Presidenciais – no rescaldo da campanha eleitoral

PorAmílcar Spencer Lopes,25 out 2021 7:08

​Chegou ao fim a campanha para as eleições presidenciais de 2021. É hora, pois, de balanço.

Um balanço que deve ser feito não só pelos intervenientes directos, mas, igualmente, por quem nela se absteve de participar, mas observou, viu, ouviu e analisou. Participar é uma forma de cidadania. Opinar, também.

À primeira vista, parece-me que a campanha eleitoral ofereceu, para muitos dos candidatos, a oportunidade de conhecerem as ilhas, os lugarejos e de terem uma ideia, ainda que ténue, do país em que vivemos todos. Visitar as localidades, os seus habitantes habituais, saber dos problemas com que se confrontam e daquilo, ou melhor, do esforço consistente que é preciso fazer para arrancar esse mundão de gente do subdesenvolvimento.

Ficou claro, por outro lado, que foi ocasião para certos candidatos conhecerem o sistema de governo que, de acordo com a Constituição da República, rege o país. Um exercício que, profilaticamente, bem poderia ser feito, em regime de continuidade e independentemente de eleições e candidaturas presidenciais.

Deu ainda para ver como a quase totalidade dos candidatos acabou por resvalar para promessas absurdas, antecipadamente abortadas, diga-se, pela probabilidade ínfima, de serem realmente eleitos para o cargo. Enfim, bonito e fácil de elaborar e dizer, difícil senão improvável, de concretizar. Porém, sonhar é permitido, desejável e reconfortante, e a liberdade de expressão é um direito, constitucionalmente consagrado e garantido.

Na ânsia de apanhar o voto, Cabral foi invocado, como bengala, à esquerda e à direita, o que choca, independentemente do quadrante político em que cada um se situe. Esperava-se, pois, mais coerência e menos populismo.

Não fosse a Covid-19 e o condicionamento sanitário que ela, malgré tout, ainda impõe, o espaço minguado das ilhas não ia certamente chegar para tanto ajuntamento de pessoas e banhos de multidão. Bem diz o povo que “Deus escreve direito, por linhas tortas”.

Uma redução nos gastos e na exuberância só faria bem aos promotores. Com a penúria que reina por aí, a ostentação ofende.

É natural, perfeitamente aceitável e legal que dirigentes políticos de partidos que tenham decidido apoiar, oficialmente, uma determinada candidatura presidencial tomem parte activa na campanha eleitoral, como acontece um pouco, por todo o lado. De facto, por desempenharem altos cargos na República, não podem ficar diminuídos na sua condição de cidadãos. Se bem que, compreensível e justificadamente, usufruam de privilégios, de que o cidadão comum não beneficia. Seria de todo desejável, no entanto, que quando exerçam, igualmente, funções no Estado ou nas instituições da República, fosse encontrado um mecanismo de superação, optando-se, por exemplo, por uns dias de férias, para o efeito.

Há, sim, que morigerar o sistema e evitar situações de eventual promiscuidade, absolutamente desnecessárias e gratuitas. “À mulher de César, não basta ser séria; é preciso que pareça”. Aliás, a Republica, tal como a entendemos hoje, deve-se, em boa medida ao génio jurídico-político romano. Assim, e como em tudo na vida em comunidade, convém cultivar a ponderação e o bom senso, de maneira a evitar ou sanar conflitos emergentes.

O insólito destas eleições presidenciais é que, com todo o mundo a falar mal da política e dos políticos, esteja tanta gente pronta a disputar a mais alta magistratura da Nação e a querer segurar as rédeas do Poder. Afinal, há muito mais gente a querer envolver-se na política e exercer cargos políticos, do que se possa alguma vez imaginar.

Vá o pobre cidadão comum entender a mente e a ambição dos ilustres filhos destas das ilhas…

Em tempo de balanço, porém, e se quiserem ser honestos para consigo mesmos, ao menos, é tempo de contrição para os actores do pleito, que ora termina:

A meta estava ali à mão, realmente? Cada um era, de facto, a pessoa certa, capaz, para o cargo a vagar?

Egos à parte, hum! Estava cada um à altura do desafio, que as funções em disputa representavam?

Quer parecer-me que, para a maior parte dos candidatos, a estratégia era ganhar alguma visibilidade e marcar lugar para a corrida, daqui a cinco ou dez anos, com outra maturidade e algum conhecimento de causa. Não é por acaso que, na minha ilha se diz que caminh longe, gente ta andá-le ê d’bespa.

No entanto, a meu ver, devia-se evitar uma certa tchacota, sob pena de banalização das instituições, com prejuízo evidente para o Estado de Direito Democrático e custos adicionais para o contribuinte.

A Democracia tem destes equívocos, é verdade. Convém, no entanto, preservar os fundamentos da República e a imagem do País.

Haja, pois, paz, concórdia e, acima de tudo, sensatez e equilíbrio, para perseguir o amanhã e assegurar o bem-estar da Nação cabo-verdiana, em toda a sua extensão.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1038 de 20 de Outubro de 2021. 

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Autoria:Amílcar Spencer Lopes,25 out 2021 7:08

Editado porAndre Amaral  em  1 dez 2021 10:19

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