Jorge de Barros: o evangelista e a música profana (parte II)

PorCésar Monteiro,21 jun 2018 9:52

​Profundamente ligado à Igreja do Nazareno, desde cedo, Jorge de Barros encontra música em casa do pai Luciano que, por sinal, tocava razoavelmente órgão de fole (pedal), acordeão e cavaquinho. A música sempre despertou nele interesse, ainda que, durante a infância e adolescência, não a tivesse praticado através do contacto, ou da aprendizagem de qualquer instrumento. Com efeito, Barros viria a interessar-se pela música, quando frequentava o Curso Pastoral no Seminário Nazareno em S. Vicente, na década de 60, que duraria 4 anos consecutivos.

Anteriormente, fora aluno do professor José Alves dos Reis, nascido em Bolama, a 20 de Março de 1895, e falecido na Cidade de Mindelo, a 16 de Outubro de 1966, da disciplina curricular de Canto Coral, no Liceu Gil Eanes, em S. Vicente, então ministrada pelo insigne Maestro guineense.

Apreciador da música e defensor da serenata, hoje em vias de extinção, Jorge de Barros adquire, durante os seus estudos seminariais, “uma coleção de discos que mandava vir do Brasil e dos Estados Unidos” e que aguçaria o seu gosto musical, aperfeiçoado, sucessivamente, no Seminário e com o professor Reis. O estudo pastoral “exige que o aluno aprenda música, porque grande parte do ritual nazareno, da nossa liturgia, é baseada na música (…), logo o pastor tem que dirigir os hinos com a batuta ou com a mão, saber cantar e não apenas tocar um instrumento qualquer. Ciente, pois, da necessidade de conhecimentos musicais cada vez mais consolidados, o interesse do seminarista praiense pela música crescia com a própria exigência dessa instituição de foro religioso particularmente interessado em formar pastores com algum traquejo musical, mormente no domínio do canto sacro, razão por que Jorge de Barros passa a receber, diariamente, lições particulares do Sr. Reis, às expensas da Igreja.

Por mais paradoxal que possa parecer e, quiçá, contrariando as expectativas do pai, numa altura em que a aprendizagem do violão prendia a atenção de quase todos os jovens da sua faixa etária, Jorge de Barros resolve escolher o trombone de vara como instrumento musical de predileção. Formador de várias gerações, o Maestro Alves dos Reis era “um excelente músico, que lidava com todos os instrumentos musicais, sobretudo os de sopro (…)” e, com o também Regente da Banda Municipal de S. Vicente, o jovem nazareno aprende a executar solos litúrgicos de trombone, na Igreja, e recebe, ainda, do professor de música lições privadas de piano, durante dois anos.

Do lado paterno, a família não é tão musical, quanto o é da parte da sua esposa,Manuela Chantre de Barros, antiga professora das disciplinas de francês e português, nos Liceus da Praia e de S. Vicente, que, de resto, “toca muitíssimo bem o piano”. A sogra do Reverendo, D. Maria Rosária Soares Medina Martins (Lili Medina), nascida na Vila da Ribeira Grande, Santo Antão, a 27 de Outubro de 1904 e falecida na cidade do Mindelo, a 28 de Outubro de 1995, logo após ter completado 91 anos, e conceituada professora de piano de várias gerações de mindelenses, “ensinou o meu filho a tocar piano”, que passa a executar correctamente.

Os conhecimentos de música adquiridos por Jorge de Barros facilitaram, enormemente, os trabalhos de coordenação do hinário, nos Estados Unidos da América, confiados, mais tarde, ao próprio Reverendo Jorge e à esposa Manuela, “que é música, toca por música e exímia pianista”. Na Igreja do Nazareno, a música sacra “tem o poder de atrair, de louvar e de exprimir o nosso sentir (…)”,que se expressa através de uma diversidade enorme de hinos para todos os gostos, “ocasiões e funções, sejam elas casamentos, enterros ou cultos”. Aliás, reconhecendo o papel vital da música como esteio da Igreja evangélica, instituição que “ensinou o povo a cantar de forma disciplinada, musicada e coerente”, Jorge de Barros defende que “nunca houve expressão espiritual religiosa sem música (…)”,porquanto“a própria alma expressa-se em canto”.

