SEGURO COLHEITA - Prevenindo a deserção da agricultura de sequeiro

PorAntónio Ludgero Correia,1 nov 2021 8:58

“Quem não quer pensar é fanático; quem não pode pensar, idiota; quem não ousa pensar, um cobarde.” Francis Bacon

No momento em que escrevo esta coluna, chove aqui nas terras altas da ilha de Santiago. Uma chuva abundante, caindo de forma tranquila, alimentando a esperança dos agricultores que perderam o milho, mas que ainda podem ter feijões em abundância.

A chuva é sempre bem-vinda por estas bandas: para a recuperação da “cordeira” (os feijões, para os menos versados na coisa), para a alimentação dos lençóis freáticos, para refrescar o ambiente, para melhorar os níveis da humidade do ar, abrandar o impacto da bruma seca, para espantar doenças, para tudo. Bendito seja aquele que teve a ideia de a chamar de amiga.

O Governo poderá fazer muito mais com os 170 mil contos do programa de amenização dos efeitos de um mau ano agrícola, caso esta chuva continue caindo. Para gáudio de todo o mundo – camponeses, governos (nacional e local), consumidores, nutricionistas, and so on.

Dito desta forma, parece que umas chuvadas aleatórias podem ser a salvação da lavoura. Podem até ser. Desde que haja lavouras a salvar. Pouco claro? Explico.

Cada vez mais há menos gente se deslocando dos centros urbanos para os campos para trabalhar nas áreas de cultivo de sequeiro herdadas de seus ancestrais.

Roçaram, semearam, mondaram, fizeram ramondas em terrenos da família e alguns até fizeram fortuna. Semeava-se e colhia-se. Nada de muito regular, mas sempre que a mamãe velha descia ao ‘lugar’ voltava com o ‘pano’ que levava à cintura carregadinha de feijões, batatinhas resistentes, punhados de mancarra. Se faltava o necessário para o consumo humano, sempre se encontrava algo para os animais domésticos. Nesses tempos semeava-se com recurso aos braços de familiares, vizinhos e amigos (com estes em sistema de djunta mon – hoje pegas na enxada no ‘lugar’ do vizinho, amanhã o vizinho ajuda na faina no teu ‘lugar’).

Pouco a pouco, as populações começaram a tornar-se mais urbanas. Êxodo rural; jovens filhos de camponeses que se formaram em áreas que encontram maior e melhor espaço nos centros urbanos; fecho dos ciclos de vida que fazem as gerações anteriores partir deste vale de lágrimas. Enfim, a urbanização das populações, o não regresso dos licenciados à sua ribeira e aos afazeres dos seus progenitores, e a imutável lei da vida, segundo a qual todo os que nascem morrem um dia, mudaram as relações das pessoas com o campo, mormente em se tratando da agricultura de sequeiro.

As coisas evoluíram de tal modo, que, nos tempos que correm, são cada vez menos aqueles que fazem a segunda (e terceira e quarta) geração, dos que têm suas raízes no campo, se dedicam ao cultivo de sequeiro. Pelo menos do jeito que seus ancestrais faziam. Hoje semeia-se, mas não se colhe nada ou se colhe muito pouco; não se faz djunta mon, mas tem de se pagar a mão-de-obra a valores que, neste ano de graça, chegaram aos 2.000 CVE (aproximadamente 18 euros) dia, mais almoço, sobremesa e aguardente; escasseia o tempo para acompanhar a faina de perto; enfim, chegamos a uma situação em que um fulano com uns poucos alqueires de sequeiro gasta mais de 100.000 CVE para fazer o que seus avós faziam, sem garantia de um retorno mínimo que seja.

E começa-se a fazer contas. Indo com cem contos aos armazéns da ADEGA, SA, aos mercadinhos da Kalú & Ângela ou ao BETO (no Palmarejo) traz-se comida para meses, dependendo do padrão de vida que se leva. Enterrando, literalmente, esse valor na área de sequeiro da vovó, saca-se – se se sacar alguma coisa - quanto?

E começa-se a questionar. Valerá a pena? Gastar tanto, queimar-se em ansiedade, para quê?

E é assim que começam a surgir grandes espaços vazios lá onde era hábito semear milho, feijões, amendoim, batata doce. Os proprietários não estão para perder tempo, paciência e dinheiro; ninguém quer tomar essas possessões em regime de arrendamento; as parcerias foram proibidas, enquanto relação económica no campo; enfim, corre-se o risco de deserção total do cultivo de sequeiro.

Vamos ficar confinados aos micro espaços com acesso a água suficiente para a agricultura de regadio? Não será demasiado pouco? Se é verdade que os cereais e os feijões que consumimos são, na sua quase totalidade, importados, não é menos verdade que o pouco que se tira da terra ajuda à fixação do que resta da população rural, amortece alguma pressão sobre o mercado do trabalho, permite aos governos (locais e nacional) respirar um pouco melhor.

Quer isso dizer que valerá a pena pôr-se de pé uma estratégia que garanta a continuidade do investimento anual nos terrenos destinados à agricultura de sequeiro. Ou não?

Do meu ponto de vista, para além de outras medidas que estudos patrocinados pelo Governo recomendarão, haverá toda a conveniência em incentivar os proprietários de terrenos destinados à agricultura de sequeiro de continuarem a trabalhar esses terrenos, quanto mais não seja para prevenir o stress dos solos, fixar a mão-de-obra local que se dedica ao sector e melhorar a produção de cereais e leguminosas.

Estaria indicada a instituição do “SEGURO DE COLHEITA” para o efeito. Quem trabalha a terra não deixará de fazê-lo se se sentir amparado caso não colher nada.

Diferente do que faziam seus ancestrais, teria de contratar um seguro para os valores vertidos na campanha agrícola e seria obrigado a manter uma contabilidade (simples, qb). E funcionaria assim: em caso de colheita, o valor da apólice fica para o segurador; em caso de não haver colheita (ou se se colher muito abaixo do estimado) o proprietário receberá o valor contratado (ou uma fração desse valor, caso a colheita não for totalmente nula) em insumos para a campanha agrícola do ano seguinte àquele a que o seguro disser respeito.

Quem assumiria os riscos em relação ao SEGURO DE COLHEITA? Em um primeiro momento – e enquanto não mostrar ser um bom negócio – o Tesouro Público. Em vez de um “Programa de redução dos impactos de um mau ano agrícola”, surgindo sempre tarde e a más horas, recursos do Tesouro seriam afetados ao setor governamental da agricultura e do desenvolvimento rural (uma agência ou um serviço) para incentivar os atores da cultura de sequeiro a não desertarem, a manterem os terrenos cultivados. E quem sabe São Pedro não nos manda chuvas regulares só para rir da nossa cara de bobos. E o Tesouro talvez ainda ganhe algum.

Parece um programa que só lembraria a um comunista? Parece. Mas creio que é chegada a hora de se deixar de rotular com sendo de esquerda ou comunista tudo quanto se tenta fazer para mitigar a visão de túnel do mercado e visando ajudar aqueles que precisam ser amparados.

SEGURO COLHEITA já para a campanha agrícola de 2022. É preparar-se para o pior, esperando o melhor. Aliás, no enfiamento do Sahel, não haveria melhor filosofia para suportar a nossa resiliência. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1039 de 27 de Outubro de 2021.

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Autoria:António Ludgero Correia,1 nov 2021 8:58

Editado porAndre Amaral  em  1 nov 2021 8:58

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