Para este ano de 2026, na sua visão, que projecções de crescimento económico poderemos esperar para Cabo Verde?
Diria que o ano de 2026 será o ano de todas as incertezas. A única certeza que temos será esta, a incerteza. Porque há muitos factores que acabam por influenciar o comportamento da economia cabo-verdiana, cuja tendência de evolução é um bocado imprevisível. Desde já, há os choques externos. Cabo Verde é muito vulnerável a choques externos de diversa ordem, quer na frente, por exemplo, do turismo, que constitui 25% da nossa economia, quer através de outros indicadores como choques cambiais, por exemplo, choque através do petróleo. Portanto, o país é muito vulnerável a choques, há um quarto choque que influencia bastante o desempenho da economia cabo-verdiana, que é as remessas de emigrantes. Se olharmos para o que está a acontecer no mundo, ou o que tende a acontecer no mundo, e que pode influenciar esses quatro choques, há uma imprevisibilidade muito grande neste momento no mundo. A queda, ou a fragilização até das instituições internacionais, do quadro jurídico internacional, e este último evento da invasão e prisão do presidente venezuelano dá um sinal um pouco preocupante nesta medida, significa que a probabilidade de acontecerem outros eventos que possam vir a afectar esses quatro tipos de choques é substancial, e não sabemos em que direcção, daí que fica um exercício um bocado difícil fazer projecções de evolução da economia cabo-verdiana, precisamente por causa, repito, da vulnerabilidade da nossa economia, da exposição a esses quatro choques e da enorme imprevisibilidade que temos.
Devemos estar optimistas ou pessimistas?
Não havendo um evento extremo que possa afectar sobretudo o turismo, acredito que em 2026 a probabilidade de a economia cabo-verdiana continuar a crescer a um ritmo bom é grande, deixe-me ser optimista. Eventualmente, não no ritmo que cresceu nos últimos anos, aliás as próprias projecções do Banco Mundial e do Banco de Cabo Verde apontam para crescimento sim, mas para um abrandamento do ritmo de crescimento, e quero partir dessa perspectiva, mas com essa ressalva, como referi, de alguma imprevisibilidade em termos de eventos que possam afectar estes quatro tipos de choques externos.
Ainda por cima vamos ter também um ano de eleições em Cabo Verde.
Este é um factor interno que deverá também contribuir negativamente, ou ter a probabilidade de contribuir negativamente para o crescimento da economia. Anos de transição entre governos são anos com alguma paralisia, e aqui deve-se recordar que normalmente antes das eleições costuma haver um pico de investimento público, isso é um fenómeno à escala global, só que esse pico em Cabo Verde terá acontecido ainda em 2025. Como as eleições deverão ser entre Abril e Maio pela própria legislação aplicável, há uma limitação em termos de investimento público ou de eventos, inaugurações, e acredito que o pico terá acontecido já em 2025 e, portanto, terá sido capturado no indicador de crescimento da economia em 2025. Já em 2026 haverá a acalmia, até determinada pela lei no período imediatamente antes das eleições, e depois, caso venha a acontecer uma mudança de governo, haverá um período de alguma adaptação, de alguma transição, de alguma letargia e naturalmente este será um factor que influenciará negativamente, ou poderá influenciar negativamente, o crescimento da economia cabo-verdiana em 2026.
E nesse clima de incertezas, de que falou ainda há pouco, que políticas ou que políticos vai precisar o país?
