“Aquisição do BCA permitir-nos-ia abrir novas oportunidades de inovação e crescimento”

PorJorge Montezinho,14 out 2023 7:39

Sohail Sultan, Chairman do IIB Group
Sohail Sultan, Chairman do IIB Group

O IIB Group Holdings, assim como a Coris Holding e o First Atlantic Bank, são os investidores seleccionados pela Caixa Geral de Depósitos (CGD) para disputarem a compra da sua participação maioritária no Banco Comercial do Atlântico (BCA). Esta shortlist foi aprovada pelo governo português, no mês passado, em Conselho de Ministros, para a aquisição da participação directa de 54,41% e indirecta de 5,4% (através do Banco Interatlântico) da CGD no BCA – segundo a Resolução do Conselho de Ministros, a CGD recebeu três intenções de aquisição de entre um conjunto de 46 potenciais investidores.

A CGD, detida pelo Estado português, anunciou em 2019 um processo de venda da participação no BCA, no âmbito do plano de reestruturação aprovado pela Comissão Europeia, optando por ficar no mercado cabo-verdiano apenas com o Banco Interatlântico, mas a pandemia de Covid-19 acabou por influenciar todo o processo, que não avançou. O IIB Group Holdings, sediado no Bahrein, é o mesmo grupo que é accionista do iiB Cabo Verde. Na lista de investidores está ainda a Coris Holding, uma sociedade financeira sedeada no Burkina Faso e com sucursais em diversos países africanos, e o First Atlantic Bank, uma instituição de banca universal do Gana. A Resolução do Conselho de Ministros – n.º 108/2023 – define também os critérios para a selecção do vencedor da venda directa: o preço vinculativo apresentado, a percentagem de capital que os proponentes pretendem adquirir, o projecto estratégico apresentado para o BCA e a idoneidade e capacidade financeira. Será também considerada “a ausência ou minimização de condicionantes jurídicas, laborais, regulatórias, ou económico-financeiras do(s) proponente(s) ou da proposta que dificultem ou impeçam a concretização da venda directa em prazo, condições de pagamento e demais termos que sejam adequados para a salvaguarda dos interesses patrimoniais e financeiros da entidade alienante e para a prossecução dos objetivos da venda”. Caso as propostas dos investidores selecionados apresentem mérito equivalente, o Conselho de Ministros pode determinar a apresentação de ofertas finais e vinculativas com condições mais favoráveis. O Conselho de Ministros pode ainda rejeitar todas as propostas se considerar que não satisfazem os critérios estabelecidos ou não esteja garantida a concretização dos objetivos subjacentes. O Banco Comercial do Atlântico (BCA) registou lucros de 16,3 milhões de euros em 2022 e tem 34 balcões espalhados pelas ilhas de Cabo Verde. Como explica ao Expresso das Ilhas, nesta entrevista exclusiva, o presidente do conselho de administração do International Investment Bank (IIB), Sohail Sultan, o foco agora é continuar a crescer a franquia africana, porque acredita que existem enormes oportunidades para construir uma instituição financeira regional focada em facilitar e financiar o comércio regional. Quanto a Cabo Verde e às operações na África Ocidental, a ênfase no futuro será cada vez mais tentar posicionar a instituição para capturar, apoiar e gerir muitos desses fluxos transacionais financeiros regionais. O responsável espera que o processo de venda do BCA fique concluído no primeiro trimestre do próximo ano, ou, o mais tardar, no primeiro semestre de 2024.


Porquê este interesse no BCA? Quais foram os factores avaliados que vos levaram a este interesse?

A estratégia que pretendemos seguir é construir um banco centrado nos mercados emergentes. Para o iibGroup, os mercados emergentes são a África Oriental, o corredor comercial Etiópia-Djibuti, a África Ocidental –principalmente os países africanos de língua portuguesa, o Médio Oriente, especificamente o CCG (Conselho de Cooperação do Golfo) e o Sul da Ásia. O nosso objectivo passa por crescer de forma orgânica, assim como através de aquisições. Ser o principal banco em qualquer mercado traz muitas vantagens e a aquisição do BCA permitir-nos-ia, tanto estrategicamente como geograficamente, potenciar este facto, abrindo novas oportunidades de inovação e crescimento. O nosso interesse no BCA é reforçado pelo facto de os nossos activos bancários africanos se centrarem predominantemente nos países de língua portuguesa, com uma perspectiva internacional histórica, no que diz respeito ao comércio e aos serviços bancários.

Sendo o único finalista que tem presença física em Cabo Verde, consideram esse facto uma vantagem?

