Risco elevado de uma recessão global

PorJorge Montezinho,25 set 2022 8:47

Não é uma certeza, mas não pode ser descartada. Desde os anos 70 do século passado, o mundo já enfrentou cinco recessões – a última em 2020, com a pandemia. Além dos rastos de destruição económica, as recessões anteriores também nos ensinaram sobre o que acontece antes de qualquer grande recuo económico. E muitos desses factores estão já a ocorrer.

Só passaram dois anos desde a recessão global provocada pela pandemia e a economia mundial volta a enfrentar desafios complexos. À medida que o crescimento desacelera, aumentam os medos de uma recessão global iminente. Desde o início do ano, uma rápida deterioração das perspectivas de crescimento, a que se juntou o aumento da inflação e o aperto das condições de financiamento, acendeu um debate sobre a possibilidade de uma recessão global. O estudo do Banco Mundial: “Uma recessão global é iminente?”, publicado há dias, apresenta uma análise sistemática da evolução recente da actividade económica e uma avaliação dos possíveis cenários macroeconómicos de curto prazo.

As previsões para o crescimento global em 2022 e 2023 baixaram significativamente desde o início do ano. Embora não apontem para uma recessão global em 2022-23, a experiência de recessões anteriores sugere que pelo menos dois desenvolvimentos, que já se materializaram nos últimos meses ou podem estar em andamento – como veremos mais à frente –, aumentam a probabilidade de uma recessão global no futuro próximo.

Os decisores políticos têm de percorrer um caminho estreito, que requer um conjunto abrangente de medidas do lado da procura e da oferta. Do lado da procura, a política monetária deve ser usada de forma consistente para restaurar, em tempo útil, a estabilidade de preços. A política fiscal tem ainda de priorizar a sustentabilidade da dívida a médio prazo, ao mesmo tempo que apoia os grupos vulneráveis. Do lado da oferta, são precisas medidas para aliviar as restrições que enfrentam os mercados de trabalho, de energia e as redes comerciais.

A recessão global

Nos últimos 50 anos, a economia global passou por cinco recessões: em 1975, 1982, 1991, 2009 e 2020. Durante esses episódios, a produção global per capita caiu em média 1,9% a 3,9%. Tendo por base as últimas projecções de crescimento populacional, a economia global entrará recessão se o crescimento anual real do PIB mundial cair abaixo de 1%.

A produção global aumentou durante as três primeiras recessões, mas diminuiu em 2009 e 2020. Além dos declínios no PIB per capita, as recessões globais são acompanhadas por desacelerações na produção industrial global, no comércio, nos fluxos de capital, no emprego e no consumo de petróleo – todos ao mesmo tempo a nível internacional.

As recessões globais foram associadas à convergências de vários factores e incluíram crises financeiras (1982, 1991, 2009), grandes mudanças nas políticas (1982), movimentos acentuados nos preços do petróleo (1975, 1982) e uma pandemia (2020). A recessão global de 2020 foi de longe a mais profunda e a mais sincronizada internacionalmente.

As pistas

Em Agosto, as projecções de crescimento económico baixaram para 2,8% em 2022 e 2,3% em 2023, uma descida que afectou a maioria dos países – mais de 90% das economias avançadas e 80% das economias em desenvolvimento.

Estas desvalorizações não implicam uma recessão global em 2022 e 2023, no entanto, indicam que a economia mundial deverá ter um crescimento mais fraco no próximo ano do que em 2022.

Mas se as recessões globais anteriores são um guia, ainda há pelo menos duas razões para nos preocuparmos com o risco de uma recessão global a curto prazo. Primeiro, devido às actuais perspectivas de crescimento fraco, mesmo um choque negativo moderado pode levar a economia global à recessão.

Em segundo, indicadores de actividade económica global, como produção industrial mundial, comércio e consumo de petróleo, desaceleraram nos dois anos anteriores às recessões. Actualmente, vários desses indicadores enfraqueceram no ano passado, e para alguns deles, como o crescimento do PIB global, o ritmo do declínio projetado ao longo de 2021 foi muito mais rápido do que em recessões globais anteriores.

Os 3 cenários de curto prazo

O estudo do Banco Mundial traça três possibilidades para o futuro: uma de base, a segunda é de queda acentuada e a última é a de recessão global. No primeiro cenário, é assumido que os ventos contrários dos mercados de mercadorias e as interrupções na cadeia de abastecimento diminuem. Na política monetária, as taxas de juros globais de curto prazo devem subir 1,6% em 2021 para um pico de 3,8% em 2023. Neste cenário, o crescimento global desacelera de 2,9% em 2022 para 2,4% em 2023, antes de se recuperar para 3% em 2024. A inflação, depois de atingir o pico de 7,7% em 2022, será de 4,6% em 2023 e 3,2% em 2024.

O segundo cenário, de queda acentuada, acontece se as pressões inflacionárias persistirem, o que obrigaria a um aperto político mais intenso do que o previsto para fazer baixar os preços. Nesse cenário, a economia global ainda conseguia fugir de uma recessão. No entanto, experimentaria uma desaceleração global ao nível de 2001 e pior do que as de 1998 e 2012.

O cenário de recessão global pressupõe que as principais economias tenham um aumento ainda maior de inflação do que o previsto no cenário anterior. Os decisores políticos, em simultâneo, respondem implementando políticas de aperto maiores do que as esperadas aumentando as taxas de juro. Em resultado, as taxas reais globais de curto prazo aumentariam, subindo 560 pontos base de 2021 a 2023 – um aumento comparável ao de 440 pontos base que ocorreu entre 1980 e 1982. A economia global entraria assim numa recessão de magnitude semelhante à de 1982.

O forte aperto das condições financeiras globais ameaçaria especialmente as economias em desenvolvimento, como a cabo-verdiana, que têm grandes défices de conta corrente e dependem fortemente de influxos de capital estrangeiro, bem como os países, como Cabo Verde novamente, com altos níveis de dívida pública.

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Autoria:Jorge Montezinho,25 set 2022 8:47

Editado porAntónio Monteiro  em  1 dez 2022 23:28

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