Uma solução ou extravagância

PorSilvino de Oliveira Lima,10 out 2020 7:35

Engenheiro Civil – antigo Ministro das Obras Públicas
Engenheiro Civil – antigo Ministro das Obras Públicas

O mês de Setembro deixou o campo coberto de verde e agora, mesmo que venha a falhar a chuva de Outubro, percebe-se que a dupla pandemia-seca começa a ceder na frente climática e aliviar o sufoco que foi longe demais a massacrar e a espraiar o infortúnio por estas ilhas.

Durante três consecutivos anos, a seca que tanto contribuiu para infernizar o dia-a-dia do camponês, agora dá lugar a abundante chuva, reforçando a esperança em bom ano agrícola e confirmando a crença do homem do campo que sempre viu nas crises o prenúncio de bonança a bater à porta. Porém, os 45 anos de soberania ainda não bastaram para resolver o tão badalado propósito de tornar independente das condições climatéricas a vida no campo, donde a dificuldade em superar ocorrências como a que envolveu a campanha do salvamento do gado com todo o borburinho criado à sua volta. É que não obstante laivos de modernidade, persiste no campo a velha tradição: olhar mais para as dádivas do céu; olhar menos para o acervo de condições modernas; subestimar a chave do verdadeiro progresso. Resultado: exploração a mais, água a menos, campo a debilitar, um rosário de contrariedades. E das duas, uma: ou alivia-se a carga das terras verdes do interior e temos o campo a sintonizar com o desenvolvimento sustentado, ou não é assim, outra sorte não se espera que ruína nas ditas terras e sombra no quadro social. Razão por que parece melhor caminho: dinâmica paisagística com ponto de partida nas orlas marítimas; competências respaldadas de ferramentas tecnológicas; mercados agregados; talentos em acção visando o alargamento e a modernização do campo.

É um facto. A crise começa a ceder precisamente na vertente onde estas ilhas se singularizam sob a sabedoria do homem do campo que de trevas consegue luz. A outra vertente, global e muitíssimo mais devastadora, é que teima a não ceder no arrasar de economias e dinâmicas de progresso por todo o mundo. Até onde vai a razia e suas consequências sociais, políticas e económicas, ainda não se sabe, mas cá para nós uma certeza: o depois que irá suceder esse antes de tão severo e desproporcionado retrocesso, doravante passará a exigir caminho efectivamente repensado, periodicamente revisto, rigorosamente seguido, porque vendo-se o fardo do desenvolvimento a agigantar tanto fazendo retroceder anos e anos de labor feito a suor e pedra-a-pedra, já se perceberá melhor que para o empurrar com êxito, só uma e apenas uma direcção deverá concentrar os esforços da nação, ou fique-se no desperdício de energia que só coloca a emancipação económica, a felicidade e o bem-estar social no marca-passo e a anos-luz de alcançar.

O brutal momento vivido acaba então por chamar a atenção para um facto óbvio e muitas vezes ignorado: a impossibilidade, nas condições particulares destas ilhas, de conjugar o desenvolvimento com o desperdício, seja de tempo, de meios humanos ou materiais, oportunidades dum modo geral, seja lá do que for onde rigor é fundamental para empurrar o fardo e fazê-lo progredir. É assim que se exige um caminho com alvos estratégicos claros para credibilizar a ampla participação: o papel da nação consistindo na concessão e estabelecimento do rumo; o da governação virado para a execução em correspondência com as expetativas. Ou não estará havendo confusão dos papéis de modo a tornar mais pesado o fardo do desenvolvimento e a atrasar o ritmo de progressão visando o alcance dos alvos? Se há desgaste de energia a refletir nos níveis de progressão é por que está, de facto, a haver falhas: ou do lado da nação ligada á estratégia de amplo horizonte; ou do lado da governação, no limite temporal do mandato imposto pelo ordenamento político; ou ainda, falha de ambos. Certo é que não consta ter havido da parte da nação uma prática deliberada e consistente para realizar amplos consensos e delinear a grande estratégia que pudesse controlar a gestão dos processos sociais e económicos, estes, fundamentos aqueles.

De todo o modo, o que a realidade aqui retrata é um vazio de mecanismos e instrumentos de política que possam levar a nação a controlar o seu destino através dos alvos estratégicos já com horizonte situando-se bem além do limite temporal dos mandatos da governação. E talvez por isso, num esforço para superar a falha, não raras vezes os governos estão a assumir programas que extravasam o mandato, e na prática tendo consequência: quebra de continuidade – um governo, um programa, uma direcção – que não favorece a ampla participação tão necessária para concentrar os esforços da nação numa direcção única, forma evidente para puxar com êxito o fardo do desenvolvimento e de o fazer progredir a bom ritmo. Uma prática que a experiência de cinco décadas já revela como percurso feito aos ziguezagues que, bem traduzido, significa perda de capacidade e atraso no acertar dos alvos, inaceitável tendo em conta o mar tão carregado de escolhos onde se permite navegar à procura do destino que dê aos filhos das ilhas as condições de vida digna e a felicidade por que se batem.

