​Obiang é um “fanfarrão” - Donato Ndongo

PorNuno Andrade Ferreira,18 jul 2018 14:48

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Donato Ndongo
Donato Ndongo

O escritor equato-guineense, Donato Ndongo, acredita que a adesão da Guiné Equatorial à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) foi apenas uma forma encontrada por Teodoro Obiang “para ser aceite num clube”, na linha de outras acções “absolutamente vazias”, tomadas pelo presidente do país.

Aos 67 anos, e exilado em Espanha, Donato Ndongo, também jornalista, é uma voz crítica do regime liderado pelo mais antigo ditador africano. Sobre a entrada para a CPLP, Ndongo é claro: “não era uma necessidade essencial para o povo da Guiné-Equatorial”.

“Teodoro Obiang, simplesmente, é um fanfarrão. Queria demonstrar que tem amizades e que é reconhecido em todo o mundo e por isso decidiu integrar-se na Comunidade de Países de Língua Portuguesa”, conta ao Expresso das Ilhas, em Tenerife.

“Tantos anos depois da integração, não se promove, sequer, o ensino do português. Para ele, era uma forma de ser aceite num clube, como também fez o possível para se integrar na francofonia e fez o possível para figurar entre os dirigentes do mundo”, comenta.

Aos 67 anos, Donato Ndongo é um dos principais nomes da letras equato-guineenses. Em 1994, terá sido ameaçado de morte “pelo secretário de Estado da Segurança, tio de Obiang”, alegadamente insatisfeito com os artigos que escrevia para a agência EFE, a partir de Malabo, e que falavam sobre a situação social e política do seu país.

Ndongo conhece bem o regime de Obiang e por isso não acredita nas boas-intenções do Chefe de Estado do seu país quando este promete o fim da pena de morte.

“A condição de que lhe puseram para se integrar nessa comunidade [CPLP] foi a abolição da pena de morte. Agora, pede apoio aos países de língua portuguesa, para que o ajudem a abolir a pena de morte. Que apoio necessita um presidente que é um ditador, que tem todos os poderes do Estado e que tem um parlamento em que, de cem membros, 99 são do seu próprio partido? Que apoio necessita para assinar um simples decreto para acabar com a pena de morte?”, questiona.

De olhos postos no futuro, Donato Ndongo ambiciona um “regime de liberdades”, que aproveite os quadros “preparados” que existem, mas que “não estão a fazer barulho”. A pretensão esbarra na vontade do actual Presidente, que procura impor ‘Teondorín’ Obiang, seu primogénito e vice-presidente desde 2012, como sucessor.

“Nem o povo da Guiné-Equatorial e nem os próprios familiares de Teodoro Obiang querem que ‘Teodorín’ seja presidente, porque a sua incapacidade é manifesta”, garante.

Literatura

Entre as obras de Ndongo, que se apresenta como “um escritor comprometido”, contam-se "História e Tragédia da Guiné Equatorial", "Sombras da tua memória negra" ou "Espanha na Guiné. Construção do desencontro: 1778-1986". Em 2017 lançou "O sonho e outros relatos” e um livro de poesia, "Olvidos".

“Desde o início do meu percurso literário, concebi-o como uma forma de conseguir a dignificação do negro, não só o negro africano, mas de qualquer negro que habita no mundo. Desde o século XVI, com a escravatura, que nos tiraram a dignidade. Inclusive a nossa história, as nossas culturas se reinterpretam desde outras culturas para acomodar outros interesses que não são os nossos”, diz.

A Guiné Equatorial aderiu à CPLP em 2014, na conferência de Dili. Timor-Leste, Cabo Verde, Portugal, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Brasil são os outros membros da organização.

Donato Ndongo está em Tenerife, Canárias, para participar no Campus África, organizado pela Universidade de La Laguna, e que se prolonga até dia 26, com a participação de uma centena de estudantes africanos, entre os quais perto de 60 cabo-verdianos.

O Expresso das Ilhas e a Rádio Morabeza estão em Tenerife e viajam a convite do Campus África.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,18 jul 2018 14:48

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  18 set 2018 3:22

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