Manuel Faustino: o médico comprometido com a criação musical (II Parte)

PorCésar Monteiro,20 fev 2019 6:29

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​À data da partida de Manuel Faustino para Coimbra, precisamente no limiar do último trimestre de 1965, no intuito de prosseguir os estudos universitários, o ambiente musical em São Vicente caracterizava-se, em linhas gerais, por alguma efervescência, tendo em atenção, por um lado, o crescimento urbanístico da cidade portuária e, por outro, a pujança da ilha, em termos socioculturais, a despeito dos constrangimentos e dificuldades de vária índole. O fértil universo imaginário da infância e adolescência de Faustino, no plano meramente musical, é povoado, entre outras coisas que então o fascinavam, pelas famosas e populares salas de baile de João Tolentino e de Zé de Canda, mas, sobretudo, pelos célebres bailes de viola e bico, à volta dos quais gravitavam figuras musicais sobejamente conhecidas e veneradas do meio mindelense. “O meu pai não tocava nenhum instrumento musical, nem cantava, mas, eu ainda criança, passava-me uma certa amizade, diria, alguma preocupação justificada com a música, que terá ficado inscrita em mim para a vida inteira”.

Na sua infância, recorda-se Faustino da primeira vez em que, na sua ilha natal, ouviu o trompete, instrumento musical de sopro, da família dos metais, que nunca vira na sua vida, “ aquela coisa impressionou-me e, a partir daí, passei a manifestar particular interesse pelo trompete ”. Dono de uma memória prodigiosa, Manuel lembra-se, igualmente, além do conceituado violinista santantonense Mochim d’Monte, que o marcou profundamente, outra figura de proa mindelense, Marcelo, “ excelente tocador de banjo”, infelizmente, instrumento musical em desuso, no país. De facto, as referências musicais de Manuel Faustino foram marcadas, no cenário musical da sua cidade cosmopolita, pela “ introdução dos primeiros instrumentos eléctricos, da viola eléctrica, em primeiro lugar ” e, ainda, por uma visível “tendência para alguma diversificação (…) e apetência para se absorver música de fora e de outros lugares, em primeiro lugar do Brasil ”, num momento crucial da história da ilha, marcado por influências várias provenientes do exterior, através do seu estratégico Porto Grande. Conquanto não a tenha encontrado em casa, o certo é que “ a música, sempre, disse-me alguma coisa, sempre houve entre mim e a música alguma proximidade ”, reforçada, mais tarde, com o forte ambiente musical que o rodeou, desde a sua infância, num dos bairros mindelenses mais significativos, expressivos e emblemáticos de São Vicente, do ponto de vista meramente cultural.

Não obstante a entourage comunitária fortemente musical, na família de Manuel apenas tocava um pouco o violão o seu irmão mais velho António Faustino (Tonecas), que viria a falecer no Brasil, em Dezembro de 2004. Na linha da música, a sua irmã Maria Guadalupe (Zinha) com quem, aliás, Manuel Faustino sempre teve “ uma relação muito próxima, forte e de muita cumplicidade ”, cantava, quando era estudante universitária em Portugal, e “ chegou a integrar o Coro Misto de Coimbra”. Em S. Vicente, Faustino recebe influências do Tonecas, que tocava em serenatas e,com o mano, “aprendo a arranhar o violão e faço algumas posições, que, depois, melhoro, um bocadinho na convivência, de perto, com o falecido Renato Cardoso ”, primeiro em Lisboa e, mais tarde, na Praia.

Circundado por um ambiente musical contagiante, Manuel Faustino passa a frequentar, com um grupo de colegas e amigos ao qual pertenciam, também, Chico Serra, Zeca Serra, Djopam, Dado Capela e Noé, aulas de música, à hora do almoço, gentilmente ministradas pelo professor José Alves dos Reis, já fora do quadro institucional da cadeira de Canto Coral, no Liceu Gil Eanes, em S. Vicente. Sem resultados musicais visíveis, é certo, pois, “ infelizmente, ninguém ligava e aquilo não deu grande coisa ”, não obstante a “paciência incrível” do conceituado docente, Faustino considerou, no entanto, interessante a circunstância de, para lá das aulas de música em casa do maestro, ter o seu grupo apreendido “ alguma orientação política do Sr. Reis, de forma subtil, e nos ter incutido, na altura, algumas ideias políticas ”. Em boa verdade, a vivência de Manuel Faustino com a música verifica-se na fase da infância, mas, todavia, não se traduz, em termos concretos, na sua capacitação para tocar algum instrumento ou, sequer, cantar, daí “ a minha grande frustração”.