É evidente que o facto de estarmos presentes em Cabo Verde nos dá uma vantagem. Conhecemos e compreendemos o mercado, a cultura e as pessoas. Temos trabalhado em estreita colaboração com o Governo e o Banco Central do país e valorizamos as relações que construímos e cultivámos ao longo dos anos em Cabo Verde. Temos um bom e sólido historial no mercado e todos os principais players sabem que adquirimos uma instituição que estava classificada na oitava posição e que, sob a nossa liderança, é, hoje, o terceiro banco mais importante em Cabo Verde. Acreditamos que existem enormes oportunidades para construir uma instituição financeira regional centrada em ajudar, facilitar e financiar o comércio regional e as suas comunidades.

Que outras vantagens acham que têm sobre a concorrência?

Inicialmente, fruto de um longo trabalho de pesquisa e análise, tínhamos objectivos claros e específicos para a entrada no mercado cabo-verdiano: contribuir para o desenvolvimento do sector financeiro, trazendo as melhores práticas globais para o país, de modo a sermos competitivos, não só a nível local, mas também à escala global.

Da mesma forma, queríamos retribuir à sociedade, trabalhando em estreita colaboração com as comunidades locais para as capacitar e proporcionar melhores oportunidades, em linha com a essência da nossa marca de “Transformar Vidas”. Trabalhámos (e trabalhamos) com várias agências governamentais e financiámos a companhia aérea nacional, bem como a CV Interilhas, o serviço de ferry local. Temos parcerias com instituições de ensino, hospitais e ONGs. No ano passado, emitimos obrigações sociais, trabalhando com a Aldeias Infantis SOS e, no início de 2023, emitimos (com grande sucesso) as primeiras Obrigações Azuis do género em Cabo Verde, com o objectivo de permitir o financiamento de projectos estruturais, bem como o desenvolvimento e a inclusão financeira de pequenos empresários nas comunidades costeiras. Recebemos vários prémios pelo nosso trabalho em Cabo Verde, incluindo o de sermos a primeira organização do país a ser certificada como “Great Place to Work” por dois anos consecutivos. A bolsa de valores também reconheceu os nossos esforços de inovação, bem como o facto de o iibGroup ser um operador de excelência nos mercados primário e global. Acreditamos que o conhecimento, o trabalho, dedicação e o empenho na economia cabo-verdiana e nas suas comunidades são uma vantagem sobre a concorrência.

Quais são as estratégias e os objectivos com esta aquisição?

Em primeiro lugar, isto permitir-nos-á reforçar a nossa presença em Cabo Verde e consolidar o excelente trabalho que temos vindo a realizar no país, através do iib West Africa, com sede no arquipélago. Isto também nos permitirá criar uma plataforma a partir da qual podemos projectar a experiência financeira de Cabo Verde na região da África Ocidental, bem como internacionalmente, permitindo investimentos adicionais em CV, reforçando, ainda mais, os nossos programas sociais. Geograficamente, e com esta aquisição, estamos a tentar transformar Cabo Verde num centro para a região da África Ocidental.

E qual é o modelo de negócio que propõem para o BCA?

Queremos estar na vanguarda da inovação e da inclusão financeira, tornando a banca acessível a todos os cabo-verdianos. Planeamos expandir a oferta de produtos e serviços e aumentar consideravelmente a presença do banco, tanto a nível nacional como internacional. Iremos aumentar as nossas operações para apoiar a economia cabo-verdiana e fazer tudo o que pudermos para ajudar o governo nos seus programas sociais e económicos.

Quais são os principais desafios que antecipam em relação a esta aquisição e como esperam superá-los?

Em qualquer aquisição, um dos principais desafios é a transição suave da propriedade. Tendo já passado por este processo em Cabo Verde, vemo-nos numa posição única para assumir este desafio, enquanto esperamos o inesperado e sem complacências. Como sempre, estamos disponíveis para responder a quaisquer preocupações que os reguladores possam ter porque integridade e a transparência são valores de que não abdicamos ao longo de todo o processo. As duas componentes mais importantes deste processo são as pessoas que trabalham na instituição e os clientes que continuaremos a servir. O planeamento estratégico ajudar-nos-á a reduzir os riscos operacionais, a mudar a cultura de trabalho e a reter e expandir a base de clientes. Temos experiência na gestão da mudança pois adquirimos vários bancos em diferentes geografias, respeitando sempre a sensibilidade cultural local. Pretendemos prestar um serviço diferenciado e personalizado aos nossos clientes, continuar a ser um ‘Great Place to Work’ e tornarmo-nos um banco de referência no sistema financeiro cabo-verdiano, reconhecido nacional e internacionalmente, pelos nossos padrões de actuação e pela qualidade do serviço que prestamos.

