"Vamos conseguir". Lídio Silva recorda a reunificação alemã

PorNuno Andrade Ferreira,8 nov 2019 16:59

(AFP)
(AFP)

​A 13 de Agosto de 1961, o governo da então República Democrática Alemã (RDA) iniciava a construção de um símbolo que dividiria o mundo durante os 28 anos seguintes. O Muro de Berlim foi derrubado a 9 de Novembro de 1989. Lídio Silva morava na Alemanha. O histórico da UCID reaviva memórias e relembra o antes e o depois.

Perante o aval do líder soviético, Nikita Khrushchev, a Alemanha Oriental – RDA - separava-se fisicamente do lado ocidental do país – República Federal Alemã (RFA) – com o muro a tornar-se rosto de um processo iniciado em 1945, na Conferência de Potsdam.

Face a protestos inconsequentes das potências ocidentais, a muralha foi erguida ao longo de mais de 150 quilómetros e passou a fazer parte do quotidiano, até se tornar insuportável.

Lídio Silva viveu durante três décadas na Alemanha. O antigo deputado, fundador da UCID, recorda o crescente desejo de reunificação.

“Havia um sentimento de revolta, antes da queda do muro. Logo que se deu a abertura, nunca vi os alemães tão alegres como nessa altura. Dizia-se em todo o lado que, finalmente, as famílias se reuniriam, que já não era necessário esperar anos por uma visita. O povo alemão ficou muito satisfeito com a reunificação, mesmo com os problemas financeiros que se sabia que iam existir”, lembra.

Metáfora maior da Guerra Fria, ao betão armado foram acrescentados outros obstáculos para dificultar a passagem. Os soldados estacionados na fronteira tinham ordem para usar a força e impedir travessias não autorizadas. Estima-se que tenham morrido 140 pessoas em tentativas frustradas de saltar o muro. A última vítima foi Chris Gueffroy, em Fevereiro de 1989, ano que viria a marcar o fim da divisão e o início da reunificação alemã, formalmente concluída a 3 de Outubro de 1990.

“Foi um ano de muitas incertezas e muita ansiedade, entre a queda do muro e a reunificação. As pessoas tinham uma certeza: se conseguimos levantar o país depois da II Guerra Mundial, vamos conseguir resolver esse problema. Rapidamente tudo se tornou natural”, revive Lídio Silva.

Actual presidente do Bundestag (parlamento alemão), Wolfgang Schäuble foi o principal negociador da reunificação. Esta quarta-feira, ao Folha de São Paulo, disse que os desafios do processo não foram sentidos de igual forma por ambas as ‘Alemanhas’.

“Os habitantes da antiga RDA tiveram de enfrentar mais transformação que os da RFA – além das fundamentais que já aconteciam em todo o mundo, como a globalização e a digitalização”, lembrou.

Apesar do sucesso com que o processo é agora encarado, à data, a economia oriental entrou em colapso, perante a impossibilidade de competir com a máquina do ocidente. Em 2019, as diferenças persistem. De acordo com dados do Statistisches Bundesamt (Escritório Federal de Estatística) e do Handelsblatt, jornal económico alemão, os salários e o PIB per capita ainda são menores a Leste. As grandes empresas estão instaladas a oeste e apenas 1,7% dos executivos alemães têm origem na antiga RDA.

A queda do muro não foi apenas o fim de um obstáculo físico intransponível. Marcaria o princípio do fim da Guerra Fria e aceleraria o desmoronamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a meio da agenda reformista de Mikhail Gorbachev, representada pela Glasnost (transparência política) e Perestroika (reestruturação económica).

Na Checoslováquia, Alexander Dubcek encabeçaria a Revolução de Veludo. Letónia, Lituânia e Estónia afirmariam a independência do regime socialista soviético. Na Roménia, a população revoltar-se-ia contra Nicolae Ceaucescu.

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Trinta anos depois, são incertos os caminhos da humanidade. O aumento da intolerância, associado ao recrudescimento de movimentos extremistas, deixa dúvidas quanto ao futuro.

Democrata-cristão, educado nas escolas da CDU alemã e fundador de um partido cabo-verdiano que pertence à mesma família política, Lídio Silva lamenta que os interesses financeiros se sobreponham a tudo o resto. 

“O grande problema é que vivemos para o interesse financeiro. Ninguém pensa no interesse económico. Para mim é grave, porque não estamos a querer educar numa base de sinceridade e dignidade para o futuro, como se tudo fosse fácil, quando a facilidade é inimiga do desenvolvimento”, analisa.

Este sábado, o Presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, recebe em Berlim os homólogos da Polónia, República Checa, Eslováquia e Hungria. Os chefes de Estado depositarão coroas de flores em memória daqueles que morreram ao arriscar atravessar o muro.

Nas Portas de Brandemburgo, um espectáculo musical e multimédia recuperará os acontecimentos do dia 9 de Novembro de 1989.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,8 nov 2019 16:59

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  18 nov 2019 8:19

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