de Tchitche Lima transpiram jazz crioulo [a exposição “B. Léza Jazz” está inserida no programa AME/KJF 2018] encontramos o grupo de jovens artistas e amigos Hilário Silva, Diego Gomes e Fattú Djakité a desfrutar o pequeno-almoço. Hilário Silva, que já tinha participado numa das anteriores edições, de onde saiu com contactos para shows na Europa, e que este ano actuou no primeiro momento do Kriol Jazz Festival (Zona Kriol, no bairro da Várzea), já por lá andava na véspera, a inscrever-se para os One to One Meetings. São, como o nome indica, encontros individuais entre artistas, managers, produtores musicais ou de eventos, representantes de editoras ou labels, programadores de feiras e festivais. Encontros onde uns vão “vender” o que têm a oferecer e outros, se interessados, “comprar”.

Ao longo da manhã, o ritmo de afluência de pessoas a fazerem inscrições para os meetings, junto a um guichet posto no hall de entrada do Palácio, foi aumentando.

“Tem que ser. Interessa-me estar aqui a fazer contactos”, diz-nos Hilário Silva, com o seu característico sorriso. Quase a mesma coisa nos diria ao final da tarde seguinte o rapper Hélio Batalha, que também já pisou o palco da AME e tem procurado, com algum sucesso, levar o seu trabalho para fora do país. No ano passado, Hélio e Fattú Djakité foram alguns dos artistas que participaram no projecto Lusafro, inserido na 5ª edição da AME – uma iniciativa da produtora Piranha Kultur, em parceria com a Harmonia, o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde e a rádio alemã WDR Cosmo – que meses depois os levou a Berlim (Alemanha) para participar numa mini tour.

“Estas oportunidades são para se aproveitar”, resume. E circula pela praça do Plateau, cumprimentando jornalistas, colegas artistas, agentes e promotores de evento que vai encontrando. E, claro, os fãs.

Escadas acima, fomos espreitar o aspecto que têm estas espécies de pitching. O corredor de acesso à sala onde decorriam estava cheio de gente a aguardar vez, a consultar a agenda dos encontros colada numa das paredes ou a tentar, como nós, espreitar o que ali dentro se passava. E o que vimos foi que as pequenas mesas espalhadas pelo recinto estavam todas ocupadas por duplas em amena cavaqueira, ignorando completamente o barulho das conversas ao lado. Havia quem tomasse notas. Havia quem, munido de um tablet, mostrasse vídeos. E um outro recorria a um intérprete para se fazer entender.

Paulo Lobo Linhares, da produtora InSulada, também marcou este ano presença nestes meetings e, no último dia do evento, era um manager satisfeito. “Correu bem! Ficaram muito interessados no Carlos Lopes”, disse, referindo-se ao músico cabo-verdiano da orelha pintada de azul que actuou no palco da AME em 2016 e há cerca de um mês deixou muita boa impressão ao público que assistiu ao seu concerto, ali mesmo, no pátio do PCIL.

Djô da Silva e Nuno Sardinha, da RDP África, posam no stand do principal patrocinador do evento
Djô da Silva e Nuno Sardinha, da RDP África, posam no stand do principal patrocinador do evento

Voltando ao ambiente do “quartel general” da AME, e ainda no primeiro dia, a um canto do pátio do PCIL, encontramos Djô da Silva em amena conversa com Josina Bettencourt que veio de São Vicente a representar a empresa organizadora do Kavala Fresk Feastival, a MarEventos. De semblante bem mais tranquilo do que nos habituamos a vê-lo em edições anteriores, o ex-homem do leme da AME ainda nos fala sobre a delegação de mais de trinta pessoas que veio do Canadá, cuja responsável trouxe também a missão de perscrutar o mercado da música e escolher alguns artistas cabo-verdianos para levar a um evento musical naquele país norte-americano. Mas o produtor não se alonga. Aponta-nos a filha, à conversa numa mesa mais adiante, como a pessoa com quem, doravante, devemos falar sobre estes assuntos oficiais da AME. Ele está ali claramente em outra pele.

Elodie da Silva, que sempre marcou presença – discretamente - nas edições anteriores, assume agora a função de Directora das Relações Internacionais da AME. Aos 29 anos, ela está a herdar muitas das anteriores posições do pai, agora que este é o homem forte da Sony para a África Ocidental. Ela é a presidente da Lusafrica, programadora do Kriol Jazz Festival Praia, e ainda dirige uma editora, a Africa Nostra.

“Bem, eu não tirei o trabalho do meu pai aqui na AME. É um novo trabalho”, ri-se, acabando por admitir que o trabalho que faz na Atlantic Music Expo cresceu.

“A AME também está maior! Nós fizemos este trabalho em apenas quatro meses ”, sublinha com evidente entusiasmo, realçando também o facto de pela primeira vez haver várias delegações numerosas, como a já citada proveniente do Canadá, para além da chinesa, brasileira e sul-coreana.

Elodie da Silva, directora das relações internacionais da AME
Elodie da Silva, directora das relações internacionais da AME

Seguindo a dica do pai, perguntamos-lhe por mais informações sobre as actividades dessa delegação do Canadá e ficamos a saber que eles não só vêm à procura de artistas nacionais para agendar espectáculos mas também já têm reservado um estúdio da cidade para gravações com músicos locais. É a máquina já oleada a continuar a funcionar para aquilo que foi criada.

