Tarifas: O fantasma da recessão e bolsas em queda

PorExpresso das Ilhas, Agências,3 abr 2025 8:32

A agência de notação financeira Fitch Ratings alertou que muitos países deverão cair em recessão económica após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar a imposição de "tarifas recíprocas" sobre todas as importações.

O chefe de análise económica da Fitch nos EUA disse em comunicado na quarta-feira que as tarifas do país sobre todas as importações rondam agora os 22%, face aos 2,5% de 2024.

Esta taxa, observou Olu Sonola, foi vista pela última vez por volta de 1910 - há mais de 100 anos.

"Isto muda as regras do jogo, não apenas para a economia dos EUA, mas para a economia global. Muitos países provavelmente acabarão em recessão", especialmente se as tarifas se mantiverem em vigor durante um longo período, enfatizou o analista.

Também o conselho editorial do jornal norte-americano The Wall Street Journal declarou que uma possível retaliação por parte dos países afectados pelas tarifas poderia levar a "uma contracção do comércio global e a uma recessão ou pior".

Trump anunciou na quarta-feira a imposição de "tarifas recíprocas" sobre importações, incluindo de 25% sobre todos os automóveis estrangeiros.

"Não vai ser [reciprocidade] total... podíamos cobrar o total [de tarifas aplicadas por outros países]... vamos cobrar metade", disse Trump, que exibiu uma tabela com o nível das barreiras comerciais e não comerciais sobre produtos norte-americanos em vários países e mercados e o que Washington vai passar a cobrar a partir de quinta-feira.

De acordo com a referida tabela, a China aplica tarifas de 67% sobre produtos norte-americanos e os seus produtos passam a pagar 34 por cento para entrar nos Estados Unidos; os países da União Europeia (UE) passam a pagar 20 por cento de tarifas, metade de 39% de barreiras comerciais e não comerciais estimadas.

"Pensamos que a União Europeia é muito amigável, mas eles roubam-nos. É muito triste ver isso. É tão patético; [taxam produtos dos EUA a] 39%, nós vamos cobrar-lhes 20%", frisou Trump.

Para aceder ao mercado norte-americano, os produtos do Japão passam a pagar 24%, os da Índia 26%, de Taiwan 32% e do Vietname 46%.

Ao Reino Unido e Brasil passam a ser aplicados 10%, correspondentes ao aplicado aos produtos norte-americanos, disse ainda Trump.

"Chamamos a isto recíproco simpático", disse Trump, que frisou que "gostaria" de aplicar "reciprocidade total".

Outros países destacados por Trump foram Suíça, Indonésia, Coreia do Sul e África do Sul.

Os direitos aduaneiros específicos de cada país ou bloco económico, como a UE, começarão a ser aplicados a partir de 09 de Abril, afirmaram à imprensa funcionários da Casa Branca.

A tarifa-base de 10% começará a ser aplicada mais cedo, no sábado, 05 de Abril, segundo estas fontes citadas pela agência de notícias Efe.

Europa unida, mas preocupada

O anuncio de Trump chegou rapidamente aos visados, que não perderam tempo em reagir. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, considerou tratar-se de "um rude golpe" para a economia global, mas garantiu que o bloco está "pronto para responder" e está a trabalhar em novas medidas de retaliação.

"Já estamos a finalizar o primeiro pacote de contramedidas em resposta às tarifas do aço e estamos agora a preparar outras medidas para proteger os nossos interesses e negócios, se as negociações falharem", disse a dirigente.

Com as tarifas americanas, os países da UE passam a pagar 20 por cento de tarifas, metade de 39% de barreiras comerciais e não comerciais que a Administração Trump estima que os produtos norte-americanos enfrentam no acesso aos mercados europeus.

A presidente da Comissão Europeia pediu unidade dentro do bloco face às tarifas e salientou que o mercado interno é um "porto seguro" face à guerra comercial.

"A Europa tem tudo o que precisa para enfrentar a tempestade" das tarifas, disse von der Leyen, sublinhando que a UE "se manterá unida e defender-se-á mutuamente".

Países da União Europeia demonstraram hoje preocupação face às tarifas impostas sobre todas as importações e sobretaxas para os países considerados particularmente hostis ao comércio.

Na senda das afirmações de Von der Leyen, o presidente do Conselho Europeu, anunciou o seu "apoio total à Comissão Europeia nas negociações comerciais com os Estados Unidos".

"O comércio é um poderoso motor da prosperidade mundial e a UE continuará a ser uma firme defensora do comércio livre e equitativo", reagiu António Costa, numa publicação na rede social X.

