Conflito no Médio Oriente - Cabo Verde responde à possível crise energética e alimentar

PorJorge Montezinho,14 mar 2026 9:18

Não nos livramos delas, nem dos riscos, nem das incertezas, e mais uma vez, o arquipélago vai ter de mostrar resiliência. Mas não é o único, até nos países ‘gigantes’ há imagens que representam os tempos que estamos a viver, como as dos apoiantes de Donald Trump a arrancarem os autocolantes com o nome do actual presidente dos EUA, enquanto abastecem os carros com os combustíveis a preços muito mais altos do que estavam há uns dias.

A Rapidan Energy Group já fez as contas e a guerra entre os EUA e o Irão representa a maior interrupção no fornecimento de petróleo da história. Segundo a empresa que analisa os mercados de energia, políticas e geopolítica, o principal responsável é o encerramento do estreito de Ormuz – cerca de 20% do fornecimento global foi interrompido durante nove dias, mais do que o dobro do recorde anterior estabelecido durante a crise de Suez em 1956. Segundo a Rapidan, praticamente não há capacidade disponível para resolver o problema, uma vez que tanto a Arábia Saudita como os Emirados Árabes Unidos estão isolados do mercado global de petróleo.

Para não ter de mais tarde remediar, a Enacol já afastou o risco de rutura de combustível. Em declarações à Inforpress, o director-geral da petrolífera, Luís Flores, garantiu que o abastecimento de combustíveis em Cabo Verde está assegurado e que o país não tem exposição directa à instabilidade no Irão.

O responsável da Enacol - uma das duas principais distribuidoras no país – assegurou também que os níveis de stock "estão em alta" e que as estações de serviço estão devidamente abastecidas, descartando "qualquer motivo de preocupação" imediata.

“Em termos do abastecimento do país, não há neste momento nenhum motivo de preocupação, absolutamente nenhum”, reforçou.

Luís Flores explicou que Cabo Verde não importa petróleo bruto nem produtos refinados provenientes do Médio Oriente, sendo o mercado nacional abastecido essencialmente por refinarias da costa ocidental africana e da Europa Ocidental.

"Recebemos gasóleo há pouco tempo e as esferas de gás estão relativamente atestadas. Os abastecimentos são previstos com dois meses de antecedência", detalhou o director-geral, confirmando que as próximas remessas para o país já estão calendarizadas para o final de Março e para o mês de Abril.

Contudo, o responsável admitiu que o país poderá sofrer impactos indirectos caso o conflito no Médio Oriente se prolongue, nomeadamente através da volatilidade dos preços do petróleo no mercado internacional, que acaba por ditar as tarifas praticadas internamente.

Sobre a subida acentuada dos preços do gás natural (superior a 30%) que afecta mercados como o europeu, a China e a Rússia, Luís Flores esclareceu que Cabo Verde permanece "imune", uma vez que o consumo doméstico e industrial no arquipélago é de gás butano e não de gás natural.

Enquanto, para já, Cabo Verde parece imune – em Portugal, por exemplo, da semana passada para esta o gasóleo subiu 25 cêntimos – no resto do mundo, a grande diferença entre o choque de oferta da guerra com o Irão e crises passadas é que o mundo não possui capacidade de produção de petróleo para lidar com o problema, disseram os analistas da Rapidan. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos detêm maior parte da capacidade de reserva, mas foram isolados do mercado global de petróleo pelo encerramento do Estreito de Ormuz.

Por outro lado, como avança a Reuters, a guerra com o Irão ameaça causar um impacto prolongado nos mercados globais de energia. Ou seja, o conflito pode deixar consumidores e empresas a nível global a enfrentar semanas ou meses de preços mais altos de combustíveis, mesmo que o conflito, que dura há quase duas semanas, termine rapidamente, enquanto os fornecedores têm de lidar com instalações danificadas, logística parada e riscos elevados para o transporte marítimo.

Ou seja, um fim rápido da guerra acalmaria os mercados. Mas o regresso aos níveis de oferta e preços pré-guerra pode levar semanas ou meses, dependendo da extensão dos danos à infra-estrutura e ao transporte marítimo.

"Considerando os danos físicos causados pelos ataques iranianos, até agora não vimos nada que possa ser considerado estrutural, embora o risco permaneça enquanto a guerra continuar", disse à Reuters Joel Hancock, analista de energia da Natixis CIB.

A maior questão para o fornecimento de energia é como e quando o Estreito de Ormuz voltará a ser seguro para a navegação. Trump ofereceu escolta naval a petroleiros e prometeu apoio financeiro dos EUA para embarcações na região.

Mas a segurança nas vias navegáveis pode ser ilusória, já que o Irão tem capacidade para ataques contínuos com drones contra embarcações durante meses, segundo fontes de inteligência e militares.

Entretanto, a interrupção no fornecimento de energia está a ter eco nas economias da Ásia, região dependente de importações e que obtém 60% do seu petróleo bruto do Médio Oriente.

Pelo menos duas refinarias na China reduziram a produção. A China, um grande fornecedor da região, pediu às refinarias que suspendessem as exportações de combustível. A Tailândia também suspendeu as exportações de combustível, enquanto o Vietname suspendeu os embarques de petróleo bruto.

A crise impulsionou os negócios da Rússia. Os preços do petróleo bruto russo subiram depois dos EUA concederam às refinarias indianas uma isenção de 30 dias para comprar petróleo bruto russo e substituir o fornecimento que perderam do Médio Oriente.

Para os consumidores europeus, a crise no fornecimento de gás e os preços mais altos representam um duplo golpe. A região foi a mais afectada pela interrupção no fornecimento de gás devido às sanções às importações de energia russas após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.

