A história da emigração cabo-verdiana na Argentina e o Desporto

PorWilliam Vieira,19 jun 2020 7:35

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Os primeiros ecos de um cabo-verdiano na América do Sul remontam ao século XVII.

Conta-se sobre um escravo ladino, popularmente conhecido na Argentina por “Negrito Manuel”, também chamado por “Manuel da Guiné” ou “Manuel da Costa dos Rios”, na qual teve uma relação de mais de 40 anos, incumbindo-se voluntariamente em cuidar da imagem de barro da Santa da Imaculada Conceição, durante toda a sua vida, mostrando-lha devoção e idolatria numa capela que estava a construir para a sua adoração.

Chegando mais próximo dos dias de hoje, segundo a tese de mestrado de Pedro Góis, realizado em 2006, intitulado a “Emigração Cabo-verdiana para (e na) Europa e a sua inserção em mercados de trabalho locais: Lisboa, Milão, Roterdão”, aborda a questão da emigração cabo-verdiana para a região da América do Sul.

Segundo fontes da pesquisa do autor, foi nos finais do século XIX e início do século XX, que começaram a chegar aos portos de Montevideu (Uruguai) e Buenos Aires (Argentina), marítimos cabo-verdianos, tripulantes de baleeiros, tripulantes de barcos mercantes ou grumetes à bordo de navios de guerra argentinos

Naquela época, os portos do Rio da Prata funcionavam tanto como destino final da emigração cabo-verdiana, igualmente, como ponto de passagem para o Brasil, um destino de eleição até aos anos 30.

Ainda a tese refere que, os cabo-verdianos que mais emigravam para América do Sul eram, na sua maioria, originários das ilhas de S. Vicente e S. Antão.

Esta emigração para as Américas é considerada a segunda vaga, sendo a primeira registado com destino para América do Norte, através das ilhas do Sotavento.

Atualmente, segundo fontes oficiais, existem aproximadamente entre 12 000 a 15 000 descendentes de Emigrantes de Cabo Verde que vivem na Argentina, dos quais cerca de 300 são nativas das ilhas de Cabo Verde.

De destacar que a comunidade cabo-verdiana é vista de forma diferente em relação aos afro-argentinos, porque vieram voluntariamente, diferente dos afro-argentinos que são descendentes de “homens feito de escravos” a quando da ocupação espanhola naquele território.

A cidade de Bueno Aires é aonde se encontram mais cabo-verdianos. Por haver mais trabalho no sector marítimo naquele período, por serem marinheiros peritos em pesca, estabeleceram perto da costa ou nos portos.

À maioria conseguiu um trabalho na Marinha argentina como por exemplo: na Sea Fleet's, na marinha mercante, na Fluvial Fleet, em estaleiros e ainda na ELMA.

Depois da comunidade cabo-verdiana ter chegado à América do Sul, fixaram-se e contribuíram também para o progresso do país “Albiceleste” em várias áreas, e o Desporto não foi exceção.

No que diz respeito ao Desporto, segundo pesquisas da minha autoria, desenvolvida ao longo dos tempos, com entrevistas realizadas a cabo-verdianos que hoje vivem na Argentina e também com atletas descendentes de cabo-verdianos, obtive informações relevantes sobre o contributo dos descendentes e dos cabo-verdianos no Desporto daquele país.

O primeiro caso de um descendente de cabo-verdiano a ter impacto no Desporto argentino, foi o caso de José Ramos Delgado, futebolista, filho de um pai cabo-verdiano, nascido a 26 de agosto de 1953.

Ramos Delgado notabilizou-se nos anos 60 e 70 ao serviço do River Plate (Argentina) e Santos (Brasil), onde representou o clube brasileiro de 1967 a 1973, jogando, inclusive, ao lado do rei “Pelé” nas primeiras épocas no clube da Vila Belmiro.

A nível de seleções, teve passagens pelo escalão de base da Argentina e fruto das suas exibições no River e Santos, mereceu a oportunidade de representar a seleção A da Argentina.

