Partiu o mito - ficou a obra

PorAmérico Antunes,17 dez 2018 7:06

No dia de mais um aniversário da morte de Cize, e no momento em que a Morna aguarda para ser declarada Património Imaterial da Humanidade, recordamos os dias e horas daquele mês de Dezembro através de um texto inédito do jornalista Américo Antunes. Já se passaram sete anos.

O choro compulsivo do artista plástico e músico Tchalé Figueira, à porta da casa de Cesária Évora, mal a urna ali chegou, às 10:45 de terça-feira, 20 de Dezembro de 2011, é o espelho da dor e a angústia em que São Vicente, Cabo Verde e o mundo mergulharam com a morte do mito Cesária Évora. Tchalé era, afinal, apenas mais um que não segurou as lágrimas entre os milhares que acorreram, por esses dias, qual peregrinação, à casa da cantora. “Esta morte toca-me muito porque, afinal, estou a assistir à partida de um bom ser humano que, para além da sua arte, foi portadora de uma grande generosidade, virou famosa mundialmente mas nunca deixou de ser aquela Cesária humilde. Fica a obra”, lançou Tchalé Figueira entre lágrimas e soluços.

Sábado, 17 de Dezembro de 2011

12:33

A imprensa lança as primeiras notícias, no género flash, dando conta da morte de Cesária Évora. As informações ainda são escassas, contudo, a pouco e pouco, surgem desenvolvimentos. Os jornalis­tas acorrem ao Hospital Baptista de Sousa e o director clínico, Alcides Gonçalves, diligente, anuncia os factos: Cesária Évora dera entrada no banco de urgência na sexta-feira, 16, às 09:00, e ali manteve-se, na unidade de cuidados intensivos, “num estado grave”, em que alternou momentos de lucidez com momentos de inconsciência, sempre acompanhada pelo seu empresário, José da Silva.

“Cesária Évora faleceu às 11:20 desta terça-feira, 17, por insuficiência cardio-respiratória aguda” e “tensão cardíaca elevada”, acrescentou o clínico, que revelou ainda que José da Silva foi a primeira pessoa a ser informada da morte.

Num ápice, o rodopio de reacções à notícia. A maioria das pessoas, anónimas ou figuras do Estado, nacionais e estrangeiras, estão incrédulas. A notícia dá a volta ao mundo. Passado o choque inicial, a família começa a deligenciar o funeral. Tem que ser. Todos querem já saber o dia e a hora. Querem, afinal, prestar a última homenagem à Diva. A família informa que, num primeiro momento, o corpo irá permanecer em câmara fria, pois há familiares ausentes. E era tudo, naquele momento.

É um dia em que as reacções saem em catadupa: a rádio nacional altera a programação do dia e faz uma emissão non-stop sobre o acontecimento. Os mais altos dignitários da Nação fazem-se ouvir, as agências noticiosas e jornais on-line “dão voz” a quem está “na terra longe”.

(Foto: Américo Antunes)
(Foto: Américo Antunes)

Domingo, 18 de Dezembro de 2011

09:00

A morte de Cesária Évora é, de facto, um acontecimento planetário. A notícia corre mundo através da imprensa internacional.

No Brasil, o jornal Folha de São Paulo destaca a “diva dos pés descalços” como a “cantora de maior reconhecimento internacional do seu país”.

Nos Estados Unidos da América, o jornal The New York Times escreve que Cesária Évora “começou a cantar jovem em bares de Cabo Verde nos anos 50 e ganhou um Grammy em 2003, depois de ter levado a música daquelas ilhas africanas aos palcos de todo o mundo”.

O jornal El País, de Espanha, titula “Cesária Évora, cantora, a voz de Cabo Verde”, cujo “êxito chegou tarde, quando tinha 50 anos, e levava muitos outros a arrastar o seu talento por bares e tabernas”, sendo uma das notícias mais lidas da edição on-line.

