Um futuro cheio de dúvidas

PorJorge Montezinho,16 out 2022 9:12

Uma guerra que não se sabe quando acaba, uma pandemia que ainda não acabou e uma crise que ninguém pode dizer como vai acabar têm virado do avesso as economias mundiais e a cabo-verdiana não é excepção. O (possível) futuro económico, o (provável) impacto em Cabo Verde e as (incertas) expectativas para o curto/médio prazo, nesta entrevista com o economista e mestre em econometria Paulo Monteiro Júnior.

Que análise faz da situação actual e que evolução podemos esperar para os próximos tempos?

Há um conceito muito importante e que está a jogar um papel enorme que é a incerteza. E penso que é isso que marca a conjuntura, sobretudo tendo em conta a balança de pagamentos que Cabo Verde tem com os países da Zona Euro. Portanto, a incerteza pesa muito na situação económica, quer a curto prazo, quer também a médio prazo, ou seja, nos próximos 2 a 3 anos.

Quais serão os principais desafios para Cabo Verde?

O principal será a dívida pública, que manifestamente é insustentável. É prioritária uma reestruturação da dívida, e nalgumas circunstâncias até o próprio perdão da dívida.

As subidas das taxas de juro não são boas notícias para essa dívida pública.

De maneira nenhuma. Não sei qual é a percentagem de dívida endereçada ao EURIBOR [A taxa euribor representa os tipos de taxas de juros aplicados a empréstimos pelos bancos da zona euro. No fundo, é o preço que os bancos atribuem ao dinheiro. Como a guerra na Ucrânia está a gerar uma forte inflação na zona euro, o Banco Central Europeu adoptou uma política financeira mais austera, aumentando as taxas], mas deve haver uma percentagem significativa, daí a importância da reestruturação da dívida pública.

Por falar em dívida pública. Há umas semanas o presidente da União Africana disse que os empréstimos do Banco Mundial não deviam contar como dívida pública. Concorda?

Tenho por princípio que se devemos temos de pagar. Até porque há uma reputação que se pode perder. Tem de se pagar a dívida. Pode haver reestruturações, pode haver perdões, mas dívida é para pagar.

As linhas gerais do Orçamento de Estado para 2023 foram apresentadas recentemente, com as prioridades a irem para a protecção das pessoas e das empresas, para o relançamento da economia e para um país futuro mais resiliente e sustentável. É a resposta necessária a uma crise que dura há seis anos?

É uma tripla crise que temos de fazer face. A seca, depois veio a Covid e agora a guerra. Um produto que importamos muito é os combustíveis e o impacto que a guerra está a ter nos seus preços é enorme. E estes preços ainda devem ser agravados. Aliás, ainda por estes dias temos vistos as filas nos países europeus para abastecer os carros.

Ainda sobre as crises, quando em 2020, com a pandemia, quando o país perde praticamente 15% da riqueza nacional, foi um golpe que ainda hoje, 2 anos depois, tem ainda um grande peso na situação actual da economia cabo-verdiana?

Sim. Bem, há um aspecto que é quase inevitável, que é a inflação. A nossa percentagem de importação é muito elevada e vamos ainda sofrer mais o impacto da inflação importada. Não estou a ver, no médio prazo, a possibilidade de encontrar alternativas às nossas importações de bens e serviços. E isso afecta, além da inflação, a balança comercial do país. Há um sem número de situações que se acumulam e que levam a que não esteja a ver uma saída do país desta crise no curto prazo.

No meio dessas incertezas e desse acumular de situações, como refere, as famílias e os empresários não estão muito confiantes no futuro. Como se recupera essa confiança?

Temos uma percentagem de famílias pobres bastante significativa e que se agravou com efeito da pandemia. O Estado tem feito o que pode que é tentar aumentar as transferências para as famílias, mas ao mesmo tempo há um problema sério com as empresas e penso que terá de haver investimento público nas empresas. Como se pode fazer isso? Provavelmente passará pelo perdão das dívidas. E há outra coisa com que é preciso ter atenção: as moratórias. A percentagem de incumprimento em Cabo Verde é elevada e com os choques recentes é preciso aumentar a resiliência das empresas. Por outro lado, temos em Cabo Verde um problema muito grande de competitividade, que tem de ter a importância que não tem tido. E temos também a questão do capital humano, onde se tem de investir muito para melhorar.

Por falar no futuro, os sectores prioritários identificados são o turismo, o digital e a economia azul. Espera que se aproveitem as janelas de oportunidade que surgirem?

O turismo é das poucas saídas para o nosso país. O digital e a economia azul poderão ser também as mais imediatas. Na economia digital, poderemos vender serviços ao exterior, mas o sector tem de evoluir ao ritmo desejado. A economia azul traz uma exigência de infraestruturas, de meios de comunicação, de transportes e de formação que faz com que, na minha opinião, não seja para o curto prazo.

Para terminar, regresso à apresentação do orçamento para 2023, onde o Primeiro-Ministro disse que vai ser um ano difícil e desafiante, cheio de imprevisibilidades e de incertezas. O que podemos perspectivar para os próximos tempos?

2023 vai ser um ano muito difícil. Nos nossos parceiros mais próximos, as taxas de crescimento rasam a estagnação. Mesmo a Alemanha, que é o motor da União Europeia, está numa situação muito preocupante de crescimento do PIB. Portanto, vai ser um ano muito complicado e espero que se tente tratar da reestruturação da dívida – com perdão de uma parte – porque precisamos. Se não, será cada vez mais difícil aumentar a competitividade do país.

Texto publicado originalmente na edição nº1089 do Expresso das Ilhas de 12 de Outubro

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Autoria:Jorge Montezinho,16 out 2022 9:12

Editado porJorge Montezinho  em  3 dez 2022 23:27

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