A Europa recorreu às importações de GNL (Gás Natural Liquefeito), para substituir o gás russo armazenado por gasoduto. E agora a Europa precisa comprar 180 cargas de GNL a mais do que no ano passado para atingir os níveis de armazenamento de gás necessários antes do próximo inverno.

Os riscos de abastecimento para os Estados Unidos são menores, uma vez que o país se tornou, nos últimos anos, o maior produtor mundial de petróleo e gás. No entanto, os preços do petróleo bruto e dos combustíveis nos EUA sobem em conjunto com os mercados internacionais de petróleo bruto, pelo que que os preços da gasolina e do gasóleo nos postos de gasolina são afectados mesmo que a oferta interna seja abundante.

A alimentação também será afectada

Os impactos da guerra no Médio Oriente vão chegar rapidamente aos alimentos, segundo alguns peritos. E é fácil perceber porquê, o Médio Oriente, em particular o Golfo Pérsico, é uma região que exporta também grandes quantidades de fertilizantes manufaturados, e o encerramento do Estreito de Ormuz impede que esses produtos cheguem aos países de destino. Se o conflito continuar, o aumento do custo dos fertilizantes acabará por afectar os preços dos alimentos básicos em todo o mundo.

Entretanto, em Cabo Verde, a Moave decidiu antecipar as importações de matérias-primas essenciais para garantir o abastecimento e alguma estabilidade no mercado até ao final do ano, face a possíveis efeitos da guerra no Irão nos preços.

Em declarações à Rádio de Cabo Verde, a directora-geral da Moave, Vera Luz, explicou que a empresa já começou a tomar medidas preventivas.

“Esperamos que isso vai acontecer no geral, em todos os produtos, especialmente aqueles que importamos. Estamos a antecipar as importações, entendemos que tínhamos pelo menos para garantir alguma estabilidade de preços que tomar posições de imediato e é isso temos vindo a fazer esses dias. Pelo menos para garantir o stock até o final do ano”, afirmou.

Segundo a responsável, a estratégia passa por reforçar as encomendas de produtos como trigo, milho e arroz. No caso do arroz, a empresa já tinha compras em curso, o que ajuda a reduzir eventuais impactos imediatos.

“Falamos de trigo, falamos de milho, arroz ainda bem que já tínhamos importação a caminho. Então temos uma boa quantidade a entrar e com preços anteriores. O contrato é fechado e não será afectado, esperamos que não. Não haverá necessidade de renegociar contratos que já estão a caminho”, disse.

Quanto à disponibilidade internacional de cereais, Vera Luz considera que, para já, não há sinais de escassez. A preocupação centra-se sobretudo nos custos associados ao transporte.

“Quer na Argentina, para milho, quer nos países bálticos está com boa produção, colheitas de trigo, então a nível de supply não há problemas. Mas a nível dos preços de transporte que poderá afectar os custos de importação”, referiu.

Apesar de o trigo consumido em Cabo Verde ser maioritariamente adquirido na Europa, a directora-geral admite que a situação geopolítica pode trazer constrangimentos logísticos.

“Embora nós importamos trigo, maioritariamente de Europa, vamos a ver as impedições que poderão haver no transporte e já começamos a verificar algumas dificuldades”, concluiu.

Impacto no turismo

Ainda não há dados que permitam avaliar que impacto a guerra terá no turismo cabo-verdiano – que até pode ser positivo por ser um destino pacífico – mas a escalada do conflito no Médio Oriente já começou a afectar a procura por viagens internacionais, com novos dados a indicar uma clara deterioração na percepção de segurança nos destinos do Golfo e indícios de que os turistas estão a redireccionar os planos para regiões alternativas.

Segundo uma análise da Mabrian (empresa que trabalha dados no sector do turismo), a confiança dos viajantes caiu acentuadamente nas últimas semanas, particularmente em mercados emissores como os Estados Unidos e a Europa Ocidental. As conclusões baseiam-se em informações comparativas sobre o sector das viagens, abrangendo tendências de comportamento e percepção no Reino Unido, Alemanha, França, Itália e Estados Unidos, bem como em destinos considerados dentro da esfera de influência mais ampla do conflito.

O estudo também incluiu países vizinhos como Egipto, Turquia e Jordânia, que, embora não estejam directamente envolvidos, já sentem os efeitos secundários da confiança dos viajantes.

O Índice de Percepção de Segurança da Mabrian mostra uma queda significativa na confiança dos viajantes em destinos do Conselho de Cooperação do Golfo após a escalada das operações militares no final de Fevereiro: o Bahrein caiu 81 pontos, Omã caiu 56,7 pontos, o Qatar caiu 54,9 pontos, os Emirados Árabes Unidos caíram 48,3 pontos, e a Arábia Saudita caiu 13,6 pontos.

A tendência actual aponta para turistas a optarem por destinos mais próximos de casa. Os viajantes alemães demonstram um interesse crescente pela Grécia e Marrocos, enquanto os italianos estão a viajar para a Croácia, Espanha e Europa Central. Os britânicos também estão a privilegiar destinos próximos, como Malta e Montenegro.

Uma segunda tendência mostra a procura contínua por destinos asiáticos, impulsionada por voos diretos para o Japão, Tailândia, Vietname, Cambodja e Filipinas.

Um terceiro padrão envolve alternativas de longa distância, com destinos como África do Sul, Maldivas, Peru e Brasil a atrair o interesse como substitutos do Médio Oriente.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1267 de 11 de Março de 2026.

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Autoria:Jorge Montezinho,14 mar 2026 9:18

Editado porJorge Montezinho  em  14 mar 2026 10:52

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