Entretanto, como se sabe, as grandes nações batem-se por alvos estratégicos que não raras vezes roçam a extravagância, já não bastando fixá-los no planetário terrestre, mas no sideral muito mais elevado e espectacular. Porém, as mais pequenas e pobres nações, o que podem e devem fazer é assentarem os pés bem firmes no chão da terra que a sorte lhes proporcionou e porem-se a perseguir o desenvolvimento através de alvos à sua medida, sem contudo prescindirem da ousadia. E Cabo Verde que está nessa categoria, mas bem nas antípodas das poderosas, obriga-se ainda a muito maior ousadia, senão também ao roçar da extravagância à sua condição, para superar a enormidade que é a inércia imposta pela sua geografia e história, o que os dois exemplos seguintes já poderão dar para se perceber: por um lado, o ciclópico desafio de reordenar um território agreste que piora com as mudanças climáticas globais e torna-lo verdejante, próspero, e moderno; por outro, o não menos ciclópico desafio de superar a pesada inércia que até hoje ainda não permitiu realizar o já velho propósito de aproveitar o potencial geoestratégico do país e torna-lo a base do desenvolvimento. Sendo assim, pela sua importância e amplitude do alcance, a iniciativa e a condução da estratégia é matéria que deveria estar confiada a uma alta autoridade autónoma, devidamente estruturada e supervisionada na mais alta magistratura, sede do timoneiro da grande saga que controla o destino da nação. Ou não será essa alta autoridade a peça que falta para transformar o país numa verdadeira máquina do desenvolvimento? Sim ou não, uma coisa é certa: a maquinaria completa já permitirá melhor ambiente à governação; a correcção do percurso feito em ziguezague; a concentração numa só direcção os esforços da nação; a ampla participação; enfim, vitalidade e força para tornar o jogo da fortuna a favor da ambição que move o povo destas ilhas.

No amplo reordenamento do território das várias ilhas o que se espera é a expansão da margem de manobra da governação para centrar os estímulos de modo a ter em mão o controlo do quadro ecológico e paisagístico; controlo do quadro migratório e concentração urbana; do povoamento das zonas pertinentes de orla marítima através de pequenas unidades urbanas que facilitem as relações humanas e a tranquilidade social; dum modo geral, controlo da problemática habitacional em conformidade com as novas oportunidades a irromper no campo e com o acervo tecnológico moderno que permita descolar das sombras do presente o futuro que almeja o povo.

Na mesma linha, o que há muito se deseja é descolar do crónico impasse a problemática do aproveitamento das potencialidades geoestratégicas do país. Ora, por muito que se tenham esforçado os sucessivos governos – e vê-se não ser pouco, tanto na área marítima como aérea –, o limitado tempo de mandato, com consequência ao nível da continuidade e dos resultados, dificilmente vai-lhes permitir centrar seu foco na verdadeira estrela orientadora do destino da nação e se tenha a ampla mobilização para o progresso que se queira imparável; papel que parece reservado à dita alta autoridade que, necessariamente, terá de poder sintonizar as iniciativas domésticas com a dinâmica e sentido das grandes transformações vindas das geopolíticas globais portadoras de novas e grandes oportunidades. O que já suscita esta questão: como superar a pequena ambição para concentrar os esforços da nação num amplo plano que acerte nesse alvo de tamanha importância. O exemplo da emancipação política mostra que é sempre possível uma tal superação. Contudo, fica a reserva de como e onde fazer surgir o projecto para o ter de alto alcance a promover a emancipação económica e a influenciar positivamente e de modo sustentável todos os segmentos da sociedade.

Para isso, não se surpreenda: o projecto deverá concentrar no mesmo espaço, tanto o hub marítimo como o aéreo; consumir vários quilómetros quadrados de áreas de operação, indústrias e serviços; permitir o desenvolvimento de um grande centro de construção naval, componentes para a produção de energias renováveis, e outros segmentos industriais derivados. Será extravagância? Quem ousará dizê-lo? Porém, o esforço para superar a inércia rumo ao desenvolvimento é de tal forma grande que não há outra alternativa que não colocar a ambição ao nível da extravagância. E coloca-la lá onde sempre esteve a estrela a indicar o destino, a zona que beneficia da geografia posicional de S. Vicente e Santo Antão e ainda, da riqueza em matéria rochosa tão bem acessível no sul das ilhas que dá para pensar em prosseguir com a arquitectura onde a natureza quis mostrar que daí haveria de sair futuro. Só pensar nisso. A história continua. A verdade triunfará.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 984 de 8 de Outubro de 2020. 

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:Silvino de Oliveira Lima,10 out 2020 7:35

Editado porSara Almeida  em  10 out 2020 7:35

pub.
pub
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.