Certificação abriu o mercado das grandes cadeias hoteleiras

PorJorge Montezinho,3 mar 2019 3:00

João Santos
João Santos

​A empresa avícula de São Vicente obteve há um ano a certificação ISO 22000. Há uma semana, uma auditoria internacional, obrigatória anualmente, renovou a licença. Hoje, metade da produção de ovos e frangos é vendida para os hotéis do Sal. Com o novo desenho de transportes marítimos inter-ilhas, o empresário João Santos acredita que em breve vai também começar a vender para a Boa Vista.

“Conseguimos a certificação para atingirmos os mercados mais exigentes, nomeadamente os hotéis, as cadeias de hotéis do Sal”, diz João Santos ao Expresso das Ilhas. “Na Boa Vista ainda não temos nenhum compromisso assumido porque ainda não conseguimos chegar lá com regularidade, o que se conseguirá com os novos transportes marítimos. Com a certificação conseguimos aumentar a nossa venda. Já estamos a vender para as grandes cadeias de hotéis”.

A SOCIAVE foi certificada em ISO 22000 em Março de 2018. A certificação é válida por três anos, mas a APCER anualmente vem fazer auditorias de acompanhamento e de renovação. Na semana passada, a empresa recebeu a primeira auditoria pós-certificação e a licença foi renovada.

A certificação é um processo longo, custoso e contínuo. A SOCIAVE teve de adaptar-se às exigências internacionais, teve de fazer modificações físicas, mas também de procedimentos, uma vez que a norma ISO 22000 requer uma série de procedimentos de funcionamento, como análises bacteriológicas e químicas periódicas. O trabalho começou há alguns anos e culminou em 2018.

“Tivemos de fazer um longo percurso e mesmo com a nossa dimensão tivemos dificuldades ao longo do percurso, imagine-se um agricultor de Santo Antão, ou do Fogo, ou do interior de Santiago. É difícil chegar aos hotéis do Sal e da Boa Vista, por razões de transporte, mas também por exigências dos operadores”, explica João Santos.

A SOCIAVE produz cerca de 50 mil ovos por dia. Nos frangos, em 2018, houve uma queda por causa da “concorrência desleal”, mas este ano tem a intenção de produzir cerca de 450 toneladas de frango. Em conjunto, a SOCIAVE e a AGROPEC, ambas administradas por João Santos, produziram, no ano passado, cerca de 26 milhões de ovos, metade seguiu para os hotéis. Quando o mercado da Boa Vista se abrir à empresa, esta percentagem irá aumentar.

“Em termos de negócios”, refere o empresário, “mudou o facto do consumidor cabo-verdiano estar cada vez mais exigente e é bom que assim seja. O consumidor com algum poder de compra porque, infelizmente, o mais pobre continua a comprar ligando ao preço e não à qualidade”.

E a concorrência desleal, referida pelo empresário, ataca em força o consumidor com menor capacidade económica. “Em São Vicente está uma desgraça, há empresas que publicitam a venda de perna de frango a 130$00, vindo dos EUA e nenhuma autoridade toma conta deste assunto. É impossível um preço tão baixo, alguma coisa não está bem, mas isso cabe às autoridades de concorrência e sanitárias verificar. Isso tudo leva com que as empresas que estão a investir, arduamente, muito dinheiro na certificação estejam a sofrer uma concorrência desleal complicada. Concorrem com empresas de comercialização que não dão emprego, que importam tudo, não correm riscos e é este o nosso mercado”.

“É necessário que o governo faça a sua parte”, continua o investidor, “nomeadamente em relação à concorrência. É necessário que as agências reguladoras funcionem como deve ser. Neste momento estão com o foco na produção de aguardente, muito bem, é um problema de saúde público, mas esquecem-se dos outros problemas, nomeadamente a qualidade do frango que é importado. Aliás, não se importa o frango, 90 por cento são subprodutos, como a perna de frango. Porque não importam o frango inteiro? Porque não importam peito de frango a essa escala? Porque é um subproduto, ultracongelado, muito tempo fora, e mandam-no para aqui”.

E este não é o único desafio enfrentado pelos empresários nacionais. A entrada no mercado turístico é positiva, porque finalmente começam a criar-se laços entre o sector e a economia local. Mas não deixa de ser um mercado com datas marcadas. “Temos um grande problema: a sazonalidade do turismo. O turismo começa em Outubro, vai até Março e depois há aquela queda a pico, os hotéis passam de overbooking para taxas de ocupação de 10%. Isto cria problemas aos hotéis e à indústria que produz para fornecer aos hotéis. Temos uma indústria que não pode travar, que não pode reduzir a produção. Quando o gap é grande cria-nos problemas. No ano passado tivemos problemas graves porque em Maio o turismo caiu a pique e só veio a animar um bocadinho em Julho, com a organização, no Sal, do encontro de chefes de Estado da CPLP. É importante que o governo promova o país nessa época baixa. Não é o governo que constrói e gere hotéis, nem frotas aéreas, mas é o governo que tem as responsabilidades de promover o país. E pode-se sempre procurar mercados alternativos”.


