A escritora, depois dos 50

PorEurídice Monteiro,4 abr 2019 6:38

Filha da saniclauense Alice Lopes da Silva e do bravense filólogo Armando Napoleão Fernandes, Orlanda Amarílis nasceu em 1924, na então vila de Assomada, ilha de Santiago, em Cabo Verde. Irmã da também futura escritora Ivone Aida.

Vivia no sítio de «Galo Canta», a cerca de três quilómetros da escola de Cabeça Carreira, pequena aldeia do concelho de Santa Catarina que já era o mais populoso do interior da ilha. Com a escola afastada da casa de morada da sua família, aos cinco anos de idade, Orlanda Amarílis teve que realizar a sua primeira viagem de barco, partindo do porto de Ribeira da Barca em direção ao Porto Grande do Mindelo. Mudou de armas e bagagens para a ilha de São Vicente, a fim de estudar, desde a tenra idade. Uma decisão insólita no contexto da sua ilha natal, atendendo o facto de ela ser menina e ainda por cima muito pequenininha. Entretanto, pela sua condição social, logo se depreende que a família tinha plena consciência do impacto futuro de tal decisão na vida de Orlanda Amarílis.

Pelo lado materno, era sobrinha do poeta romântico novecentista José Lopes da Silva, prima do novelista António Aurélio Gonçalves, prima do poeta-romancista Baltasar Lopes da Silva e tia de segundo grau da futura poetisa Yolanda Morazzo. Pelo lado paterno, tinha como referência intelectual o próprio pai, autor do primeiro dicionário do crioulo cabo-verdiano e de um esboço de gramática para esta língua que, daquele tempo aos dias de hoje, tem suscitado muitas controvérsias.

Nesse ambiente de boa literatura, Orlanda Amarílis tinha acesso privilegiado aos debates culturais, o que lhe permitia observar e conviver com escritores de nomeada da época. Tão cedo revelou interesse pela escrita, tendo sido a única rapariga da Academia Cultivar do único estabelecimento secundário desse tempo, o consagrado Liceu Gil Eanes, na ilha de São Vicente. Em 1944, aos vinte anos de idade, Orlanda Amarílis se despontava na cena literária crioula, ao publicar o seu primeiro texto literário na revista cultural da referida academia juvenil, Certeza, que completa agora setenta e cinco anos do seu lançamento triunfal.

Nesse frenesi juvenil, conheceu Manuel Ferreira na casa da sua família materna onde este ia à procura do primo dela, Aurélio. Em 1945, casou-se com o escritor principiante e futuro ensaísta português, que na altura da Segunda Grande Guerra Mundial era militar radicado naquela ilha do Porto Grande. A então estudante Orlanda Amarílis vivia na casa de uma tia, onde também vivia o seu primo António Aurélio Gonçalves, uma casa muito frequentada por intelectuais, de entre os quais aquele militar português que queria se afirmar como escritor e ensaísta. Reconhecendo o professor Aurélio como uma referência literária e um amigo mais velho, Manuel Ferreira ia trocar impressões e pedir opinião a este já consagrado novelista cabo-verdiano. Foi por causa de Aurélio que Ferreira se fez escritor à sério, apesar de que quando se arribou em Mindelo já tinha publicado uns contos e uns poemas em revistas e jornais da pacata Leiria, sua terra natal.

Com o marido Manuel Ferreira, Orlanda Amarílis foi para Goa e deu quase uma meia-volta ao mundo. Mais tarde, fixou-se em Lisboa e lá criou raízes, tendo tido a oportunidade de viajar ao longo da vida, por causa da atividade profissional do marido e, mais tarde, devido aos frequentes convites que passou a receber assim que se tornou uma escritora de peito aberto e mãos cheias. Fez alguns estudos didáticos e literários tanto em Goa como em Lisboa, o que lhe permitiu desempenhar uma carreira sem sobressaltos.

Apesar de ter pertencido a uma família de intelectuais de referência, de ter tido um percurso de vida cosmopolita e de partilhar a vida com um intelectual e promotor da literatura africana na antiga metrópole, foi só aos cinquenta anos de idade, quando os filhos (Sérgio Ferreira, ro­man­cista, e Hernâni Ferreira) já estavam bem crescidos e feitos homens, que Orlanda Amarílis publicou o seu primeiro livro de contos, com o título Cais-do-Sodré té Salamansa (1974), seguindo Ilhéu dos Pássaros (1983) e A Casa dos Mastros (1989).

Para além de algumas colaborações dispersas em revistas e jornais literários, também foi autora de três títulos de literatura infantil, como Folha a folha (1987, em coautoria), Facécias e peripécias (1990) e A tartaruguinha (1997).

Como se explica o facto de uma escritora promessa (cuja aparição na literatura remonta aos anos de 1944) ter passado trinta anos sem dar sinal da sua existência literária? Certa vez, ela foi confrontada por uma questão parecida com esta e, como era do seu timbre, respondeu de chofre a Michel Laban, dizendo que estava a cuidar dos filhos e que, só conseguiu se libertar, depois de vê-los adultos. Deveras a questão da conciliação entre a vida pessoal, profissional e familiar se coloca às mulheres, por vezes independentemente da condição social e da profissão que exercem.

Tivesse iniciado a produção livresca antes, a escritora Orlanda Amarílis poderia ter publicado não sei quantos livros e, certamente, que muito contribuiriam para a afirmação da literatura cabo-verdiana no mundo. Em todo o caso, o conjunto da sua obra foi aclamado pela crítica literária, sendo uma das mulheres escritoras notáveis de Cabo Verde, com reconhecimento simultâneo pela Associação Portuguesa de Escritores onde se encontrava filiada.

Curiosamente, Orlanda Amarílis foi uma das primeiras e poucas escritoras originárias da ilha de Santiago nascidas antes da independência nacional, mas, se fosse forçoso situar a sua escrita literária, diria que ela foi uma escritora mindelense e da diáspora lisboeta, por causa da temática e da mundividência que procurou retratar na sua obra. Isto complexifica a identidade romanesca cabo-verdiana, sem dúvida...

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 904 de 27 de Março de 2019.

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Autoria:Eurídice Monteiro,4 abr 2019 6:38

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  4 abr 2019 6:38

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