PCA da Electra quer empresa na “linha da frente da transição energética”

PorAndre Amaral,21 nov 2021 8:34

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As ‘energias limpas’, o sol e o vento, são o futuro a seguir na produção de electricidade em Cabo Verde. O objectivo é tornar o país cada vez menos dependente dos combustíveis fósseis e, também, das flutuações dos preços do petróleo nos mercados internacionais. Mas para que essa aposta se concretize é preciso, primeiro, resolver o problema dos roubos de electricidade.

As energias renováveis são uma aposta que os sucessivos governos de Cabo Verde têm tido como objectivo a alcançar num futuro mais ou menos distante.

O actual governo tem anunciado, desde 2016, que está a colocar em prática um plano com o objectivo de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis em Cabo Verde. Com isso em mente há, actualmente, cinco concursos a decorrer para a instalação de centrais eléctricas (solares e eólicas) nas ilhas de Santiago, São Vicente, Sal e Boa Vista.

Com uma taxa de penetração das energias renováveis a rondar, actualmente, os 20%, a meta é chegar aos 100% de produção de electricidade através das diferentes energias renováveis até 2040.

No entanto, este é um objectivo que coloca diversos desafios à Electra enquanto concessionária da rede de transporte de electricidade.

“O nosso papel tem sido um papel de estar na linha da frente, na vanguarda desta transição energética. Porquê? Porque sem as redes e sem Electra, a meta que o Governo definiu não será possível de atingir”, aponta Luís Teixeira, PCA da Electra em conversa com o Expresso das Ilhas.

Segundo dados fornecidos pela empresa, a Electra tem no seu plano de negócio para o triénio 2022-24 o objectivo de promover e acelerar a transição energética. “Neste momento temos mais ou menos 23,5 Megawatts de produtores independentes eólicos, nomeadamente a Cabeolica e Electric Wind, e a Electra tem cerca de 900 quilowatts eólicos, também tem cerca de 6.5 Megawatts solar na Praia e no Sal”, aponta Luís Teixeira que acrescenta que a ideia “é chegar a 58 a 60 megawatts até 2024”.

Atingir este objectivo significa que há a necessidade de a Electra aumentar a produção “em cerca de 30 mega”. “Aqui temos que considerar os projectos em Santiago, Sal e São Vicente que estão em concurso, a central solar da Boa Vista e mais quatro projectos de médio porte, estamos a falar de centrais de 1.3 mega e 0.4 mega, nomeadamente nas ilhas mais pequenas. A empresa tem que preparar a sua rede para receber toda essa potência. E com essa potência na rede vamos chegar a cerca de 30% [de energias renováveis], mais ou menos”, esclarece o PCA da Electra.

Segundo este responsável, além do plano de negócio 2022-24 prever uma aposta crescente nas energias renováveis, está igualmente prevista a renovação do parque automóvel. “Vamos mudar também as nossas viaturas. Vamos começar a ter pelo menos 30% de viaturas eléctricas”. “Também estamos a preparar para ter o cadastro de todos os micro-produtores com certificados de exploração, ou seja, as residências, as famílias, as empresas que hoje têm seus sistemas micro-produtores, para estarem ligados à rede. De uma forma geral, há um alinhamento entre a Electra, que como disse é a principal concessionária, e o governo, que é quem define a política energética e que tem as suas metas traçadas”.

Roubo de energia coloca transição em causa

Assim, a Electra enquanto parceiro do governo “está na linha da frente”.

“É preciso uma série de investimentos na rede. Na questão das perdas temos que ter uma rede cada vez mais forte. Temos que vencer também o desafio das perdas eléctricas, não só na perspectiva de sustentabilidade, mas também ter uma rede mais segura. Quanto mais roubo e mais fraude tivermos de energia, mais vulnerável vai ficar a rede e vamos ter mais perturbações e apagões”, aponta Luís Teixeira.

Assim, para que a transição energética seja feita de forma “sustentável, inclusiva e segura” é preciso “acabar com as perdas eléctricas, sobretudo as não comerciais que afectam muito o sistema eléctrico”.

Segundo valores revelados pela Electra, há cerca de 100 milhões de quilowatts-hora por ano, ou seja, mais de 100 gigawatts-hora por ano que são roubados através de ligações eléctricas ilegais. “Estamos a falar de 2,6 milhões de contos, mais ou menos. É um valor muito elevado, que põe em causa a sustentabilidade de todo o sistema eléctrico”, aponta Luís Teixeira.

