Humbertona: o violão da saudade (parte I)

PorCésar Monteiro,3 jan 2018 6:40

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Oriundo de uma família da dita classe média baixa da época, Humberto Bettencourt Santos, de nome completo, nasceu a 17 de Fevereiro de 1940, em Tchã de Manilin, a norte de Santo Antão, localidade pertencente ao então Concelho do Paul, onde residiu até aos dois anos de idade, altura em que se radicou na ilha vizinha de São Vicente, juntamente com os respectivos pais.

Frequentava o então Liceu Gil Eanes, quando passou a ser conhecido como Humbertona, numa clara destrinça do seu homónimo que, também, andava nesse mesmo estabelecimento de ensino secundário sanvicentino. Sem pejo, Humberto explica a origem da alcunha que, rapidamente, se elevaria à categoria de nome artístico e se generalizaria: “Havia o Humberto grande, de 1,87m, que era eu, e havia outro Humberto, que era baixinho. Assim, passei a ser conhecido pelos meus condiscípulos como Humbertona e o outro como Humbertinho”. Mas, na verdade, a alcunha viria a vingar-se quando Humbertona se iniciou no mundo da gravação, dito de outro modo, “o meu primeiro disco veio com o nome de Humbertona e, a partir daí, o nome fica”, até aos dias de hoje.

De ascendência geográfica mista, Humberto é filho de Severino Santos, natural do norte de Santo Antão, e mestre-de-obras da Câmara Municipal do Paul, e D. Inácia Bettencourt, natural de São Vicente e professora do ensino primário, que, diga-se de passagem, ambos travaram amizade quando “a minha mãe, teria ela vinte e tal anos, foi colocada como professora em Tchã de Manilin, acima de Chã de Norte, e, do casamento, viria a nascer, primeiro, a Fátima, minha irmã”. Volvidos alguns anos, a família Bettencourt Santos ruma para a ilha vizinha, onde se instala definitivamente. O pai de Humbertona, como bom santantonense, gostava muito da terra e da vida da agricultura,apesar de exercer a profissão ligada às obras públicas, e, após o regresso a São Vicente do agregado familiar, não se conformando com a situação de viver paredes meias com outras pessoas na cidade, “andou à procura de um sítio onde pudéssemos morar e, finalmente, construiu uma casa em Mato Inglês, em Montona, circundada por uma propriedade agrícola. Ali pertinho, a cerca de quinhentos metros, havia uma escola, a minha mãe concorreu e conseguiu uma vaga, até ao nosso regresso definitivo à cidade, alguns anos depois, onde eu viria a completar a 4ª classe do ensino primário e a Fátima, já em idade para ingressar no ensino liceal”.

Se bem que tenha nascido em Santo Antão, Humberto, todavia, não construiu, no tempo, uma ligação afetiva com o local que o viu nascer, por razões objetivas, que ele próprio esclarece: “Nasci em Tchã de Manilin, mas não tenho ali ninguém, nem sequer a casa, porque a minha mãe era professora, ela instalou-se na casa da escola e a casa da escola tinha uma casa anexa que era a casa do professor. Naquele tempo, não havia outra forma de se instalar o professor. A casa onde morávamos não nos pertencia, era propriedade da escola, e, por isso, não tenho ninguém naquela zona, nem qualquer ligação. Os meus avós eram todos do Baboso, da zona da Ribeira das Patas”.

Daí que, a despeito da sua inegável origem rural santantonense e da sua forte caboverdianidade, Humbertona se considere mindelense, autêntico mnine d´Soncente, como o era o exímio compositor, Manel d´Novas, pelas mesmas razões, sem que, contudo, a sua múltipla pertença identitária represente, no essencial, um factor de crise, ou, se se quiser, uma fonte de conflito permanente. “Sim, sou mindelense, em termos de cultura e de ambiente de envolvência. Sou Mindelo, claramente. Dos dois até aos vinte anos de idade, quando fui para a tropa, aquilo é Mindelo”. Longe de atribulada, a sua infância decorre, em circunstâncias normais, em São Vicente, ilha onde se processa a sua socialização primária e secundária e que dele se apropria, através, nomeadamente, de uma forte relação empática permanente no tempo, marcada pela escola primária: “A minha mãe era minha professora e isso significava para mim uma vantagem e desvantagem, ao mesmo tempo. Mas, sobretudo vantagem: primeiro, porque os meus condiscípulos chegavam tarde à escola, às vezes, e tinham sempre uma desculpa, porque o café saiu tarde (…). Eu não tinha quaisquer desculpas, porque estava acompanhado vinte e quatro horas por dia, era uma presença de vinte e quatro horas por dia (…), que não me dava muita folga. Isto permitiu-me que eu fizesse a 4ª classe em boas condições e fosse um aluno normal”.

Entretanto, a meio do exame de algumas cadeiras do antigo 7º ano liceal, Humbertona foi mobilizado para o serviço militar obrigatório em Portugal, numa altura em que surgira a guerra em Angola, precisamente em 1961, e ali permaneceu até Novembro de 1964. A sua especialidade em armas pesadas evitou, assim, que o exército colonial português o tivesse destacado para o teatro das operações em África, “uma guerra de contraguerrilha que dispensava canhões e outro armamento pesado do tipo, de modo que fui ficando em Portugal e instrutor de várias gerações de recrutas, até terminar a tropa. Foi a minha sorte”. Concluído o serviço militar obrigatório, regressou definitivamente à ilha de São Vicente donde partira em 1961 e, durante um ano e meio, enquanto aguardava a licença militar que lhe viria a ser emitida cinco anos depois, em 1966, completou as cadeiras do antigo 7º ano que lhe faltavam e prestou serviço remunerado como locutor na então Rádio Barlavento, onde, aliás, trabalhava a irmã Fátima, entre outras atividades essenciais de índole social, cultural e recreativo.