O iib é um banco focado nos mercados emergentes, quais são as oportunidades que veem nestes mercados e qual pode ser o papel de Cabo Verde nesta estratégia?

A crise financeira de 2007/2008 teve um enorme impacto no sistema bancário mundial. Com a reestruturação do sector que se seguiu (redução de trabalhadores, abandono de determinadas geografias onde operavam, etc.), surgiram oportunidades para empresas, como o iibGroup, utilizarem as suas competências num ‘novo’ modelo de negócio, mais próximo das empresas e populações locais, proporcionando-lhes literacia e inclusão financeira de forma a apoiar os seus negócios, sempre de acordo com os mais elevados padrões internacionais. Vemos Cabo Verde como uma potencial porta de entrada entre os países lusófonos da África Ocidental e a Europa e a aquisição do BCA posicionar-nos-ia, tanto estratégica como geograficamente, numa excelente posição.

Já agora, por que razão escolheram Cabo Verde para se instalarem, uma vez que falamos de um país e de uma economia pequeníssimos?

Como já referi, consideramos Cabo Verde como uma porta de entrada. Tem uma democracia estável com uma moeda indexada e é um ‘hub’ seguro a partir do qual se pode cobrir o mercado da África Ocidental. Tem uma população instruída, um sistema jurídico fiável, uma liderança dinâmica e um quadro regulamentar que promove uma concorrência saudável. Embora pareça ser um país pequeno, consideramos que o potencial de Cabo Verde faz dele um actor importante com ótimas oportunidades de crescimento e inovação.

Continuando a falar de Cabo Verde, como avaliam o ambiente de negócios do país?

Tal como referi na pergunta anterior, nunca é demais mencionar a importância de uma democracia estável, de um mercado aberto, de um sistema jurídico e de uma liderança estável. Cabo Verde investiu na estabilidade política e tem uma história de democracia parlamentar e liberdade económica que é única na região. A boa governação, a gestão macroeconómica prudente (incluindo políticas fiscais, monetárias e cambiais fortes), a abertura comercial, a crescente integração na economia global e a adopção de políticas de desenvolvimento social eficazes contribuíram para o seu sucesso. Prevê-se que em Cabo Verde prevaleça uma ampla estabilidade política, sustentada por instituições democráticas fortes e uma proteção sólida dos direitos humanos e das liberdades cívicas. Acreditamos que um clima empresarial e de investimento já saudável e competitivo continuará a melhorar.

O iib procura ter a oportunidade de construir uma instituição financeira regional focada em financiar e facilitar o comércio regional, mas a elevada informalidade do comércio regional não pode ser um obstáculo a este objetivo?

Embora possa existir uma certa informalidade na forma como os negócios são abordados, o que em si não pode ser considerada uma coisa necessariamente má, há definitivamente formalidades que são seguidas, e encontrámos contrapartes que respeitam sempre os seus compromissos. O comércio regional já é realizado há muitos anos e tem seguido as normas internacionais no que diz respeito às leis e regulamentos. O nosso objectivo será sempre estabelecer as melhores práticas globais em todos os mercados onde operamos, e Cabo Verde não é, para nós, excepção.

Acha que o facto de serem um banco mais pequeno lhes dá uma maior agilidade na tomada de decisões, quando comparados com instituições, digamos, mais pesadas?

Somos uma organização dinâmica, dedicada e ágil que opera localmente, para servir pessoas, empresas e comunidades. Somos detidos e geridos pela administração e contamos com uma equipa de banqueiros internacionais altamente qualificados, com experiência em vários mercados. Isto permite-nos uma capacidade de nos adaptarmos e ajustarmos sem comprometer a excelência operacional que os nossos reguladores, colegas e clientes associam ao iibGroup.

Quais são as ambições de crescimento do iib, tanto para Cabo Verde como a nível global?

O iib pretende continuar a sua trajetória de crescimento, de forma controlada e consistente, tal como tem vindo a registar nos últimos cinco anos. Tendo isto presente, desejamos ser um banco com ativos de 5 mil milhões de dólares, através de uma expansão contínua e criteriosa das nossas operações bancárias em mercados emergentes, de aquisições bancárias selectivas, juntamente com um crescimento das nossas operações bancárias nos próximos anos.

Em relação a Cabo Verde, o nosso objectivo é construir um banco regional que possa intermediar e facilitar o comércio regional e os fluxos financeiros nos países africanos de língua portuguesa em benefício da economia de Cabo Verde e dos nossos clientes (presentes e futuros).

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1141 de 11 de Outubro de 2023.

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Autoria:Jorge Montezinho,14 out 2023 7:39

Editado porSara Almeida  em  9 dez 2023 23:28

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