Atuou por 25 vezes na seleção principal, disputou 2 Copas do Mundo, em 1958 e 1962, e ainda participou em vários jogos de qualificação para a Copa de 1966, tornando-se no primeiro jogador de sempre de origem cabo-verdiana a atuar pela Argentina e por um país da América do Sul.

Um outro conhecido naquele país é Adriano Custodio Mendes, meio campo, nascido em Cabo Verde, a 8 de novembro de 1961, na ilha de São Vicente.

Ainda pequeno, foi levado para a Argentina e nos anos 80, representou alguns clubes grandes da Argentina da América do Sul como Estudantes de la Plata (Argentina), Colón de Santa Fé (Argentina), San Martin de Tucumán (Argentina), Blooming (Bolívia), Cerro Porteño (Paraguai), passando ainda pelos clubes do Chile e Honduras.

Entrando no século XXI, os casos dos irmãos Tissone foram os que mais tiveram repercussão na imprensa.

Fernando e Cristian Tissone, netos de um cabo-verdiano (avô materno) têm ainda elegibilidade de representar 3 países: a Argentina, Itália e ainda a cabo-verdiana.

Os dois tiveram carreiras completamente distintas. Fernando com mais notoriedade, passou por clubes como Udinese (Itália), Sampdoria (Itália), Málaga (Espanha), CD Aves (Portugal), Nacional da Madeira (Portugal) e Karpaty (Ucrânia).

Já o irmão, Cristian Tissone, com menos fulgor, representou apenas as camadas de base do Atalanta (Itália), Maiorca (Espanha), Málaga (Espanha) e Vitória de Setúbal (Portugal), e hoje se encontra no Mirandela (Portugal), clube do Campeonato Nacional de Seniores, equivalente a terceira divisão portuguesa de futebol.

Um pouco mais recente, é o caso de Facundo Ezequiel Silva, um médio, que já atuou por diversos clubes da primeira liga argentina como o Arsenal de Sarandi, Deportivo Defensa y Justicia, Godoy cruz e Colon de Santa Fé.

Apesar de fracas ligações com Cabo Verde, o atleta apresentou-se disponível para representar a seleção nacional.

O último caso recente no futebol, se sucedeu em 2017, Luís Leal dos Anjos, jogador de origem cabo-verdiana que apresenta a seleção santomense de futebol, muito conhecido pelo público cabo-verdiano e português, atleta que já passou por vários clubes em Portugal como o Estoril Praia, Moreirense, União de Leiria, etc.

Em 2016, chegou na América do Sul, pelas mãos do Cerro Porteño do Paraguai e um ano depois foi contratado em 2017, pelo Club Atlético Newell's Old Boys, clube argentino que formou Leonel Messi.

Passando para a outra modalidade, no caso do basquete, Victor Andrade Toyo, filho de mãe cabo-verdiana da ilha de Santo Antão e de pai nigeriano, até onde se sabe, é o primeiro jogador nacional e de origem cabo-verdiana a atuar por um clube argentino na modalidade da bola ao cesto.

Neste momento joga na primeira divisão argentina, em representação do Obras Basquete, clube formador da estrela da NBA Manu Ginóbili.

Toyo já é internacional por Cabo Verde e esteve recentemente ao serviço dos Tubarões Azuis para o apuramento Afrobasket 2021.

Ficam assim atribuídos, de forma cronológica, os atletas nacionais e de descendência cabo-verdiana que atuaram e ainda atuam no Desporto argentino.

Eis a lista:

1º José Ramos Delgado - descendente - anos 60 - futebol - defesa central- falecido;

2º Adriano Custodio Mendes – nacional - anos 80 - futebol - meio campo-retirado;

3º Fernando Tissone - descendente- anos 2010 – futebol - médio defensivo - no ativo;

4º Cristian Tissone – descendente - anos 2010 – futebol - médio defensivo - no ativo;

5º Facundo Silva- descendente - anos 2010 – futebol - médio centro-ofensivo - no ativo;

6º Luís Leal- descendente - anos 2010 – futebol - extremo direito (avançado) - no ativo;

7º Victor Andrade Toyo- nacional - anos 2020 – basquete – Poste - no ativo.

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Autoria:William Vieira,19 jun 2020 7:35

Editado porSara Almeida  em  20 jun 2020 12:47

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