Diria que cada vez mais teremos que, não apenas o país, mas todos os agentes económicos, face a um mundo de, e a expressão é propositada, constante incerteza, aprender primeiro a criar condições de adaptação e adaptabilidade. Esta para mim devia ser uma das principais capacidades que temos que desenvolver a nível do país, e quando eu digo a nível do país, falo a nível de instituições, a nível de quadro legal, mas também a nível dos próprios agentes e promotores individuais. Temos que reforçar a nossa capacidade de nos adaptarmos continuamente num mundo em constante mudança. Lembro-me aqui o título de um livro de um ex-professor meu, do posicionamento ao movimento. Cada vez mais somos chamados a mudar o enfoque, em vez de nos posicionarmos num determinado ponto do contexto, temos de desenvolver capacidades de nos movimentarmos continuamente, mas mantendo sempre em foco a visão e os objetivos que queremos a longo prazo. E este será, a meu ver, um desafio que temos. No plano das instituições, temos que repensar a forma como desenhamos e gerimos instituições em Cabo Verde, e aqui refiro instituições de uma forma muito genérica, propositadamente, temos que ter instituições cada vez mais flexíveis, dinâmicas, eficientes, com uma capacidade acrescida de adaptação a mudanças repentinas, ou não, no contexto. A nível individual, e quando eu refiro a nível individual, falo desde os consumidores, os trabalhadores, os gestores das empresas, os empreendedores, temos que reforçar essa capacidade de adaptação e resiliência. Se eu tivesse que eleger duas palavras-chave para 2026, seriam adaptação e resiliência.
Aproveitando o início do ano, lanço também o tema do emprego. A criação de emprego é a chave para o mundo sem pobreza, o combate à pobreza, em Cabo Verde, é um dos objetivos de qualquer governo, mas que emprego é que temos que criar?
Há um aspecto que tem que entrar nesse debate neste momento, que é o impacto da inteligência artificial. Eu creio que em Cabo Verde ainda não começamos a ter esse debate e já tardamos em ter esse debate. Ainda estamos a olhar para a inteligência artificial ou como uma curiosidade, uma inovação curiosa, ou então como algo muito distante, mas não, já é uma realidade e deverá impactar o mercado de trabalho pela positiva em alguns sectores e pela negativa em outros sectores. Por isso precisamos introduzir este elemento no debate questionando em que sectores a inteligência artificial poderá ter um impacto negativo, em termos da destruição de empregos, e em que sectores poderá significar uma oportunidade de criação de empregos. Ainda não temos resposta, infelizmente, a essas perguntas. Eu acredito que o turismo deverá continuar a ter um papel importante na criação de empregos pela sua própria natureza e transversalidade. Outros sectores, creio que já estão a ressentir-se em termos não de destruição de emprego, mas de falta de mão-de-obra, e aqui refiro em particular ao sector da agricultura. É preciso também ter um debate muito forte, como é que podemos, se calhar, reinventar a agricultura num contexto em que há dificuldades de aceder à mão-de-obra, sobretudo em ilhas como Santo Antão, São Nicolau, interior de Santiago, Fogo. Há outros sectores até como as pescas, em que a imigração está a desempenhar um papel importante em termos da disponibilidade de stock de mão-de-obra, e que também precisamos lançar os debates como dinamizar as pescas, como se calhar adaptar, e utilizando de propósito a expressão que referi há pouco, adaptar o sector da pesca e também da agricultura a esses novos contextos. Na administração pública, precisamos ver até onde o uso da inteligência artificial poderá facilitar ou permitir uma maior eficiência, de modo a melhorar as condições de ambiente de negócio, por exemplo, indutoras da criação de emprego. Portanto há muitos tópicos que precisamos e devemos debater, mas no sentido construtivo de encontrar soluções, temos que problematizar para encontrar soluções, não tanto, que eu sei que isso é muito atrativo no período pré-eleitoral, no sentido de se procurar culpados. Esse é um risco na época pré-eleitoral, de se procurar culpados, mas o meu apelo ao debate é para encontrarmos colectivamente soluções para esses problemas. Há outros sectores que penso que Cabo Verde poderia explorar um pouquinho mais, num mundo cada vez mais instável, que é a prestação de serviços ao exterior, a exportação de serviços que não apenas turismo. Neste momento o turismo é o principal serviço que exportamos, mas precisamos ver dentro do continente africano, eu volto a citar este ponto de propósito, dentro do mercado africano, que nichos é que Cabo Verde poderia ampliar, no sentido de se posicionar como um centro exportador de serviços para o continente. Com humildade, porque há outros países que têm essa pretensão, há outras regiões que têm esta pretensão, e que são bastante competitivos, estão a ser bastante competitivos, e precisamos ter esse debate aqui em Cabo Verde. Portanto, eu diria isso, nessa imprevisibilidade, precisamos mapear os tópicos que precisamos debater, mas no sentido de procurar soluções, não culpados.