Em Espanha, o Executivo anunciou o recurso aos instrumentos comerciais e financeiros de que o Estado dispõe para implementar uma rede de proteção imediata e uma estratégia de relançamento dos setores afetados pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos.

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, sublinhou que as novas tarifas dos EUA são uma "má jogada" que apenas enfraquece o Ocidente, enquanto o primeiro-ministro irlandês, Michael Martin, pediu uma resposta proporcional.

O Reino Unido negou-se a retaliar no imediato e defendeu uma negociação antes de tomar qualquer medida, enquanto o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, defendeu que as tarifas são "totalmente injustificadas".

A França vai mais longe e diz que a UE "pronta para uma guerra comercial" com os Estados Unidos, e que já planeia "atacar os serviços digitais". As respostas já estão a ser preparadas e irão ser aplicadas ainda este mês. O presidente francês, Emmanuel Macron, vai reunir-se hoje à tarde com representantes das indústrias afetadas pelas medidas tarifárias anunciadas pelos Estados Unidos.

O Canadá disse que vai lutar contra as tarifas nos setores do aço, alumínio e automóvel "com contramedidas".

Berlim declarou hoje apoio à União Europeia (UE) na procura de uma solução negociada com Washington sobre as novas tarifas anunciadas por Donald Trump, reiterando que a Europa está pronta para retaliar.

O vice-chanceler alemão, Robert Habeck, alertou que os novos impostos norte-americanos podem arrastar países para a recessão e causar danos consideráveis em todo o mundo.

Na Polónia, o primeiro-ministro, Donald Tusk, afirmou hoje que são necessárias decisões adequadas.

Na Dinamarca, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Lars Lokke Rasmussen, disse que a Europa deve permanecer unida e preparar respostas "sólidas" e proporcionais.

Guerra tarifária afunda bolsas

O início da guerra tarifária desencadeada pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, levou as bolsas europeias a abrirem com quedas de cerca de 2%, seguindo a tendência das bolsas asiáticas, que fecharam com fortes descidas.

Às 09h20 (07h20 em Cabo Verde) em Lisboa, o EuroStoxx 600 estava a recuar 1,38% para 529,49 pontos.

As bolsas de Londres, Paris e Frankfurt desciam 1,12%, 1,65% e 1,71%, respectivamente, enquanto as de Madrid e Milão se desvalorizavam 1,04% e 1,65%.

A bolsa de Lisboa mantinha a tendência da abertura e às 09:20 o principal índice, o PSI, subia 0,57% para 6.997,54 pontos.

Na abertura do mercado, com o euro a valorizar-se fortemente face ao dólar, com uma subida de 1,19%, e a cotar-se a 1,096 unidades, a bolsa europeia que mais caiu na abertura foi a de Milão, 2,84%, seguida de Frankfurt, 2,77%; Paris, 2,14%; Madrid, 1,52%; e Londres, 1,34%.

As tarifas de 25% sobre os automóveis, camiões ligeiros e peças automóveis exportados para os EUA já entraram em vigor hoje, enquanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já afirmou que a Europa está "pronta a responder" à imposição de tarifas e está a trabalhar em novas medidas.

Na Ásia, o principal índice da Bolsa de Tóquio, o Nikkei, caiu 2,77% depois do anúncio das tarifas por Trump, enquanto o índice de referência da Bolsa de Xangai perdeu 0,24%, o da de Shenzhen cedeu 1,4% e o Hang Seng, prestes a fechar, caiu quase 2% e o índice de referência da Bolsa de Seul, o Kospi perdeu 0,76%.

Os futuros de Wall Street estão a cair cerca de 3% nos seus principais índices, com o Dow Jones Industrials a ceder 2,35%, o S&P 500 a cair 2,96% e o Nasdaq a recuar 3,34%, depois de terem terminado na quarta-feira com ganhos de 0,56%, 0,67% e 0,87%, respectivamente.

Nas matérias-primas, o ouro caiu 0,38% para 3.122 dólares por onça.

Os preços do petróleo continuam a descer acentuadamente, com o Brent, a referência na Europa, a cair 3,24% para 72,53 dólares por barril, enquanto o US West Texas Intermediate (WTI) também está a cair 3,40% para 69,27 dólares antes da abertura oficial do mercado.

A bitcoin desce 2,71% para 83.334 dólares.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Agências,3 abr 2025 8:32

Editado porAndre Amaral  em  4 abr 2025 20:20

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