A ciência sob aplauso de fracos e poderosos

PorSilvino de Oliveira Lima,4 jan 2021 7:10

Engenheiro Civil – antigo Ministro das Obras Públicas
Engenheiro Civil – antigo Ministro das Obras Públicas

O 2020 custou muito a dobrar, ano que por todo o chão planetário foi deixando para trás e para a história um gigantesco e arrepiante quadro de destruição como há muito já não se via: vidas apagadas aos muitos e muitos milhares; economias colapsadas ou intensamente abaladas até ao mais profundo dos seus alicerces; dinâmicas de progresso virado retrocesso; grandes sonhos tornados pequenos, ou até mesmo sonhos nenhuns; esperanças congeladas no tempo, sequer sem um fim à vista.

Porém, para a frente, ainda que sabendo não morra a esperança ou que seja ela a última coisa a desaparecer, facto é que ainda persistem negras e espessas nuvens a envolver de cegueira a visão do futuro, a atropelar o bem-estar da nação global, grandes e pequenos estados, ricos e pobres cidadãos, comunidades inteiras, indistintamente. Ou não se estará perante mais um sinal de perigo existencial para a humanidade, ela mesma perfilando-se como sujeito ativo de suas próprias desgraças? Começa-se com a «brincadeira de mau gosto» do nuclear, aplaude a ciência os poderosos, deu no que deu o andar às bombas, e o que ainda se vê é inação para travar, definitivamente, a expansão desses tão perversos e macabros objetos. Degrada o clima global para a situação de caos, como se vê espelhado nas grandes tempestades, inundações, crescendo acelerado da temperatura, secas, incêndios, etc., aponta-se o dedo à concentração carbónica, mas desta vez já não se vê os poderosos a aplaudirem a ciência – tira-lhes o tapete a carbónica! É um facto. Até aqui, sempre que tais desgraças acontecem é quase sempre o mais fraco a apanhar-se na ponta do cano queimando a pele no espraiar do veneno. Porém, coisa curiosa é que desta vez a pandemia veio para a todos envenenar, independentemente da dimensão da geografia ou posse de cada um, país ou pessoa. E quando vacina já surge para se prevenir do mal, eis que mais uma outra coisa curiosíssima acontece: a ciência já sob os aplausos generalizados de fracos e poderosos. Vá-se lá entender o mundo!

De todo o modo, sendo corretíssimo e digno do maior destaque tão raro e grandioso gesto prestado à ciência – como parcas vezes acontece na história –, convenha-se que também merece reverência a coisa rara de se juntarem as mãos de fracos e poderosos no aplauso da causa global que até parece sinal de um tempo novo mais propício ao cumprimento da tríade dos direitos universais do homem – justiça, liberdade, igualdade – que então obriga a remeter para a questão: será que o forte impacto do vírus na correlação de força das economias não terá vindo para acelerar o surgimento de uma nova ordem mundial já em estado avançado de gestação? Sim ou não, o que mais interessa na perspectiva de mais uma grande mudança no xadrez da redefinição dos senhores do mundo é cautela, muita cautela, sobretudo que os mais fracos não se deixem apanhar mais a escavar o fosso da sua própria desgraça. Por uma razão muito simples ainda tão presente na memória coletiva: o legado da Segunda Guerra Mundial que veio pintar de generosas cores a sorte dos povos colonizados que, na prática, viria a revelar-se inconsequente para conter a gula de ardilosas tentativas de transformar os respetivos territórios em terreno fértil de hipocrisia política para perpetuar a exploração e as desigualdades dos povos. Daí que, na hora das grandes transformações globais, não se pode esquecer quanto custou a sorte de grandes paladinos da causa libertadora como Amílcar Cabral, Kwame Nkrumah, Lumumba, Samora Machel e outros, para que as cautelas se redobrem e o sol venha a brilhar, efetivamente, para todo o mundo, em cumprimento dos direitos consagrados na já referida tríada.

Na verdade, quando o contexto atual se agrava com a pandemia e lança sombra sobre o que reservam ao mundo as perspetivas de futuro, é legítimo que as trombetas soem para que, no desespero do corre-corre e puxa-puxa de tapete – para conquistar vantagem própria e nega-la ao próximo – não se atropele perdendo a noção dos valores que fazem grandes as nações e os povos, sobretudo estados frágeis e de pequena dimensão como Cabo Verde, que ao mínimo choque vindo do exterior fica a braços para assegurar o legado de gerações e gerações e não tenha de recuar décadas de progresso conquistado no torrar da pele e a custo de muito e muito suor. Infelizmente, o atual momento que o mundo atravessa obriga ser essa a situação do Cabo Verde de hoje, levado a ter que fazer grandes opções e não venha a perder o controlo do seu destino. Porém, não ignorando que é vasto e complexo o quadro de desafios que o país obriga-se a enfrentar, há que convir que o momento é também de oportunidade para a descoberta de pistas novas nunca antes tentada, seja por imperativo de contexto, seja por inércia de ação. Por isso, não obstante a limitação do espaço que impede ir mais a fundo nesta matéria, há dois aspetos que a complexidade do mundo actual obriga a ter em devida conta: melhor conhecimento do mundo para que com ele saiba o país lidar; melhor conhecimento de nós próprios enquanto nação, em prol de orgulho e respeito face ao mundo.

Para o primeiro, por que a limitação de meios freia o acesso aos melhores modelos para a solução de importantes temáticas, só cabe apresentar dois exemplos, um relacionado com os contornos da nossa democracia, outro com as relações laborais, ambos levando a questionar: por que não se vai além dos círculos tradicionais de +cooperação e não se estude experiências como a da Finlândia que está na vanguarda do desenvolvimento, não obstante obrigada a mitigar a sua democracia em prol da segurança das fronteiras face às ambições expansionistas do colosso ex. União Soviética? Por que continuar a indexar o nosso sistema laboral a sistemas que pecam por demasiado conflituosos e inconsequentes quanto à mitigação das desigualdades e não se estude experiência como a da Dinamarca onde o elevado progresso do país – riqueza e equilíbrio social – muito tem a ver com a sua força sindical que advém da habilidade em manter o equilíbrio entre direitos e deveres no trabalho?

Para o segundo aspeto – conhecimento aprofundado da nação –, por que continuar a relegar para plano inferior, ou plano mínimo, a história destas ilhas que poderá enlevar o perfil identitário da nação, quando ainda se ignora a posição de Baltazar Lopes da Silva, «não somos nem europeus nem africanos, somos cabo-verdianos»? Ou a posição das Maurícias, «não somos nem africanos nem indianos, somos mauricianos»? Ou mesmo ainda a do Reino Unido de hoje dizendo «eles os europeus»? Será que tais posições não enlevam a barganha dos negócios? As experiências nos dirão da sua justeza. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 996 de 30 de Dezembro de 2020. 

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Autoria:Silvino de Oliveira Lima,4 jan 2021 7:10

Editado porAndre Amaral  em  4 jan 2021 7:10

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