Já em Coimbra, com os primeiros acordes e noções rudimentares de violão adquiridas com o irmão em S. Vicente, consegue, com relativa facilidade, inserir-se no espaço social e cultural naquela cidade portuguesa, onde já se radicava uma razoável comunidade de estudantes cabo-verdianos, que gravitavam em torno das chamadas “repúblicas”. Se bem que não se sentisse naturalmente vocacionado para a música, ou tivesse tanto jeito para ela, a apetência musical veio ao de cima e, além de “arranhar” o violão, passa a tocar “um pouco” de pandeiro, que adquirira numa das suas deslocações de férias ao Brasil, em 1967, o chocalho e a tumba, tanto assim que “ fazia percussão no grupo que acompanhava o Coro Misto de Coimbra”.

Apesar de não ter veia musical, Manuel Faustino consegue, no entanto, já em Coimbra, a partir de 1967, projectar-se e impor-se, no plano nacional, como prestigiado compositor, graças à intuição e a alguns conhecimentos empíricos, e, até agora, já produziu cerca de 20 composições sobre temáticas diversas, algumas interpretadas e gravadas por Nhô Balta, Ildo Lobo, Djô d’África Stars e Lena França. A primeira composição musical, produzida no contexto da luta de libertação clandestina, em território português, é um vibrante apelo à fuga ao serviço militar e, logo, à rejeição à guerra colonial. Já fora da linha da dita música de intervenção, que, aliás, marca as composições de Faustino, sobretudo no período que precedeu a independência nacional, a coladeira Serafim, gravada em 1976 e 2001 por Nhô Balta e Ildo Lobo, respectivamente, é, sem margem de dúvidas, uma das obras musicais mais emblemáticas do compositor sanvicentino, autêntico retrato sociológico dessa cidade portuária d’outrora centrado “n a descrição da vida social de uma criança de rua em S. Vicente ”.

No essencial, as composições de Manuel Faustino, que privilegiam a morna, a coladeira e a balada, ou “ um misto de tudo isso, se se quiser ”, espelham, no essencial, as vivências do compositor, tanto em Portugal como em Cabo Verde, e, devidamente contextualizadas no tempo e no espaço, inserem-se em dois grandes momentos: o primeiro, em pleno período colonial, marcado pela música de intervenção, tout court , com fortes preocupações sociais e políticas; o segundo, já dentro do Cabo Verde pós- independente, marcado pela intervenção crítica e política, e, ainda, pela presença de algumas mornas líricas decorrentes da vivência amorosa. Do ponto de vista da técnica de composição, Manuel Faustino prefere trabalhar, simultaneamente, a letra e a melodia, que vêm da mãos dadas, isto é, “ faço tudo ao mesmo tempo, tenho uma circunstância, o contexto, e, quando começo a pensar na letra, ela aparece sempre colada a uma melodia. Depois, ajusto as palavras à melodia ”,que, no fundo, “são catalisadoras de alguma criatividade ”, no fundo.

Licenciado em Medicina, em 1974, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Manuel Faustino, casado com D. Helène Monteiro, cidadã cabo-verdiana nascida no Senegal, e pai de dois filhos (Chanda e Djoy), regressa a Cabo Verde, de imediato, inicia o seu percurso profissional centrado exclusivamente, numa primeira fase, na actividade política e assume vários cargos relevantes, alguns deles ao nível ministerial. Porém, em 1979, entra em rota de colisão com o PAIGC e, por isso mesmo, “ vejo-me forçado a emigrar para o Brasil, um dos piores momentos da minha vida, em circunstâncias extremamente difíceis ”,até ao seu regresso definitivo ao país, em 1990, num cenário já diferente, sem que essa “emigração forçada” tivesse beliscado o enorme interesse do compositor e médico pela compósita e rica cultura do seu país, ou pela criação musical, uma das suas grandes paixões.

Manuel Faustino
Manuel Faustino

(Última parte)

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 898 de 13 de Fevereiro de 2019.

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Autoria:César Monteiro,20 fev 2019 6:29

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  20 fev 2019 8:06

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