Bate tempu, transversal ao tempo…

PorPaulo Lobo Linhares,28 dez 2020 9:31

Era uma vez um músico que tendo nascido no Senegal tinha as suas raízes assentes em Cabo Verde. Tais raízes vinham de várias ilhas…sobretudo do vulcão do Fogo e montanhas de Santiago – provavelmente elementos que lhe viriam a imprimir a atracção pela natureza que continuou a acompanhá-lo e regê-lo.

Foi crescendo, convivendo não só com a música do contente africano sempre bem ancorada no mar das ilhas, mas também com as mais variadas músicas do mundo que ia conhecendo através de tournées e vivências que a profissão …que se virá mais tarde a tornar-se missão… lhe proporcionava.

Correndo países, absorvendo a música e músicas, vivências e experiências, tudo ia contribuindo para todo um aquivo que ia aos poucos dando origem a um ser especial…

E assim ia caminhando o músico, até resolver que bastava de correr mundo. Era tempo de voltar para as ilhas que sempre foram o seu chão… amava outros lugares, mas provavelmente as ilhas eram especiais. Voltou. Como eram muitas, resolveu corrê-las, vivê-las, num saborear experimental. Sim – o nosso músico passou a musico-viajante...

O musico-viajante, enquanto corria as ilhas, não se esqueceu da outra parte: a de músico. Assim, nunca parou de compor para ele e outros artistas a quem ia oferecendo músicas, tocou, dividiu palcos e experiências musicais, contou e cantou a música e o mundo – sempre com as ilhas como bússola.

Durante esse tempo deixou-se estar e seguiu viagem…

Passaram-se os anos e a parte de músico era cada vez mais presente, tão intensa que a partilha bastava para talvez colmatar as gravações, os discos – a parte de registo físico da música. Sim, registos eram feitos, porém guardados por ele e por quem ia caminhando com ele.

Passados 21 anos, o nosso músico-viajante optou por gravar um disco físico. Sim, faz sentido, sentiu que de certo modo poderia ser o culminar de encontros e momentos que proporcionavam tal decisão. Nasce assim, “Bate Tempu” o último trabalho de Boy G Mendes – para nós os fãs - carinhosamente “G”.

Em tempos em que o mundo parou, talvez “G” tivesse que partilhar a arte com os que necessitam da sua música como “bênção” (parafraseando Sara Tavares). E ofereceu-nos uma caixinha de 6 músicas feitas numa das 10 ilhas de “G” – São Vicente.

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Rodeou-se de 2 produtores: um mais experiente e outro mais novo, com visões diferentes da música (contudo ambos apaixonados por ela, ambos de excelência em termos de criação - certezas da nossa música) – Hernani Almeida e Khaly Angel. Chamou os músicos e celebrou a música num disco que à imagem de “G” percorre várias sonoridades numa só música, num só mundo que mistura paz e sons, espiritualidade e vibe própria do músico…

No último tema ainda faz vénia à sonoridade crioula em misturas de ambientes que nos remetem para a palavra crioulo.

Conforme disse, “G” esteve ausente 21 anos sem gravar. Um intervalo de tempo grande …ou talvez pequeno – é difícil de definir pois a sensação que tive foi que não se passaram anos entre o último álbum de “G” e “Bate Tempu”. Aqui reside o maior segredo-maravilha deste álbum: a capacidade de ser transversal ao tempo – de ter estado ausente numa presença sentida.

Meus caros – Boy G Mendes.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 995 de 23 de Dezembro de 2020. 

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Autoria:Paulo Lobo Linhares,28 dez 2020 9:31

Editado porAndre Amaral  em  28 dez 2020 18:41

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