Mário Semedo, Presidente da FCF: “Queremos passar a primeira fase do Mundial. Vamos lutar para passar”

PorAndré Amaral,31 mai 2026 15:54

O presidente da Federação Cabo-verdiana de Futebol, Mário Semedo, considera que a histórica qualificação de Cabo Verde para o Mundial representa muito mais do que um feito desportivo: é uma afirmação da resiliência do país e da força da diáspora. Nesta entrevista, fala sobre o percurso até ao apuramento, o impacto da selecção nacional, os desafios do futebol cabo-verdiano e a ambição de surpreender no maior palco do futebol mundial.

É a primeira vez que Cabo Verde disputa um campeonato do mundo. Quando é que sentiu que a qualificação era possível e o que é que sentiu quando confirmou a qualificação?

Para ser mais preciso, foi depois do jogo com Angola, em Luanda, em que ganhámos, porque era uma deslocação complicada, não só pela valia da equipa de Angola, mas também porque era um dos concorrentes à vaga para o Mundial. Mas quando ganhámos em Luanda, tendo em conta o calendário — portanto, íamos receber cá os Camarões — eu disse que já estava tudo nas nossas mãos. Porque íamos à frente do grupo, tínhamos o jogo em casa com os Camarões e, tendo em conta o historial dos resultados que nós temos tido com os Camarões, eu acreditei que, de facto, íamos qualificar-nos.

Isto não é apenas um feito desportivo, é muito mais do que isso.

Acho que sim, é muito mais do que isso. Portanto, isso mexe com toda a nação cabo-verdiana, todos os cabo-verdianos. Levanta a autoestima dos cabo-verdianos, sobretudo na nossa diáspora. Portanto, penso que, como disse, é mais do que um objectivo desportivo, é a afirmação do país enquanto país resiliente, um país que consegue atingir objectivos mesmo em situações difíceis, mesmo com os condicionalismos que temos.

Sonhos, decepções, polémicas, houve um pouco de tudo ao longo dos anos. A participação de Cabo Verde num campeonato do mundo foi, durante muito tempo, um sonho considerado quase impossível. O que é que mudou no futebol nacional para que se conseguisse concretizar este sonho de participar num campeonato do mundo?

O primeiro é a ambição. Temos que ter ambição. Depois, a planificação, a organização e, depois, o trabalho, e ter uma boa equipa também de trabalho. Nós, a partir… Eu destaco sempre isso, da vinda do João de Deus como treinador para aqui. De facto, projectou o futebol cabo-verdiano através de um plano estratégico. E nós fomos trabalhando no sentido de implementarmos esse plano. E os objectivos que nós alcançámos constavam todos desse plano elaborado pelo João, com a colaboração também de técnicos cabo-verdianos. Depois, a organização. Melhorámos a organização da federação. Isso foi muito importante. E a ambição também. Quando falo de ambição, temos que ver que tínhamos e temos jogadores cabo-verdianos na diáspora que são mais-valias e tínhamos que ir buscá-los e trazê-los para a selecção. Havia alguma relutância, tendo em conta as condições na altura, mas, falando com as pessoas, mostrando o projecto, começaram a acreditar e começaram a vir. A presença também dos jogadores de fora, dos profissionais, foi importante para que hoje tivéssemos alcançado esse objectivo de estar no Mundial. Depois, é o trabalho, portanto, da organização. Ganhámos muita credibilidade junto da FIFA, junto da CAF, portanto isso também é importante e tem os seus efeitos a nível do futebol.

Grande parte dos jogadores que vão ao campeonato do mundo jogam lá fora. O que é que falta ao futebol nacional para ter mais jogadores que jogam em Cabo Verde na Selecção Nacional?

