Celina Pereira, a guardiã das nossas tradições orais

PorCésar Monteiro,11 jan 2021 9:05

Sociólogo da Música e investigador
Sociólogo da Música e investigador

Seja qual for a sua condição ou o seu estatuto como sujeito criador, o artista não se dissocia do contexto sociocultural em que se insere onde, aliás, constrói a sua identidade e o seu próprio estilo, através de sucessivos processos de ressocialização, que atravessam a sua carreira e contribuem, ao mesmo tempo, para o seu aprimoramento artístico, deixando nela marcas visíveis.

À procura de originalidade e autenticidade, o músico, em especial, inscreve a sua atividade profissional no contexto em que se move, condicionando a sua vocação, o seu perfil artístico e a qualidade do produto final, não importa o género tradicional ou moderno da música. Não fugindo à regra, a entourage social e cultural de origem boa-vistense de Celina Pereira pesou, de forma decisiva, na formatação da personalidade e no percurso de vida da cantora, de resto, uma das figuras de proa do meio artístico feminino mais emblemáticas e representativas das tradições orais cabo-verdianas falecida, em Lisboa, a 17 de dezembro de 2021.

Nascida a 10 de setembro de 1940, na então Vila de Sal-Rei, onde, aliás, decorre a primeira fase da sua socialização primária, num contexto de insularidade, Maria Celina da Silva Pereira, de nome completo, oriunda de uma família rural, tradicional e modesta, era filha de Armando da Silva Pereira, mais conhecido por Mané Beba, também natural da Boa Vista, mas de ascendência santiaguense, também ele já falecido. Na sua vida privada, o pai, que fora empregado comercial na firma Benoliel, na ilha das dunas, perfilava-se como homem honesto, sério, ligado à família e muito austero, que mantinha com os filhos uma relação de algum distanciamento discreto, mas sem qualquer conflitualidade. A mãe, D. Rosa Lima Silva Pereira, mais conhecida por Nina, também ela natural da Boa Vista e falecida, mas de ascendência sanicolaense, ajudava na educação dos quatro filhos do casal, fazia pães caseiros e zelava para que nada faltasse no lar, garantindo, assim, uma vida minimamente folgada e sem abundância. Diferentemente da relação distanciada e severa que o pai mantinha com os filhos, a ternura e o afeto vinham, na verdade, da mamã Nina, sem, todavia, que a progenitora assumisse, na prática, um papel demasiado protecionista, traduzido em mimos.

Originária e socializada no seio de uma família católica, Celina Pereira era, também, neta paterna do Padre Porfírio Pereira Tavares, nascido a 28 de fevereiro de 1868, na Freguesia de S. Miguel da Ilha de Santiago, em Calheta de S. Miguel, e falecido em São Vicente, na cidade do Mindelo, a 13 de março de 1949, vítima de doença prolongada. Aos sete anos de idade, mais precisamente em 1948, os pais de Celina emigram definitivamente para S. Vicente, à procura de uma vida melhor, já que a sua ilha natal, votada ao abandono, era, na altura, economicamente atrasada e sem condições mínimas que permitissem aos filhos prosseguir os estudos liceais. Diferentemente da então Vila de Sal-Rei, a cidade-porto viria a encantar e a deslumbrar o imaginário de fantasias próprias da idade de Celina, que procedia de um meio periférico subdesenvolvido, dominado por estilos de vida predominantemente rurais. Instalada em S. Vicente, com os pais, na antiga Rua dos Descobrimentos, também conhecida como Rua de Papa Fria e, hoje, Rua António Aurélio Gonçalves, Celina Pereira, que acabara de descobrir o seu próprio mundo, na ilha do Porto Grande, nessa transição do rural para o urbano, faz, sucessivamente, os estudos primários, a admissão aos liceus e o ensino secundário, antes de partir para Viseu, em Portugal, a fim de ali frequentar o Curso de Magistério Primário, durante dois anos letivos sucessivos. Aliás, sublinhava Celina, a propósito, que um dos factos que marcam a sua infância é, justamente, a mudança do Sal-Rei para uma cidade cosmopolita, como a do Mindelo, caraterizada, então, pela presença de muitos barcos fundeados na Baía do Porto Grande e pela mobilidade de pessoas nas ruas, de um lado para outro e onde adquire a noção de cosmopolitismo, que a cantora perfilhou inteiramente, até à sua morte, aos 80 anos.