Desde criança, a congregação aprende a cantar, a tocar e a “saborear a música”, pois a Igreja tem um ritual em cântico que preenche, pelo menos, a metade do culto evangélico e é apoiada por grupos corais que, afinal, são fonte potencial de vozes excecionais, que, depois, se projetam para lá da instituição religiosa. É, assim, por exemplo, que Celina Pereira aprende a cantar na Igreja do Nazareno do Mindelo e, “de repente, se torna cantora (…), encontra expressão para a sua música fora da Igreja, porque não há expressão da música da Igreja popularizada. Há um veículo para a música secular, que não existe para a música religiosa.”.

Não há, pois, qualquer contradição entre a esfera da música sacra e a secular, pelo contrário, a dita música tradicional cabo-verdiana é particularmente apreciada pelas igrejas evangélicas e nelas tem conseguido penetrar, tanto mais que “há música da Igreja com tonalidade de morna”, a despeito de uma “certa resistência da parte de algumas pessoas, não muitas”. Por outro lado, explica Jorge de Barros, apreciador das mornas da Boa Vista e da Brava, “cheias do mar, da saudade e da separação”, é preciso ter-se em atenção que “há uma linguagem com a qual o povo se sente confortável e, sempre que se altere essa linguagem, há um certo desconforto, ou um período de ajustamento, mas não há uma proibição (…), para mim não há sons ofensivos (…) ”.

Assim sendo, o proeminente evangelista advoga a entrada da música secular na Igreja, enquanto linguagem de comunicação, desde que ela “exprima nosso louvor ao Criador”. Atente-se, contudo, a título exemplificativo e a propósito da penetração da morna na esfera religiosa, no caso do irmão do falecido Norberto Tavares, “membro da nossa Igreja em Brockton, nos Estados Unidos da América, que tem mornas gravadas, mas com letras evangélicas”.

A resistência à penetração da música secular no interior da Igreja, se bem que circunscrita a alguns fieis mais conservadores, é contornada e ultrapassada pela própria dinâmica do processo de modernização, ou “atualização” da música litúrgica, como, aliás, prefere o Reverendo Jorge de Barros, através da introdução de novos instrumentos musicais (bateria, guitarra elétrica, etc.) e de novas sonoridades. Concebida como linguagem e instrumento ou veículo de educação, a música “transfere-se, com facilidade, à adoração, desde que exprima o sentir autêntico de um povo”.

A par da influência externa e visível da música popular na Igreja, por via da penetração e captação de ritmos e da aprendizagem de uma nova linguagem, “no sentido de uma osmose”, o repertório musical evangélico diversifica-se e enriquece-se, mercê de “novas levas de infusão vinda de outros cantos (…), de culturas, de algum grau de sofisticação e de sons” de diversas paragens. Todavia, a despeito da proibição da dança no interior da Igreja, em virtude da sua alegada ligação “à lascividade e ao contacto físico”, a religião nazarena sempre respeitou o costume das serenatas, “algo expressivo e romântico, que não desaparece” do cenário musical cabo-verdiano, pelo menos tão depressa.

Num compromisso equilibrado entre o mundo da música sacra e o da esfera secular, o Reverendo Jorge de Barros tem-se posicionado, igualmente, em prol da música tradicional cabo-verdiana e, em particular, da sua predilecta morna, que, pela sua expressividade, o toca profundamente, afinal, aquela que lhe fala a alma, porque “tenho alma badia, crioula, cabo-verdiana” e o umbigo orgulhosamente enterrado no país tropical que o viu nascer.

[Última parte].

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Autoria:César Monteiro,21 jun 2018 9:52

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  21 jun 2018 9:52

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