Repare, isso é um fenómeno mundial. Isso é um fenómeno mundial. Você vai ao Brasil, à selecção do Brasil, quase todos os jogadores também jogam fora. Na Argentina idem. Porque nós também já tivemos situações em que a maioria da equipa eram jogadores daqui, residentes. Mas, como disse, é um fenómeno normal no futebol. Quando há um jogador com valor, dificilmente fica no país. Terá que sair. Já tivemos o caso do Babanco, já tivemos o caso de Gegé, Stopira e outros também que saíram daqui. Mas que, pelo valor e pela qualidade que têm, acabaram por sair. Neste momento também tivemos aqui, temos aqui também jogadores que jogaram aqui, cresceram aqui, participaram nas competições aqui, mas saíram. Portanto, isso é um fenómeno a que nenhum país consegue escapar. Nenhum país. Portanto, os melhores saem para fora e têm melhores condições de trabalho, têm outras condições lá fora. Naturalmente, isso também é uma concorrência, têm condições à partida vantajosas em relação aos jogadores residentes. Mas não é porque não temos essa noção. Aliás, a própria FIFA também tem essa noção relativamente aos países africanos. Se reparar, não é só Cabo Verde, a nível de África isso é um fenómeno que acontece. Portanto, os melhores jogadores de cada país africano saem para a Europa, normalmente. A ideia da FIFA até, na altura, era tentar profissionalizar o futebol africano. Mas isso também não é fácil, portanto requer condições que nós não temos. No dia em que tivermos condições de poder reter os jogadores aqui, naturalmente que estarão mais presentes nas selecções.

O seleccionador nacional conseguiu fazer uma equipa competitiva, uma equipa resiliente. Como é que avalia o trabalho do Luís na Selecção Nacional?

O trabalho é positivo. Aliás, os resultados falam. Porque o actual treinador já participou em duas fases finais do CAN e está no Mundial. Portanto, penso que isso é o resultado de um bom trabalho que ele tem vindo a fazer.

Esta ligação entre Cabo Verde e a diáspora foi decisiva para o sucesso da equipa?

Foi decisiva e foi importante. Foi importante porque, repara, os jogadores que estão lá fora são profissionais, têm outras condições de trabalho. Portanto, é natural que, quando vêm para a selecção, acrescentem valor, naturalmente. Nesse aspecto, portanto, a diáspora foi muito importante, tem sido muito importante.

“Um pequeno país com um grande coração.” Estas são palavras da FIFA para descrever Cabo Verde depois da qualificação para o campeonato do mundo. Sente que esta selecção é um símbolo de superação e um exemplo para países pequenos como Cabo Verde?

Eu acho que sim. Eu acho que sim porque aqui, em Cabo Verde, dizemos que tamanho não é documento. Portanto, penso que outros países vão ter em conta a experiência de Cabo Verde, um país pequeno, com condicionalismos de ordem financeira e tudo, mas que, com trabalho, consegue atingir objectivos. No desporto, no futebol, com trabalho consegue-se atingir objectivos. Eu creio, pelo menos do feedback que eu tenho recebido dos meus colegas das federações africanas, que dizem isso claramente. Até gozam que têm que vir para Cabo Verde. É verdade. É por isso que eu disse: tamanho não é documento. No futebol, tudo é possível. Tudo é possível. Tudo, tudo, tudo mesmo. E nós vamos para o Mundial também com esse pensamento, cientes da realidade. Temos que ser realistas, mas não podemos perder a ambição. Isso é muito importante.

Cabo Verde calha num grupo que não é propriamente fácil.

Não, não é.

Espanha, Uruguai e Arábia Saudita. Que expectativas é que tem?

Temos um grupo muito forte. Começando pela Espanha, que é uma das três melhores selecções do mundo actualmente. Foi campeã do mundo. Temos o Uruguai, que também já foi campeão, que normalmente é uma selecção poderosa, com jogadores de alto nível em grandes equipas mundiais. E temos a Arábia Saudita, que tem feito uma aposta extraordinária no futebol, levando para lá os melhores jogadores. Portanto, uma aposta muito forte. Isso vai reflectir-se, está a reflectir-se, digamos, na selecção da própria Arábia Saudita, no futebol saudita. Repare que, no último Mundial, a Arábia Saudita apresentou-se muito bem e logo no primeiro jogo ganhou à Argentina, que viria a ser campeã do mundo. Portanto, são três selecções fortíssimas, mas, quando se está a este nível, não se pode olhar para os adversários. O que temos é que combater os adversários.

A FIFA alterou o formato de apuramento do campeonato do mundo a nível africano. Acha que se fez justiça ou devia ser ainda maior o número de participações de equipas africanas?

Penso que se fez justiça, primeiro, com o alargamento, mas entendo também que se deveria, ou que se deverá, continuar a trabalhar no sentido de se alargar a presença de mais selecções africanas no Mundial.

Que planos é que a FCF tem para capitalizar este apuramento histórico para um campeonato do mundo? Ou seja, como vai ser a partir daí?