Por falar em IA, estudos do Banco Mundial sugerem que o impacto da inteligência artificial poderá ser menor nos países em desenvolvimento. E como referiu, apesar de ser o momento mais incerto para prever o futuro do trabalho, se calhar os países em desenvolvimento podem aproveitar a inteligência artificial para capacitar os trabalhadores e não para os substituir.
Exactamente, exactamente. E temos aqui, por exemplo, o impacto de inteligência artificial no sistema educativo em Cabo Verde, ainda nem se fala nisso. Quanto mais para estarmos a ter um debate que eu penso que já tarda. Qual é o sistema de educação que a Cabo Verde tem que ter agora? Eu sei que nos últimos anos tem-se falado bastante sobre a reforma do sistema de educação e eventualmente terão já avançado com reformas em determinados sectores, mas o facto é que a introdução de inteligência artificial veio voltar isso tudo de cabeça para baixo e mesmo que as reformas tenham sido introduzidas há dois, três anos, não temos que ter receio de outra vez problematizar e levantar essa discussão. Os quadros que estamos a formar hoje são ainda relevantes no mundo dominado por inteligência artificial? O que é que temos de fazer? Quais são as formações que temos de dar? Como é que podemos utilizar a inteligência artificial para tornar o próprio processo educativo, o sistema educativo, mais eficiente. São questões que estão interligadas com o que discutimos há pouco sobre criação de emprego. Para termos uma onda facilitadora da criação de empregos, os quadros que estão a sair das universidades, das escolas técnicas, têm de estar adaptadas ao novo contexto de negócios. E esse contexto de negócios, repito, é fortemente influenciado pela inteligência artificial. Ainda não tivemos, infelizmente, esse debate sobre qual é o impacto da inteligência artificial no sistema de educação em Cabo Verde, que tipo de sistema de educação temos que ter daqui a 5, 10, 20 anos? Que tipo de competências precisamos desenvolver? Como é que essas competências podem surfar a onda da inteligência artificial? Ou adaptar-se a essa onda? Ou proteger-se do impacto eventualmente negativo da inteligência artificial? Ainda não tivemos esse debate e já tarda, infelizmente.
Até porque é um debate que está a ser feito em diversos países do continente.
Temos diversas velocidades na África. Há partes do continente em que esse debate já está a ser mais intenso, mesmo dentro de países, nos centros urbanos, se calhar, é mais intenso. A nível dos governos há algumas iniciativas, mas a nível da esmagadora maioria das administrações públicas o debate ainda não se transformou em medidas de política efectiva. África ainda, infelizmente, parece estar um pouco mais atrasada neste debate, na incorporação dessas novas tecnologias em termos da melhoria da sua governança. Mas vai-se correndo e o potencial é enorme. Da parte de Cabo Verde, a pergunta ou a oportunidade que se coloca é como é que o país poderá posicionar-se nesse contexto em que a inteligência artificial pode ser uma mais-valia para o desenvolvimento do próprio continente. Como é que Cabo Verde poderá, eventualmente, contribuir para este processo, ao mesmo tempo que gera dinâmica económica interna, dinâmica da criação de emprego interno? Como é que devemos nos posicionar nesta matéria? Este é, se calhar, o apelo que devíamos deixar aqui no país.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1258 de 07 de Janeiro de 2026.
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