Um ambiente de negócios a melhorar

A economia nacional pode navegar em mares mais tranquilos se, segundo o empresário, houver vontade política, e não falamos apenas dos transportes marítimos. João Santos defende que o governo, na convenção de estabelecimento que faz com os operadores, tem de referir no documento que os operadores terão de dar preferência aos produtos nacionais, desde que tenham qualidade e preço competitivo. Mas deve também fazer com que os hotéis tenham uma responsabilidade social.

“Nenhum cabo-verdiano estará satisfeito com o Sal ou a Boa Vista. Eu fico triste quando vejo dois mundos a serem construídos, um de extrema miséria, onde vivem os cabo-verdianos, e o outro, o dos hotéis. É um conflito social para o qual estamos a contribuir. Por outro lado, é necessário que o estado veja formas de compensação e há duas formas: directa ou indirecta. Pode compensar o empresário que exporte para os hotéis, porque é uma exportação interna, logo uma diminuição nas importações. Se você exportar 100 mil contos para os hotéis pode diminuir os impostos e em vez de pagar 22 por cento de imposto sobre os lucros pode pagar 20, ou pode-se dar aos hotéis incentivos fiscais para comprar uma percentagem de produtos dentro do país. São coisas que podem ser feitas, temos é de ter vontade política”.

De qualquer forma, segundo o investidor, já se sentem melhorias. “Estou muito esperançoso com os transportes marítimos. Com a solução que se encontrou e já vejo, mesmo com os navios existentes, que se houver uma concertação entre os armadores nacionais, teremos já melhorias nos próximos dias. Havendo uma maior concertação, podemos ter ganhos imediatos”.

“Com a solução que se vislumbra para breve nos transportes aéreos, com o hub no Sal, apesar da nova companhia ter de ver com outros olhos a cidade da Praia e do Mindelo – terá de haver voos directos para a diáspora – vejo com boa expectativa o futuro e o ambiente económico. E isto aliado ao novo relacionamento que actualmente se tem com o ministério das finanças. Neste momento temos um interlocutor que recebe as pessoas, não se sente ambiente de desconfiança, e respeita o princípio do encontro de contas. Há uns anos o estado devia às empresas – restituição do IVA, facturas por pagar – não pagava, mas o contribuinte era obrigado a pagar os seus impostos. Dois pesos e duas medidas. Neste momento o problema ficou resolvido”, sublinha João Santos.

Quanto ao futuro, o empresário mindelense acredita que o mercado interno poderá ser a solução mais viável. “Não acredito nas relações comerciais com África. Isso é uma utopia das pessoas que falam de um mercado de X milhões. É mentira, pura mentira. Acredito que é possível fazermos negócio com a Guiné-Bissau, com Angola, com Moçambique, com São Tomé, por razões culturais e de língua, mais nada. Não é a CEDEAO que nos vai abrir as portas no Senegal, ou no Mali, porque isso é impossível. Já estivemos na Guiné, nós e um grupo de empresários, fizemos negócios, infelizmente a instabilidade política não permite neste momento qualquer troca comercial, mas dou-me por satisfeito com a diminuição de importação. Os grupos hoteleiros importam cerca de 60 milhões de euros de produtos alimentares por ano. Se baixarmos essas importações para metade daqui a uns dois ou três anos, todos os empresários do ramo estarão a dar uma boa contribuição para as nossas reservas cambiais. Temos é de nos preocupar em produzir com qualidade e preços competitivos” conclui João Santos.

A norma ISO 22000 – Sistema de Gestão da Segurança Alimentar, baseia-se nos princípios do HACCP do Codex Alimentarius, internacionalmente reconhecidos. O enfoque deste referencial é a segurança alimentar em todas as etapas da cadeia de fornecimento.

Uma organização certificada por esta norma demonstra ao mercado que tem um sistema de gestão da segurança alimentar com capacidade de fornecer produtos seguros para o consumidor quando usados segundo a utilização prevista, em conformidade com requisitos legais e regulamentares, bem como os dos clientes, relacionados com a segurança alimentar.

Texto originalmente publicado na edição impressa doexpresso das ilhasnº 900 de 27 de Fevereiro de 2019.

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Autoria:Jorge Montezinho,3 mar 2019 3:00

Editado porSara Almeida  em  4 mar 2019 10:27

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