Foi crescendo, convivendo não só com a música do contente africano sempre bem ancorada no mar das ilhas, mas também com as mais variadas músicas do mundo que ia conhecendo através de tournées e vivências que a profissão …que se virá mais tarde a tornar-se missão… lhe proporcionava.
Correndo países, absorvendo a música e músicas, vivências e experiências, tudo ia contribuindo para todo um aquivo que ia aos poucos dando origem a um ser especial…
E assim ia caminhando o músico, até resolver que bastava de correr mundo. Era tempo de voltar para as ilhas que sempre foram o seu chão… amava outros lugares, mas provavelmente as ilhas eram especiais. Voltou. Como eram muitas, resolveu corrê-las, vivê-las, num saborear experimental. Sim – o nosso músico passou a musico-viajante...
O musico-viajante, enquanto corria as ilhas, não se esqueceu da outra parte: a de músico. Assim, nunca parou de compor para ele e outros artistas a quem ia oferecendo músicas, tocou, dividiu palcos e experiências musicais, contou e cantou a música e o mundo – sempre com as ilhas como bússola.
Durante esse tempo deixou-se estar e seguiu viagem…
Passaram-se os anos e a parte de músico era cada vez mais presente, tão intensa que a partilha bastava para talvez colmatar as gravações, os discos – a parte de registo físico da música. Sim, registos eram feitos, porém guardados por ele e por quem ia caminhando com ele.
Passados 21 anos, o nosso músico-viajante optou por gravar um disco físico. Sim, faz sentido, sentiu que de certo modo poderia ser o culminar de encontros e momentos que proporcionavam tal decisão. Nasce assim, “Bate Tempu” o último trabalho de Boy G Mendes – para nós os fãs - carinhosamente “G”.
Em tempos em que o mundo parou, talvez “G” tivesse que partilhar a arte com os que necessitam da sua música como “bênção” (parafraseando Sara Tavares). E ofereceu-nos uma caixinha de 6 músicas feitas numa das 10 ilhas de “G” – São Vicente.
Rodeou-se de 2 produtores: um mais experiente e outro mais novo, com visões diferentes da música (contudo ambos apaixonados por ela, ambos de excelência em termos de criação - certezas da nossa música) – Hernani Almeida e Khaly Angel. Chamou os músicos e celebrou a música num disco que à imagem de “G” percorre várias sonoridades numa só música, num só mundo que mistura paz e sons, espiritualidade e vibe própria do músico…
No último tema ainda faz vénia à sonoridade crioula em misturas de ambientes que nos remetem para a palavra crioulo.
Conforme disse, “G” esteve ausente 21 anos sem gravar. Um intervalo de tempo grande …ou talvez pequeno – é difícil de definir pois a sensação que tive foi que não se passaram anos entre o último álbum de “G” e “Bate Tempu”. Aqui reside o maior segredo-maravilha deste álbum: a capacidade de ser transversal ao tempo – de ter estado ausente numa presença sentida.
Meus caros – Boy G Mendes.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 995 de 23 de Dezembro de 2020.