O trajecto de vida de Humbertona foi particularmente marcado pela música, ainda relativamente cedo, que lhe corria nas veias: “O meu pai tocava um pouco, sabia fazer algumas posições de violão. A minha mãe frequentara escola de piano com o professor José Alves dos Reis, em São Vicente. O meu tio Pipita, irmão da minha mãe, também era um bom tocador de violão e criou uma escola de violão, talvez a maior escola de violão que terá existido na Praia, formou muita gente e os próprios filhos dele que chegaram a pertencer ao grupo musical Os Tubarões: o Fortinho, o Russo e o Víctor”. Ainda na fase da adolescência, que assinala a transição entre a infância e a idade adulta, teria ele 12 (doze) anos, por volta de 1952, passou a frequentar a escola de música do Sr. Reis, a pedido da mãe, e ali permaneceu algum tempo, mas, posteriormente, “achei que estava a demorar muito com o solfejo, antes que transitasse para o violão e, então resolvi deixar o Sr. Reis, e passei a frequentar a escola de Malaquias Costa que, na altura, dava aulas de violão”. Todavia, a passagem do Humbertona pela escola do Malaquias foi efémera e apenas o suficiente para, durante um mês que ali esteve, “aprender as primeiras notas e acompanhar uma morna. Foi uma morna que ele me ensinou e que era a nossa matéria de trabalho durante as sessões e, a partir daí, aprendi na escola da vida, nas serenatas, nas tocatinas (…), na Igreja Baptista, onde cresci com a minha mãe. A aprendizagem musical com o Malaquias foi isso, o suficiente para eu arrancar, na altura. Depois, ouvia e imitava os outros”.

No seu processo de socialização musical, Humbertona aprendeu “algumas coisas” com Amândio Cabral, que também “frequentava muito” a Igreja Baptista, “eu tocava com ele, imitava-o e pedia-lhe que me explicasse como é que se fazia isso ou aquilo”. Na linha, pois, do Amândio, de resto, “bom músico”, que já nos anos 50, “vivia praticamente da atividade musical”, Humberto aprendeu, igualmente, a executar violão (guitarra acústica) com Djosinha, filho de Vasco Lopes, sobretudo a adaptação dos solos brasileiros para violão, ou seja, “adaptava solos de cavaquinho, chorinhos brasileiros para o violão e eu e o Waldemar Lopes da Silva, meu primo, aprendíamos esses solos e passávamos a vida tocar esse tipo de música, que contribuiu muito para a minha formação musical, na adolescência”.

No Liceu Gil Eanes, ainda estudante, Humberto pertenceu a um grupo musical animado pelo professor Augusto Pirico (Augusto Santos), “bom tocador de violão”, que se chamava Tuna académica do Liceu e do qual também faziam parte o Waldemar Lopes da Silva (violão), o João Baptista Monteiro (voz e violão), o Adrião Monteiro (voz e violão), o Isaac Anahory (percussão) e, ainda, mais dois irmão italianos – o Mário Frusoni e o Fernando. Depois, o grupo dispersa-se, naturalmente, Humbertona vai para a tropa para Portugal, em 1961, e ali, durante aquele tempo, integra um grupo musical militar, que “tocava em festas em Coimbra (…), o certo é que, assim, apanhei algum traquejo (…), adaptei-me um pouco aos instrumentos elétricos”.

De regresso a São Vicente, em Novembro de 1964, concluído o serviço militar, “eu e os irmãos Marques da Silva fundámos o conjunto Ritmos Caboverdeanos, em finais de 1964, um projecto musical colectivo concebido “por mim próprio e pelo Tony Marques, durante a viagem de retorno de Lisboa”. Emergida num contexto internacional musical dos anos 60 marcado pela forte presença dos Beatles e dos Rolling Stones, a banda cabo-verdiana, mantendo o estilo e a identidade próprios, é certo, foi particularmente influenciada, em termos de sonoridade, pela guitarra eléctrica, já que “as referências vieram (…) dessa gente que já tinha feito isso, antes de nós”. De facto, o conjunto Ritmos Caboverdeanos construiu uma sonoridade muito singular que não se confundia com a de nenhuma outra formação de então, cuja base melódica adveio da combinação entre o piano do Tony Marques, o líder musical da banda, e a guitarra eléctrica do Humbertona, que, de resto, se entendiam muito bem, tanto do ponto de vista musical, como pessoal. Aliás, o famoso guitarrista cabo-verdiano foi peremptório em afirmar ter sido a única fase da sua vida musical que usou guitarra ou viola eléctrica.Sobretudo nas gravações,“sempre usei guitarra acústica, com a qual me sinto mais à vontade. Gosto mais do som da viola acústica, com corda de nylon, porque o som é mais aveludado, enquanto a guitarra eléctrica tem uma sonoridade mais metálica, mais gritante. Gosto mais da técnica de solar, que é meu ponto forte, exige maior velocidade de dedos e maior precisão de notas”.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 839 de 27 de Dezembro de 2017. 

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Autoria:César Monteiro,3 jan 2018 6:40

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  3 jan 2018 7:43

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