Mindel Band, transversal ao tempo

PorPaulo Lobo Linhares,10 ago 2020 7:14

Há discos que parece que chegam quando devem chegar: no momento em que nós precisamos e que sobretudo a música precisa.

Na música de Cabo Verde, aconteceu-me com alguns discos, mas lembro-me de guardar este em lugares cimeiros. Refiro-me a “Mindelo” do grupo “Mindel Band”.

Vivíamos o início dos anos 90, altura em que iniciava os meus estudos em Portugal. Lembro-me de este ter sido um dos discos que me acompanhou. Na verdade, tornou-se o que muitos chamam de forma simples, porém ilustrativa de “um dos discos da banda sonora da minha vida”.

A música instrumental, não muito frequente no nosso panorama musical, aparecia assim num misto de interpretações mais tradicionais… como a morna “Verdianinha”, até abordagens mais “arriscadas” (para a altura e contexto musical) como a “Paisagem” que abre o disco. Este género de música induz-nos logo ao imaginário, fazendo com que criemos ambientes sonoro-visuais… viagens – as tais que muitas vezes procuramos na música l. Como exemplo maior do que refiro, “Cabo Verde” – tema do disco que tão bem poderia ser um dos escolhidos para repertório das ilhas, ilustrando-as…ou ainda o “Groove” que retrata a cidade de “Mindelo” no tema com o mesmo nome…

Um naipe de luxo de instrumentistas dava corpo musical ao grupo: a bateria de Tey Santos, as cordas de Bau e Voginha, e as teclas de Humberto Ramos. Tornava-se assim fácil para a música expressar a sua enorme beleza, tendo em conta que o veiculo usado facilitava e convidava a que tudo acabasse em notas …em sons, música em beleza…Por entre batidas incisivas, os enormes solos de bateria como no tema “Mindelo” ou “Jagacida” e os balanços que embalam o tradicional. Tey marca toda a percussividade do grupo. Do universo das cordas, as maravilhosas viagens de Voginha e Bau (este escolhendo ainda os momentos certos para os diferentes solos, que vão do cavaquinho ao violino). Um certo experimentalismo do teclado de Humberto Ramos (ver o tema “Vedeta”) atira-nos para as tais sonoridades “mais arriscadas” …e no fim tudo acaba em “cenários-Mindel Band”.

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Na verdade, este foi o grupo base de músicos mindelenses que terá trabalhado com o produtor Djo da Silva para acompanhar Cesária Évora, e a base musical acústica do álbum da Diva - “Mar Azul”.

Ao ouvir o álbum, já com décadas, soa a novo e assim será ao longo do que virá, pois acima de tudo os músicos transpiram neste álbum, o que a música precisa para ser duradoura e eterna – o imprimir de paixão quando nela se mexe. Esquecem-se a razão e tudo é paixão, entrega e partilha.

A música agradece.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 975 de 5 de Agosto de 2020. 

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Autoria:Paulo Lobo Linhares,10 ago 2020 7:14

Editado porSara Almeida  em  20 set 2020 7:19

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