Gugas Veiga, o novo Director Geral da AME, circulava discretamente pelo PCIL a certificar-se que tudo corria bem. O ambiente, ao longo dos três dias em que o evento “invadiu” a casa de cultura mais dinâmica da capital era de uma azáfama tranquila. O staff no local, aparentemente mais reduzido do que em anteriores edições, mostrou-se ao longo da semana bastante calmo, acessível e simpático.

Para Anícia Tavares, tradutora e intérprete, que trabalha na AME desde a primeira edição, esta foi a melhor de todas em termos de condições para fazer o seu trabalho. “Correu tudo bem. Foram impecáveis”, resumiu, não sem antes realçar o prazer que sente no trabalho de fazer os delegados de diferentes origens e expressões linguísticas se entenderem uns aos outros.

A Marcha de Alfama recriada à escala da Av. Amílcar Cabral
A Marcha de Alfama recriada à escala da Av. Amílcar Cabral

A Atlantic Music Expo da nova era fica marcada pelo desfile da Marcha de Alfama, grupo de mais de quarenta elementos que veio trazer um cheirinho das tradicionais marchas de Santo António de Lisboa. Ainda que sem o esplendor e a grandiosidade que quem conhece sabe que tem a marcha original, o grupo não fez feio e agradou a muitos que assistiam. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer dos desfiles dos grupos locais que os precederam, particularmente a tentativa falhada de recriar a tabanca.

“Uma vergonha”, comentava ontem um cidadão praiense desagradado com a designação de um pequeno grupo de homens e mulheres a tocarem num tambor e a soprar um búzio como tabanca.

“É preciso mais atenção. Fazer as coisas bem-feitas. Havia turistas a filmar”, alerta.

O primeiro-ministro foi um dos brindados com o desfile da pseudo-tabanca. Ulisses Correia e Silva, na companhia do vereador da cultura da Câmara Municipal da Praia, António “Tober” da Silva, e do Director Geral da AME, Augusto “Gugas” Veiga, fez a seguir a inauguração da feira na praça Alexandre Albuquerque, outra componente da AME que muito agrada a visitantes e locais.

Guga Veiga, director geral da AME e representante da Associação Cabo Verde Cultural
Guga Veiga, director geral da AME e representante da Associação Cabo Verde Cultural

Com um número um pouco mais reduzido de stands e, contudo, uma boa afluência de público, a maioria dos espaços era ocupado por representações de câmaras municipais, onde dominavam o artesanato, a doçaria e as bebidas de fabrico artesanal (ponches, licores e grogue). O tipo de produtos oferecidos nestes stands não diferia muito entre si. Já a apresentação dos artistas e músicos de cada concelho era feita de maneira tímida. Mesmo Santa Cruz, terra natal da artista que está na boca de todos os delegados internacionais com quem fomos metendo conversa, não quis tirar grande proveito da projecção internacional de Élida Almeida e limitou-se a expor, um tanto escondido, no meio de meia dúzia de outros artistas, um exemplar do último CD da artista da Harmonia, sem qualquer referência ao facto de ela ser uma filha daquele concelho. E uma que tanto tem promovido a sua aldeia natal nas suas músicas e em entrevistas.

Mais atentos às potenciais oportunidades e procurando uma maneira mais directa de vender o seu peixe, o stand da Yakuarella, uma pequena e jovem empresa de promoção de artistas da música e organização de eventos, tinha exposto um catálogo de artistas onde encontramos fotografia, contactos para agendar shows e indicação de respectivo canal no YouTube. Nomes como Hilário Silva, Fattú Djakité, Xiomara Semedo, Djam Neguin, Diego Gomes, Ella Barbosa, e outros, ali figuravam. Em Inglês.

Por sua vez, Lúcia Cardoso, formada em pedagogia musical e que em tempos foi apontada como uma grande promessa da música nacional, trilha hoje um caminho bastante diverso mas com sucesso assinalável. No stand da Badia - marca de cosméticos naturais e amiga do ambiente por ela criada – a encontramos sem mãos a medir para atender aos clientes encantados com as cores, perfumes e texturas dos seus sabonetes, mousses e óleos perfumados.

Entre o público, o cantor e produtor Nelson Freitas
Entre o público, o cantor e produtor Nelson Freitas

Nas redes sociais, ela foi uma das que partilhou a hashtag #AME, lincando assim a sua marca a esta montra internacional imensa que é a Atlantic Music Expo.

Esta edição da AME beneficia, em termos de projecção a nível global, do boom que os perfis de Instagram a partir de Cabo Verde registaram neste último ano. Nessa rede social e no Facebook aumentou a quantidade de hashtags #AME, #AME2018 ou #atlanticmusicexpo. São fãs a postar fotos com os artistas da sua preferência; artistas anunciando os seus showcases; artesãos publicitando os seus stands ou, simplesmente, gente que aprecia o evento a fazer o “boca a boca”. Um perfeito marketing de afectos.

Mas também houve quem recorresse às redes sociais para “denunciar” aquilo que de menos positivo notaram na feira atlântica. Como por exemplo, turistas de um enorme navio de cruzeiro que atracou no porto da cidade a chegarem ao Plateau e a encontrarem a feira na praça Alexandre Albuquerque… fechada. Os ocupantes dos stands, ou por desinformação ou conscientemente, a optarem por abrir a exposição apenas no período da tarde.

É entre esta certa ausência de estratégia de alguns actores da AME e o despertar consciente de uma camada jovem da classe artística e empreendedora participantes nessa montra oferecida pela AME que continua a acontecer, aparentemente sem grandes alterações, a exposição musical do atlântico, aka Atlantic Music Expo.

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Autoria:Chissana Magalhães,20 abr 2018 14:50

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  20 nov 2018 3:22

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