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Na Boa Vista, Celina encontrava-se debaixo das poderosas asas do seu avô paterno, Padre Porfírio, pai de 14 filhos dos quais 12 nascidos de uma união de facto mantida com D. Maria das Neves da Cruz Silva, que a batizara, ainda pequena, e geria a vida espiritual da família, do ponto de vista religioso. A chegada a S. Vicente muda, de vez, o percurso católico da sua família, que, rapidamente, se converte à religião protestante e passa a frequentar, de forma regular, a Igreja do Nazareno de S. Vicente, numa altura em que, também, era forte a influência de alguns pastores nazarenos na ilha. Agradavelmente instalada na casa protestante, Celina Pereira viria a reforçar ali a veia artística herdada do seu tronco familiar boa-vistense, tanto do lado paterno como do lado materno, beneficiando-se do legado musical do avô Padre Porfírio, que executava o piano, o órgão e a guitarra e ensinava o solfejo e o canto, para lá da sua atividade como pároco da Freguesia de S. João Baptista e professor, na Boa Vista, durante uma carreira de 33 anos, na Escola Primária nº 6, em Fundo das Figueiras, e da sua grande dedicação à agricultura de regadio, à plantação de acácias, à pintura e à literatura. De uma família de músicos, a socialização musical de Celina começa ainda cedo, precisamente aos cinco anos de idade, influenciada, também, pela mãe, por sinal, musicalmente afinada, que, em casa, costumava cantarolar as cantigas da Boa Vista e as mornas de Eugénio Tavares. O percurso musical da menina de olhos verdes e penetrantes começaria aos oito anos, na Igreja protestante, em S. Vicente, quando integra o orfeão e passa a cantar como solista. Depois, às escondidas do pai, cantava, pontualmente, no Cine Éden Park, em Mindelo. A primeira atuação profissional da cantora boavistense verificar-se-ia, mais tarde, em 1968, teria ela 25 anos, a convite do famoso grupo musical Ritmos Caboverdeanos dos irmãos Marques da Silva e Humbertona, seguindo-se, doravante, convites de Bana para atuações em saraus que ele próprio organizava. Concluído o então 7º ano liceal e reforçada a veia musical na sua proveitosa passagem pela Igreja do Nazareno, onde cantaria, até aos 20 anos, aproximadamente, Celina chega a Portugal, em janeiro de 1970, e, na Escola Superior de Educação de Viseu, faz o Curso de Magistério Primário, onde, pela primeira vez, ganhou o gosto de cantar em público, mas com outro público que não o da Igreja protestante.Agora mais solta, sem as amarras da Igreja e a mão dura do pai, Celina Pereira integra o Orfeão de Viseu, adquire o estatuto de solista e reforça o gosto pela música, que bebera no seio familiar.

Imbuída, igualmente, de forte sensibilidade pedagógica decorrente, também, da sua formação como docente em Viseu, Celina Pereira, ainda cedo, manifesta particular interesse e empenho na preservação da memória coletiva do arquipélago e, logo, da identidade cabo-verdiana, através da fixação e do resgate da rica e diversificada tradição musical, por um lado, e da preservação das tradições orais, por outro. Ciente do risco de extravio, ou mesmo da extinção de certas manifestações do cenário cultural, a cantora e também investigadora na área musical desenvolveu, desde a primeira hora e com sucesso, um aturado e sistemático trabalho de fixação da memória das tradições populares, por via de pesquisas e recolhas efetuadas, tanto em Cabo Verde como na diáspora, tendo em mira a recuperação e a salvaguarda de mazurcas, cantigas de casamento e mornas, cantigas de roda, lunduns, choros, lengalengas e toadas rurais. O trabalho sistemático e metodológico de preservação ou fixação da valiosíssima memória coletiva cabo-verdiana empreendido pela versátil artista boa-vistense é particularmente visível no domínio da música tradicional, “uma área de intervenção sociocultural de raiz, de tradição, de busca da essência das coisas da qual não posso sair”.

Acérrima defensora da música tradicional cabo-verdiana, que marca, essencialmente, todo o seu percurso artístico, Celina considera-se privilegiada, porque “tive acesso a áreas de conhecimento, que me trouxeram informações sobre la ´cuna’ da minha própria formação pessoal”, remata a cantora. Em Portugal, em contexto de interculturalidade e no seio da Comunidade Cabo-verdiana à qual pertencia e com a qual esteve profundamente vinculada, durante dezenas de anos, até à data do seu falecimento, a irreverente Celina Pereira soube defender, com unhas e dentes, a música tradicional e as tradições orais, mantendo-as de pé, conservando-as, dentro dos limites possíveis, evitando, assim, que elas,se esvaíssem e se perdessem. A visão que, basicamente, Celina construiu em torno da música no mundo, na sua estreita ligação com a educação intercultural e a formulação da identidade, resultou de uma aprendizagem de “coisas imprescindíveis” adquirida em casa, através da mãe, que lhe ajudou, por um lado, a formar um pedacinho da sua identidade e da sua família, e, por outro, ganhar a consciência da necessidade da ressalva do património cultural e da recuperação das tradições.

Em tempo: Agradeço ao Eng. João Pereira Silva que, gentilmente, me facultou alguns dados sobre o curriculum do seu avô materno, Padre Porfírio Tavares.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 997 de 6 de Janeiro de 2021. 

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Autoria:César Monteiro,11 jan 2021 9:05

Editado porAndre Amaral  em  11 jan 2021 9:05

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