A procrastinação, a perda de um ser humano e de uma mosca

PorAntónia Môsso,23 ago 2019 11:56

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​A vida precisa entrar na Assembleia Nacional. Sim, outro dia defendia eu que a vida dos animais não humanos (e na altura referia-me à população canina errante) precisava invadir a Assembleia Nacional. Começar raivosamente a distribuir dentadas “a torto e a direito”, atormentando os presentes com o seu “mundo de pulgas, carraças e doenças” para que o assunto fosse colocado em cima da mesa e definitivamente resolvido.

Continuarei a insistir na vida, mas desta vez na vida humana. A vida e a sua importância, um valor que tem sido posto de lado por quem nos governa (refiro-me a todos os governos que até então ocuparam o poder). A vida merecedora de interesse e consideração. A vida que se vai deixando para trás, esvaziando da sua graça, esquecida da sua irreversibilidade e preciosidade e que, por ser tão frágil, requer um conjunto de cuidados específicos para poder manter-se e preservar-se. A vida que não quer saber se a culpa é do partido X ou Y ou se no passado não se fez isto ou aquilo. Uma vida que, embora indiferente às inabilidades da classe política, uma vez enferma, não pode esperar. Precisa atempadamente de ser tratada, reabilitada, com respostas institucionais céleres e ajustadas às necessidades particulares.

Não precisa ser-se médico nem se fazer o juramento de Hipócrates, e muito menos ser-se Ministro de Saúde (o nosso tem o agravante de ser as duas coisas), porque não tem o que saber: a vida, humana ou não, o dever da sua proteção, o direito em lutar pela sua preservação é um valor prioritário e universalmente defendido.

Recentemente, no país, mais uma notícia abalou a nossa consciência, servindo de lembrete da importância da vida e das fragilidades de um Estado que não para de nos desiludir: a morte da menina Sheron aos seus 4 anitos de vida. A este caso mais recente, soma-se um número considerável de outros tantos que pululam nesse nosso país incoerente e desumano, que por vezes nem chega a ser de conhecimento público, mas que nem por isso deixa de causar dor, revolta e frustração.

Se havia salvação possível para o problema de saúde da menina Sheron? Não poderei responder. Mas respondo que este país falha e continuará a falhar de forma reiterada na área da saúde. E que ninguém tire o rabinho de fora. Nem virem todos os holofotes para o Ministro de Saúde e para o governo, porque nós, como sociedade, também falhamos. Falhamos quando os nossos doentes chegam ao exterior erradamente diagnosticados e “deixamos passar”. Falhamos quando permitimos ser tratados por profissionais de saúde sem competências sociais para lidar com pessoas, visivelmente estafados, apressados e de credibilidade duvidosa a nível de competências técnicas. Falhamos no passado quando o então ex-Ministro da saúde, Dr. Basílio Môsso Ramos perante a questão da insatisfação das pessoas com os cuidados de saúde disse, de forma quase insultuosa, para não chamar de perversa, que as caixas de reclamações dos hospitais estavam vazias. E, continuamos a falhar no presente, quando o atual Ministro da Saúde confrontado com a possibilidade da evitabilidade da morte da menina Sheron, sem se mostrar minimamente condoído com a família enlutada, e num discurso isento de emoções e de humanidade, frisa que a culpa não é dele nem do governo mostrando-se – como se de um cidadão comum e anónimo se tratasse, impotente, prostrado diante de um problema, cuja não resolução dita a morte (ou pelo menos o fim da possibilidade de lutar pela vida ) a um ser humano. E, continuamos a falhar com o nosso conformismo coletivo quase patológico. Com o nosso medo crónico de exigir seja o que for, e a nossa vergonhosa subserviência a quem pagamos para nos servir.

Socializaram-nos para a resignação. Socializaram-nos para admitir toda a sorte de abusos e indignidades vindos do poder seja ele professor, chefe de trabalho, ou governo. Castraram a nossa capacidade de indignação, de dizer chega, de bater com a porta ou de abri-la para colocar na rua quem, por nada nem ninguém respeitar, não é merecedor do respeito coletivo. Socializaram-nos para aceitar sem protestar a nossa condição de sermos um país pobre, uns coitados, e cultivaram em nós a baixa expetativa (não funciona e nem estamos surpreendidos porque já esperávamos que assim fosse). Um povo manso, amedrontado, excessivamente tolerante e ingénuo, para governar-se sem sobressaltos. E o que conseguiu-se até agora? Um país adiado.

Não esperemos que alguém venha socializar-nos para a valorização das nossas vidas, sua qualidade, proteção e defesa ativa.

A procrastinação do país mata. A procrastinação de investimentos nos cuidados de saúde mata de forma paulatina e, por isso, é a mais dura e cruel de todas as procrastinações. Mas é seletiva, pois só toca ao “Zé povinho” e por isso persiste.

A vida e o seu valor precisa invadir o parlamento assacando responsabilidades e responsabilizações por nunca se ter verba para a sua manutenção e cuidados. É a própria vida, minha, tua, nossa que impõe essa urgência.

Já é sabido que os espaços decisores, à revelia dos ideais democráticos converteram-se em espaços de debates estéreis, de vaidade, de gula e de guloseimas, mas, a queda de um ser humano, cabo-verdiano, por falta de assistência médica atempada, não pode ter o mesmo impacte que a queda de uma mosca.

Parafraseando uma expressão de António Aleixo, poeta popular, talvez mais vidas fossem poupadas e melhores condições de saúde gozássemos, se o coração dos que nos governam não estivesse tão distante da cabeça. Senhores Ministros, pela vossa saúde, dos vossos familiares e amigos, tenham vergonha. Priorizem a saúde dos cabo-verdianos.

*a autora escreve de acordo com as regras do AO90

P.S. Dedico o texto a Sheron, que não tive o prazer de conhecer, como um pedido coletivo de desculpas. Falhamos o combate.

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Autoria:Antónia Môsso,23 ago 2019 11:56

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  25 ago 2019 10:33

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