Em Inglaterra, o The Guardian destaca “Cesária Évora, a voz da saudade, morreu aos 70 anos” e acrescenta que “a cantora que levou as canções em crioulo do seu Cabo Verde para o mundo pediu desculpa aos fans por se retirar mais cedo este ano”.

O italiano Corriere dela Sera escreve “Adeus à diva dos pés descalços - Cesária Évora Morreu”.

Na Alemanha, o Der Spiegel afirma: “Ela vendeu milhões de discos e CD. Com a sua música melancólica, Cesária Évora gentilmente se tornou numa estrela da música mundial. Agora a nativa artista das ilhas de Cabo Verde morreu aos 70 anos”.

14:00

O Governo informa que decreta dois dias de luto nacional e que Cesária Évora terá um funeral de Estado com a presença das mais altas autoridades do país. O corpo estará em câmara ardente no Palácio do Povo, do meio-dia de terça-feira, 20, até à hora do enterro, às 16:00.

O empresário da cantora, José da Silva, talvez a pessoa mais importante na carreira da cantora, fala pela primeira vez. “Não sei precisar se estarão no funeral personalidades do mundo da música. Sabe, é muito difícil chegar a Cabo Verde”. José da Silva fala ainda em inéditos de Cesária Évora que poderão ser editados no futuro.

Pela casa da artista continuam a passar centenas de pessoas, essencialmente anónimas, que durante a vida privaram com Cesária Évora.

Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

10:40

À entrada da Casa Mortuária concentram-se populares. Lá dentro, familiares e pessoas próximas à família. Uma porta interior abre-se e surgem quatro homens transportando uma urna branca que colocam na viatura funerária, estacionada mesmo no fim da escadaria. No interior, os restos mortais de Cize. Ouvem-se as primeiras palmas do povo para Cize. A neta, Janete, em lágrimas, é amparada por familiares e amigos.

10:45

A viatura funerária estaciona-se à porta da residência de Cesária Évora, à Rua Fernando Ferreira Fortes. Há uma mulditão à espera. À porta, para receber o corpo, o empresário José da Silva, os filhos Fernanda e Eduardo e os netos Adilson e Janete. Músicos, muitos músicos. O caixão é depositado na sala de visitas e é aberto. Os presentes lançam o último olhar a Cesária Évora. Há choros no meio do silêncio que o momento requer. Uma cidadã estrangeira puxa uma bandeira do Futebol Clube do Porto (Portugal), e coloca-a em cima do caixão. Cize teria gostado. Era adepta do clube português.

11:50

A urna, transportada por militares, segue em novo cortejo, agora para o Palácio do Povo, o local de todas as homenagens públicas. As músicas que celebrizaram Cesária são interpretadas por dezenas de músicos. Há agora mais gente no percurso. A urna dá entrada no palácio e os organizadores do funeral informam que a família, por alguns momentos, quer ficar a sós na sala das homenagens.

(Foto: Américo Antunes)
(Foto: Américo Antunes)

14:00

Começam a chegar ao palácio as entidades da Republica. O presidente do Supremo Tribunal da Justiça é o primeiro a tomar assento. Seguem-se-lhe o presidente da Assembleia Nacional, o Primeiro-ministro e o Presidente da República. A sala está cheia. De um lado da urna, os familiares, os seus convidados e o corpo diplomático, do outro as principais figuras do Estado, deputados, representante do governo português e líderes partidários.

Cá fora, uma senhora de meia-idade, que desejava assistir “com os olhos” à cerimónia é taxativa ao discordar do formato da homenagem: “Cesária passou toda a sua vida em cima de um palco e hoje, o dia de todas as homenagens, tirem-na do palco, e escondem-na numa sala”. Registamos.

Soam os primeiros acordes do hino nacional, interpretado pelo grupo coral da Escola Secundária Jorge Barbosa. Há um silêncio pesado na sala.

Ao lado da urna, branca, coberta com a bandeira nacional, os artistas presentes despedem-se de Cize interpretando quatro temas, um dos quais, “Moda bô”, de Lura.

