Um pouco do Kaká Barboza que fica entre nós

PorFátima Fernandes,12 mai 2020 7:30

Dessas duas dimensões da vida de Kaká, o dia 1 de Maio, dia do seu aniversário e dos trabalhadores, ganhou uma luz especial

O dia 01 de maio de 2020, porque de um dia de sol bonito se viveu, deu a este país arquipelágico a triste notícia do passamento de Kaká Barboza, no mesmo dia que o país vira nascer o homem e o poeta. É sinal de gratidão a essa mesma terra lembrar as palavras do poeta do tempo da “secação”, onde as núvens (habitualmente prenúncio de chuva), quando aparecem, se personificam e são simpáticas, como sempre declaram e esperam os homens simples destas terras, ano após ano esperançados nas azáguas.

Nas palavras do poeta, que viveu grande parte da sua vida a causa do trabalho e da dignidade da gente do povo, a fortaleza das rochas nos abriga para além das núvens da esparança e do desenvolvimento. Do homem que nos deixou simbolicamente no dia em que nasceu, é conhecida a sua firmeza de carácter acolhida nos três lugares (São Vicente, Assomada e Praia). Felizes e “Dignas são estas ribeiras/Que arvoram veias de esperança”!

Aqui nos interessa aliar a retidão do carácter de Kaká Barboza ao exercício de uma pena de retidão e clareza. Por ele perguntamos se terá tido adversários à altura das suas intervenções, aliando-se aos valores do trabalho e da liberdade. Essa retidão de escrita vai para além da descrição das coisas, do tempo e dos sentimentos. Com o recurso permanente à prosopopeia (ou personificação, que significa atribuir a seres inanimados características de seres animados ou atribuir características humanas a seres irracionais), deu vida às coisas da natureza, em tom e exercício: “Fortes são estas pedras/Que silenciosas amam o vindouro/ Amigas são estas achadas/ Que alçam a querença às enxadas”. Tal vida aproxima o homem dos seus semelhantes e coloca o sujeito poético num exercício de linguagem usada para tornar mais dramática a comunicação.

É de se concordar que para indívíduos como Kaká Barboza “Adversário só a secação/ Que sonha desapelar e desabonar/ O marchar ousado deste cantochão”. A poesia de Kaká Barboza nos interpela à valorização das coisas da terra, fundindo-se nela para a defesa dos anseios do povo cabo-verdiano, sobretudo delegando na sua voz e na sua escrita o poder de libertar a escravatura da mente e do corpo. O Poeta procurou assumir os anseios do povo, dando provas de um conhecimento de causa em defesa da vida e do trabalho. Daí podermos concluir ele representou a Nação cabo-verdiana e assumiu com elevação poética esse papel, considerando legitimamente que o “Adversário só a Secação”.Só a Natureza nos pode derrotar.

De outro lado, temos que apontar a beleza, juntamente com a retidão, no uso da língua materna, levando-nos ambas a testemunhar a força do cabo-verdiano nas composições cantadas pelos nossos artistas. A letra de Dimokransa, sendo das mais expressivas, guarda um conjunto de observações perspicazes da força presente e resultante da luta : “Mintira pon di kada dia/ verdadi ka sta kontadu/ nos tudu nu bira finjidu/ ku konbérsu dimagojia”. Daí o tom crítico de quem se movimentou pelos trabalhores contra o exercício injusto do poder, que lhe foi reconhecido pela contribuição que deu à luta política clandestina, enquanto Combatente da Liberdade da Pátria.

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Poeta e homem de cultura, aquele viria também a ser um dos fundadores da Associação de Escritores, hoje Academia Cabo-verdiana de Letras, escrevendo em duas línguas, sendo a Cabo-verdiana sua preferida, deixou nos seus poemas uma força singular. Kantadu ma dimokrasia/ ma staba sukundidu/ ma tudu dja sai na klaru/ y nos tudu bira sabidu

E assim, dessas duas dimensões da vida de Kaká (cruzadas na poesia e na aproximação aos trabalhadores genuínos), o dia 1 de Maio, dia do seu aniversário e dos trabalhadores, ganhou uma luz especial, respeitando “kada un ku si mania/ fla rodondu bira kuadradu/ kada un ku si tioria/ poi razon pende di si ladu…”

Quando o Adversário da vidaé só a Secaçãode um tempo que não se espera, podemos aclamar: “Maioria sta tudu kontenti/ ku avontadi na dimokrasia,” e continuaremos a cantar-te com admiração. Que a luz esteja sempre contigo Kaká Barboza: dipos di sabi móre é ka nada!

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 962 de 6 de Maio de 2020. 

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Autoria:Fátima Fernandes,12 mai 2020 7:30

Editado porSara Almeida  em  3 jun 2020 10:19

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