Nós e o mar

PorEurídice Monteiro,4 dez 2018 6:22

​Quando os chineses descobriram a técnica de dessalinização da água do mar para fins de consumo humano e animal, assim como para a irrigação dos campos de cultivo de cereais, esses orientais talvez sim ou talvez não faziam a mínima ideia de que um dia estabeleceriam neste pequeno arquipélago crioulo da costa ocidental africana a sua rentável e expansiva economia de comércio de bugigangas e utensílios de plástico, barro e pano.

Reza a lenda crioula que, na altura em que o primeiro grupo de chineses veio para cá com o fito de inaugurar uma lojinha de conveniências, ao escutar o lamento de um cidadão cabo-verdiano sobre a escassez de água potável e a falta de chuva para a azágua, um deles ficou surpreendido, nem queria acreditar, que era possível um país como Cabo Verde padecer de água quando na verdade está rodeado de tanto mar. As ilhas são do mar, banhadas pelo mar, plantadas ao largo do oceano. Os chineses sabem disso. E agora, nós descobrimos que, afinal de contas, o mar representa noventa e nove por cento do território nacional de Cabo Verde. Sendo assim, somos do tamanho do oceano que nos cerca; de igual modo, se até então não descobrimos recursos de valor maior no nosso subsolo, ao menos no mar podemos depositar alguma esperança.

Acontece que ainda nos dias de hoje, com esse quente e seco Novembro a crepitar os nossos dias, estamos pacientes à espera de mais uma chuva para a garantia do sustento das famílias cabo-verdianas, já que é a pequena agricultura que sustenta os alicerces da economia doméstica neste país.

É o suspeito ou insuspeitável relatório do Banco Mundial que nos recorda esta função basilar da produção agrícola para a soberania alimentar destas nossas ilhas atlânticas. Apesar de inicialmente muito aclamadas como uma eventual solução milagrosa para a conservação de água doce em Cabo Verde, as barragens padecem a cada dia que passa e revelam o seu limitado impacto num país tão seco e enfadonho como o nosso.

Há quarenta e tal anos atrás, Cabo Verde era um país cuja viabilidade tinha sido bastante questionada. Vozes insuspeitas não hesitaram em declarar que este pedaço de chão não seria um Estado viável. Hoje, decorridos todos estes anos à deriva, quando somos confrontados com a questão da viabilidade deste pequeno Estado insular da costa ocidental africana, como estamos um pouco mais avisados, tendemos pelo menos a ter maior ponderação na resposta e a delatar os nossos sonhos pela economia verde, economia azul, economia do conhecimento, economia digital, economia informal, diplomacia económica, etecetera e tal. De modo que não é de todo descabido reconhecer que a viabilidade de Cabo Verde dependerá sempre da forma como os problemas do país forem resolvidos. O país continua numa encruzilhada.

É certo que surgiram, desde a independência e sobretudo, mais tarde, com a democratização, muitas oportunidades para este pequeno país. Foi possível verdadeiramente a edificação das bases estruturais do país e da sua sobrevivência, por via da captação da ajuda externa ao desenvolvimento. Entretanto, no decurso destas décadas, muitos problemas subsistiram e com um potencial para impedirem o país de tirar o real proveito das oportunidades que se despontam a cada momento. Por exemplo: elevada dívida pública; mau ambiente de negócios; falta de condições para o financiamento da economia; carga fiscal insustentável para as famílias e para as empresas; derrapagem do sistema educativo e da qualidade da educação; fraca confiança na competência técnica dos recursos humanos endógenos; situação social com riscos efectivos (desemprego, sobretudo de jovens com formação superior; pobreza extrema; desigualdade regional e social; êxodo rural galopante e uma excessiva concentração de investimentos públicos e privados nos centros urbanos; aumento crescente da violência urbana).

Todavia, mesmo num ambiente de queda tendencial da Ajuda Pública ao Desenvolvimento, o país tem conseguido melhorar significativamente as suas exportações, incluindo nestas os serviços turísticos. Não obstante, de modo paradoxal, o próprio sector do turismo tem manifestado alguns sinais de que poderá estar em fase de um certo crescimento negativo. São sinais preocupantes e deveras contraditórios.

Nos últimos anos, Cabo Verde saiu formalmente do grupo de Países Menos Desenvolvidos para alcançar o estatuto de País de Rendimento Médio. Conseguirá fazer efectivamente, e talvez de forma bem-sucedida, essa transição se houver uma mudança rápida e radical das políticas económicas e sociais, para resolver os problemas apontados, particularmente se for acompanhada de uma aposta na população jovem que é a espinha dorsal do desenvolvimento de qualquer país, mormente o nosso. Caso contrário, a actual crise económica que persiste vai aprofundar-se cada vez mais e, com a crise a agudizar-se, as tensões sociais e económicas irão certamente agravar-se progressivamente, correndo-se o risco de deterioração da situação socioecónomica para lá do esperado (mais pobreza, mais violência urbana, mais desemprego). Configura-se, por essa via, uma situação social tendencialmente preocupante, que urge ter em devida consideração. Não é isto a reificação de uma visão apocalíptica da situação reinante, mas tão-somente uma perspectiva acerca da evolução de um cenário social que não podemos escamotear.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 887 de 28 de novembro de 2018.

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Autoria:Eurídice Monteiro,4 dez 2018 6:22

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  4 dez 2018 6:22

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