“Não é só um problema económico”

Mas a questão da fraude e do roubo de energia “não é só um problema económico, é um problema social”, refere Luís Teixeira que, no entanto, defende que há a necessidade de “desmistificar que o roubo de energia ou a fraude de energia tem a ver só com as pessoas mais vulneráveis ou as pessoas que têm menos rendimentos”. Hoje em dia o roubo de electricidade é um fenómeno que já chega aos bairros de classe média. “Isto é um aspecto que precisamos desmistificar. Não é um problema só das classes mais desfavorecidas. Segundo aspecto, a questão do roubo de energia é também um problema de concorrência desleal. Já disse isso várias vezes, volto a repetir. Nós temos, nas acções no terreno, detectado ligações clandestinas em operadores económicos e isto é muito grave, porque põe em causa a concorrência. Estamos a falar da concorrência desleal. Se temos um restaurante que paga a sua factura e outro que não paga, isso não é correcto. Se temos um supermercado que paga a sua factura e outro não paga, o outro vai por um produto mais barato, porque não paga energia. Aqui estamos a falar da concorrência desleal”.

Um problema económico, um problema social, concorrência desleal… o roubo e a fraude de energia são também “um problema jurídico, um problema dos tribunais”.

Tipificado em crime pela lei número 73/VIII/de 2014 de 19 de Setembro, que diz que furto e fraude é um crime punido com pena de prisão de 1 a 5 anos, o número de casos julgados desde que a lei entrou em vigor é reduzido. “Notamos que há uma certa lentidão. Os processos quando chegam aos tribunais demoram muito tempo. Dos cerca de dois a três mil processos apenas 200 ou 300 é que vão a julgamento. É muito pouco”, diz Luís Teixeira que defende que com isso se passa “um certo sentimento de impunidade”.

“As pessoas quando prevaricam e não são punidas, voltam a prevaricar. Portanto, aqui é uma questão também jurídica. É preciso aplicar penas, cumprir a lei”. Depois, e por fim, é também uma questão de segurança das pessoas, “porque já tivemos situações de morte de crianças”.

Tudo isto são factores que na prática vão pôr em causa a rede de abastecimento de electricidade. “Vamos ter uma rede cada vez mais vulnerável, mais fraca. É mais difícil termos cada vez mais potência renovável na rede quando a potência renovável exige uma rede forte para que tenhamos menos perturbações. Quanto mais pessoas e instituições tivermos a aceder à nossa rede, a mexer na nossa rede, mais perturbações a rede vai ter e pior vai ser para termos potências renováveis na rede.”

Em suma, “é claro que há outras questões, mas as perdas também estão relacionadas com a questão das renováveis. Como disse, é sobretudo um problema do país que tem que ser atacado”.

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A não resolução das perdas irá acabar por colocar em causa a sustentabilidade de todo o sector eléctrico, defende Luís Teixeira que reconhece que este é um problema da empresa, mas um problema que “a Electra sozinha não vai conseguir resolver”.

“Precisamos do apoio de todos, da polícia dos tribunais e vamos trabalhar com os bairros também para termos pessoas nos bairros que nos ajudem neste combate”.

Para ajudar a diminuir as perdas não comerciais a empresa está a fazer uma aposta na componente tecnológica. “Estamos apostar nos contadores inteligentes. Neste momento já temos mais de dois mil contadores inteligentes instalados e no nosso plano de negócio queremos chegar a 7500 contadores inteligentes. Vamos avançar agora um projecto-piloto com uma consultora estrangeira que é para fazer um estudo num bairro. Temos aqui o apoio da USAID, que é a cooperação americana, num projecto piloto também. Temos uma série de acções que têm a ver mais com a parte de inteligência da tecnologia. Porque o combate às perdas também tem esta parte da tecnologia e da inteligência”.

Uma aposta que vale a pena?

Questionado sobre se as energias renováveis são rentáveis tanto para o produtor como para o consumidor, o PCA da Electra não tem dúvidas em responder que sim. “Aqui temos que diferenciar. Neste momento todos investimentos nos projectos – que vão ser instalados agora no âmbito do Master Plan – vão ser feitos pelos privados”, esclarece, apontando que à Electra estão reservados dois papéis. “O primeiro papel é garantir a integração desta potência na rede, assegurando as condições técnicas para que não haja perturbações a nível da tensão e da frequência. Portanto, tem que se garantir esta questão técnica. É a Electra que autoriza, em articulação com Direcção de Energia, essa interligação à rede. O segundo aspecto é o contrato de compra de energia que é feito entre a Electra e o promotor. Sem isso o projecto não avança”.