Eu penso que o grande desafio que nós temos é o pós-Mundial. Porque, como se diz, não podemos voltar atrás, temos que caminhar para a frente. A expectativa que temos é apostar cada vez mais na formação. Portanto, isso é importante. Melhorar também as nossas competições internas, portanto isso é muito importante, e apostar forte na formação.

Em termos de infra-estruturas, esta presença também pode ser capitalizada?

As câmaras municipais têm que pensar nisso, têm que melhorar as infra-estruturas, porque nós temos uma carência a nível das infra-estruturas para as grandes competições. Porque temos que ter infra-estruturas para também atrair para aqui grandes eventos desportivos. Isso é muito importante para nós. O Estádio da Várzea precisa… é urgente. Nós contribuímos para o Estádio da Várzea com uma relva de 400 e tal mil dólares, na altura, mas neste momento vê-se claramente que aquilo está degradado. A relva, mas também a própria estrutura física do estádio, já não comporta e há riscos de segurança, e nós várias vezes alertámos sobre isso.

Vamos voltar ao Mundial. A campanha foi tudo aquilo que toda a gente conhece, campanha aprovada com sucesso. Já falámos do grupo em que Cabo Verde está incluído. Até onde é que acha que Cabo Verde pode chegar?

Nós temos um objectivo, que também é um desejo, de passarmos a primeira fase. Depois… seja o que Deus quiser, mas queremos passar a primeira fase. Sabemos que são adversários fortíssimos, mas queremos passar. E vamos lutar para isso.

Acha que a emoção da estreia pode afectar o desempenho da selecção?

Não. Sabe, há sempre aquela ansiedade da primeira vez, de estar lá. Mas creio que os nossos jogadores também têm experiência suficiente para saber controlar, digamos, essa emoção no início. Mas, logicamente, é um aspecto que conta muito. Por isso é que, na nossa equipa, a nossa estrutura técnica também tem lá pessoal para ajudar a superar essas emoções que normalmente surgem no futebol.

Estamos perante a maior e a melhor geração do futebol cabo-verdiano?

Em termos de resultados, sim. Mas já tivemos jogadores também com muita qualidade, com muita qualidade. Hoje as condições são outras, as oportunidades são diferentes, são outras. E esta geração soube aproveitar as oportunidades e as condições que foram criadas. Mas não podemos esquecer também as gerações anteriores, que fizeram muito pelo futebol cabo-verdiano.

Que mensagem é que deixa, não para os jogadores, mas para os cabo-verdianos, neste Mundial?

Primeiro, é de agradecimento pelo apoio, pelo carinho que têm demonstrado pela Selecção Nacional. Depois, é que continuem a apoiar e apostar, porque no futebol é importante que haja esse apoio em todos os momentos, nos bons e maus momentos.

Porque, quando um jogador recebe esse apoio vindo de fora, é outra coisa. Portanto, o apoio do público é importante também para os êxitos que possamos vir a ter.

Que legado é que fica desta participação histórica num campeonato como este?

Fica um legado de crença, de resiliência, de acreditar que é possível. A mensagem que se passa é que devemos continuar a trabalhar sempre e não desistir nunca.

As coisas hoje podem não estar a correr bem, mas temos que ser, entre aspas, teimosos e perseverantes na busca de objectivos maiores.

Foi reeleito agora há pouco tempo. Depois do Campeonato do Mundo, vai continuar à frente da Federação?

Sim, penso continuar. Se a saúde ajudar, penso continuar.

E depois candidata-se de novo?

Não, depois não. Este é o último mandato.

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5 Perguntas rápidas a Mário Semedo

O jogador mais importante desta geração?

Eu prefiro falar do colectivo, porque o futebol é colectivo.

Na campanha de qualificação, qual foi o momento mais marcante?

O jogo contra os Camarões, aqui na Praia.

No campeonato do mundo, o adversário que gostaria de evitar?

Brasil.

O sonho mínimo para Cabo Verde no Mundial?

Passar da primeira fase.

Quem é hoje a maior referência do futebol cabo-verdiano?

Para mim é uma pergunta difícil de responder.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1278 de 27 de Maio de 2026.

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Autoria:André Amaral,31 mai 2026 15:54

Editado porAnilza Rocha  em  31 mai 2026 17:36

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