Seguem-se as mornas “Partida”, “Camim di mar” e “Vent Suest” numa especie de serenenata sentida à Diva dos Pés Descalços.

O ministro da Cultura, Mário Lúcio Sousa, expressa gratidão por tudo o que Cesária Évora fez por Cabo Verde e admite que é importante “saber e sentir” que o país ficou mais rico com o legado de Cize.

Ao discursar em nome da comunidade artística e em representação do Governo, embora com a presença do primeiro-ministro na cerimónia oficial, Mário Lúcio Sousa lembra que os europeus decobriram Cabo Verde em 1640, que em 1975 “nós nos descobrimos”, mas que com Cesária Évora o mundo descobriu a alma cabo-verdiana. “Cesária Évora é Cabo Verde”, sintetiza.

Segue-se o Presidente da Republica, que, num tom poético, defende que, apesar da riqueza que Cesária Évora deixou à nação cabo-verdiana, com ela “todos morremos um pouco”.

“São Vicente, Cabo Verde e o mundo estão de luto, a diva deixou-nos”, refere o Chefe de Estado, para quem Cesária Évora foi um dos raros seres que conseguiu erguer, a nível emocional, uma “síntese quase perfeita” entre o “quase nada” e a “totalidade universal”.

“Cesária Évora foi uma deusa terrena que, a partir da noite do Mindelo, da qual sempre foi parcela integrante, iluminou o mundo, carregou a dor, o sofrimento, os anseios, as alegrias, os amores e os desamores da nossa gente, de todos nós, de Monte Sossego a Ponta Belém, de Minas Gerais a Ribeira Bote, de Lisboa a Paris, de Nova Sintra a Roterdão (...)”, sintetiza Jorge Carlos Fonseca.

Para o Presidente da Republica, o manifesto de Cize foi a vida, “díficil por vezes, mas rica”, vivida com perseverança, com “grande humildade” e “extraordinária generosidade”, mesmo depois de se alcandorar definitivamente à consagração universal.

“Na impossibilidade de retribuirmos à Cesária o quanto ela nos deu, apenas podemos aprissioná-la nos nosso corações, torná-la deusa feita música, de um país sofrido, combalido, mas eternamente grato a quem tanto fez para dar razão ao poeta que um dia disse ‘mon pays est une musique’”, anota.

“A grande intérprete de boa parte dos nossos melhores compositores, a voz que nos levou a todos na garupa de Cabo Verde a todos os cantos do mundo, provando que na arte as fronteiras inexistem e que a humana linguagem da emoção não conhece barreira foi, como diria Frank Cavaquim, para a esperarança mais certa que temos, a eternidade”, conclui Jorge Carlos Fonseca.

16: 20

Novo cortejo, curto, agora até à Pró-Catedral, onde o bispo do Mindelo, Dom Ildo Fortes, procede à encomendação do corpo. Elogia o percurso da diva e lembra que ela deixou obra. Um exemplo a seguir, diria no final da celebração.

17:10

São Vicente em peso, dir-se-ia, toma agora o rumo do cemitério, lá para as bandas de Ribeira de Julião.

Desde a saída do Palácio do Povo, onde os restos mortais da artista estiveram em câmara ardente, a partir do meio-dia de hoje, passando pela igreja matriz da cidade, onde o bispo do Mindelo, Dom Ildo Fortes, celebrou a missa de corpo presente, até ao cemitério, são largos milhares de cabo-verdianos e estrangeiros a prestar homenagem à “rainha da morna”.

É tal o banho de multidão que batia palmas quase ininterruptamente que a Polícia vedou a entrada ao cemitério, permitindo-a apenas às autoridades do Estado, familiares da cantora e aos militares que lhe prestam guarda de honra.
Cesária Évora fica sepultada no flanco direito, à entrada da parte mais antiga do Cemitério do Mindelo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 889 de 12 de Dezembro de 2018.

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Autoria:Américo Antunes,17 dez 2018 7:06

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  6 set 2019 23:22

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