Assim, à Electra está reservada a função de garantir a integração técnica segura e depois a compra de energia. “Até agora temos dois produtores independentes, temos um projecto que já vem de há muito tempo, que que é a Cabeólica, que está em quatro ilhas, com quem há um contrato e onde a Electra compra energia. Se virmos esse preço, podemos dizer que é um preço um bocadinho exagerado. A Electra e o Governo, inclusive, têm tentado negociar. Já houve algumas melhorias, mas o preço do quilowatt-hora ainda é um bocadinho alto, mas é um contrato que temos que cumprir. Depois deste contrato fizemos um contrato com outra operadora independente, que é a Eletric Wind, que tem preços que já consideramos razoáveis”.

Entretanto, os projectos que vão entrar agora em funcionamento vão passar por um processo de concurso e no final vai-se negociar preços. “Até agora nós não temos nenhum preço negociado, mas acreditamos, e é a nossa expectativa, que os preços vão ser na ordem dos cinco, seis ou sete escudos por quilowatt-hora o que já é um bom preço”, diz Luís Teixeira.

“Se for esse o preço, acreditamos que vai ter um impacto forte, porque hoje as renováveis são cada vez mais baratas. O preço da energia renovável hoje é competitivo face ao preço da energia térmica, isto a nível das grandes centrais. Eu acredito que podemos chegar a preços de quilowatts hora na ordem” dos referidos (cinco, seis ou sete escudos por quilowatt-hora).

Valores que contrastam com os sempre flutuantes preços da produção de energia através de combustíveis fósseis. “Com base no ano 2020, o custo médio atacado de produção electricidade térmica é de cerca de 16,5 escudos, mais ou menos. Estou a falar dos preços do ano passado. Hoje, tivemos um pequeno aumento por o combustível ter ficado mais caro. Mas podemos falar entre 15 e 20 escudos, dependendo da ilha, pois temos ilhas que trabalham a gasóleo, outras a fuelóleo. Claro que há outros custos que temos que incorporar aqui, que têm a ver com a questão da manutenção, etc, mas o preço das energias renováveis é muito competitivo, quando comparado com preço da produção térmica”.

Onde também já se nota competitividade é no sector da microgeração. “Hoje as empresas que estão a instalar sistemas de microgeração estão a ter redução do valor da factura na casa dos 30%. Instala-se um sistema hoje e o payback é a três ou quatro anos, ou seja, o investimento tem retorno nesse período. Portanto, eu acho que o preço hoje é competitivo e agora, com esta tendência altistas dos combustíveis, torna-se ainda mais competitivo”.

Mas a aposta nas energias renováveis traz consigo a necessidade de investimentos tecnológicos. Um deles é a instalação de sistemas de armazenagem.

Luís Teixeira explica que, com o aumento da taxa de penetração das energias renováveis, “vai chegar um momento em que vamos ter que introduzir os sistemas de armazenamento, porque as renováveis têm esta desvantagem. São fontes intermitentes e quando tivermos excedentes de energia que a rede não tem capacidade de absorver, vamos ter que armazenar essa energia e usar quando for necessário”.

É aqui que entra o armazenamento. “A Electra, neste momento, com o Governo, tem um projecto de uma bateria de um megawatt-hora, no Sal, que vai arrancar agora. Já está tudo pronto, porque o Sal tem produção renovável excedente. Precisamos armazenar a energia para depois injectar na rede”.

O Master Plan da Electra prevê que se caminhe para alcançar os 54% de energias renováveis, por isso, cerca de 18 a 20% da energia vai ter de ser armazenada. “Vamos ter que ter uma capacidade de armazenamento à volta dos 18 a 20%, porque a partir dos 30 ou 40% já entramos no limite técnico onde qualquer flutuação a nível da frequência e da tensão pode provocar um blackout. Precisamos entrar aqui com um sistema de armazenamento. Está previsto um projecto de uma central hidroeléctrica à base de pump-storage, ou seja, uma central com sistema de hidrobombagem, com uma capacidade de cerca de 20 megawatt que vai resolver, pelo menos aqui em Santiago, o armazenamento. E há outros projetos também a nível da bateria que podem ajudar. Para dizer que, para chegarmos aos tais de 54% e à meta final de 2040, que é de 100%, temos que ter armazenamento”, conclui. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1042 de 17 de Novembro de 2021.

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Autoria:Andre Amaral,21 nov 2021 8:34

Editado pormaria Fortes  em  22 nov 2021 8:07

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