Com técnica inovadora, Nortuna coloca São Vicente no mapa mundial da aquacultura

PorNuno Andrade Ferreira,12 dez 2020 7:55

Investimento norueguês poderá chegar a 200 milhões de euros. Empresa prevê exportar 30 mil toneladas de atum por ano.

O projecto foi anunciado em Outubro e as obras devem arrancar no início de 2021, ficando concluídas alguns meses mais tarde. Se tudo correr bem, até ao final de 2022 é provável que a unidade de aquacultura dos noruegueses da Nortuna, a ser instalada na zona de Flamengo, em São Vicente, comece a exportar uma das espécies marinhas mais procuradas, ameaçadas e caras, o atum-rabilho.

Trata-se de um investimento de 150 a 200 milhões de euros, a ser concretizado ao longo de uma década, em várias etapas. Segundo Luís Rodrigues, country manager do promotor, numa primeira fase, a Nortuna espera produzir 500 toneladas/ano, subindo progressivamente a parada até atingir às 30 mil toneladas/ano (mas podendo, no limite, ultrapassar a fasquia das 100 mil toneladas).

“Já fizemos um estudo de impacto ambiental e a empresa já está a finalizar o seu estabelecimento. A nossa intenção é, já a 18 de Janeiro, começar o trabalho de escavação e construção do estaleiro. A 15 de Abril, os estaleiros deverão estar terminados, para podermos importar os ovos e começar o trabalho”, explica.

A principal característica da técnica a ser seguida em Cabo Verde, e que foi desenvolvida ao longo da última década, é que todo o ciclo produtivo será feito em aquacultura, inclusive a reprodução. Deste modo, deixa de ser necessária a captura de juvenis em alto mar.

A Nortuna estima que, a médio e longo prazos, o empreendimento possa gerar 400 postos de trabalho directos. Em cima da mesa está a possibilidade de expansão futura para Santo Antão e São Nicolau.

“Vamos criar excelência em aquacultura. Podemos ajudar a criar outros tipos de peixe, que podem ser exportados para o estrangeiro. Vamos pôr Cabo Verde no mapa de aquacultura”, acredita Luís Rodrigues.

Ganhos nas exportações

O projecto da Nortuna chegou à Cabo Verde Trade Invest (CVTI) no início do ano. Para o presidente da agênciapública responsável pela captação de investimento directo estrangeiro, José Almada Dias, os planos da empresa norueguesa enquadram-se na estratégia de diversificação económica do país.

“Para já, porque vai para a área da indústria, num sector de alta-tecnologia. Estamos a falar da espécie mais cara de atum, mais apreciada para sushi, que pode atingir, no mercado internacional, entre 30 a 40 euros o quilo”, destaca.

O responsável da CVTI realça os ganhos esperados do lado das exportações, com a possibilidade de multiplicar por dez o valor actual.

“Neste momento, continuamos a ter uma exportação relativamente diminuta, para o tamanho da nossa economia. Exportamos cerca de 90 milhões de euros por ano, combinado entre Frescomar, empresas de calçado e vestuário. Este projecto, só na primeira fase, é capaz de multiplicar isto por dez”, admite Almada Dias.

Governo optimista

O governo está optimista quanto à dinâmica que o projecto da Nortuna poderá trazer a São Vicente. O ministro da Economia Marítima, Paulo Veiga, refere que o investimento norueguês vai ao encontro dos planos de implementação da Zona Económica Especial da Economia Marítima e de desenvolvimento da economia azul.

“É de extrema importância para Cabo Verde. O governo está a dar toda a atenção, tendo em conta o facto de ser um investimento pioneiro, o primeiro do tipo na nossa região, o que irá colocar o país no mapa nesse sector que, como sabemos, é muito desenvolvido na Ásia e nos países nórdicos”, comenta.

A “única saída”

Para o presidente da associação ambientalista Biosfera, “a aquacultura parece ser a única saída” perante a diminuição de stocks pesqueiros a nível mundial. Contudo, Tommy Melo alerta para o facto de a prática ainda estar em fase de desenvolvimento e para os cuidados a ter, a fim de se evitarem impactos negativos no ambiente.

“Temos vantagens, porque vai diminuir a pressão sobre o recurso selvagem. A aquacultura é feita em condições controláveis e consegue-se embutir no produto aquilo de que o homem realmente necessita. Os peixes de aquacultura, hoje em dia, são peixes em que tudo é pensado ao pormenor, a quantidade de gordura, de proteína, etc.”, observa.

“É preciso ter cuidado, mas isso é como em tudo. Tudo pode ter impactos muito negativos no ambiente, se não for feito de forma adequada. Existem muitos perigos que podem advir da aquacultura, nomeadamente os despejos [para o mar]”, alerta.

O presidente da Biosfera sublinha como positivo o facto de a empresa que vai investir em São Vicente ser norueguesa, país com vasta experiência na área.

A Noruega exporta anualmente mais de um milhão de toneladas de peixe de aquacultura. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 993 de 9 de Dezembro de 2020. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,12 dez 2020 7:55

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  4 ago 2021 23:21

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