Sobre a Guerra na Ucrânia e o anúncio Russo de abandonar Kherson. Que leituras possíveis?

PorJosé da Graça,21 nov 2022 7:46

​O anúncio da Rússia de abandono de Kherson, na região sul do território ucraniano, que faz charneira, o que lhe confere importância estratégica, com a península da Crimeia, inundou a imprensa mundial e vem merecendo interpretações diversas.

E é compreensível a postura de prudência por muitos assumida, relativamente ao teor do comunicado do Kremlin, o que estimulamos. 

Uma coisa que não podemos escamotear é a forma como a “decisão” foi comunicada ao mundo pelas autoridades russas, o que nos convida para um cuidado relativamente a sua interpretação. E temos alguma dificuldade em apreender o que se pretende, olhando somente para o texto do comunicado. 

As nossas reticências relativamente ao anúncio aumentam quando sabemos que não são percecionadas no terreno, quaisquer movimentações substanciais de tropas ao serviço de Moscovo. Na verdade, as forças russas “apenas” abandonaram a margem direita do rio Dnipro, com o intuito, aparente, de reagrupar-se na sua margem esquerda. O nosso primeiro entendimento, vendo para isto, vai no sentido de que estamos perante o envio de uma mensagem, pela Rússia, que poderá facilitar eventuais negociações. 

Esta comunicação, é bom que se diga, é feita num contexto muito específico, no qual vêm surgindo, com relevante e crescente frequência, narrativas a favor de negociações, como via para terminar a guerra, denunciando algum desgaste, em um ou outro aliado, decorrente dos efeitos da guerra nas respetivas sociedades, com previsível agravamento com a chegada do inverno.

Porque não se sabe ao certo o que vai na cabeça dos governantes, em Kremlin e qual a verdadeira intenção dessa declaração, resta-nos nas nossas análises prudência, numa atitude de esperar para ver, mas abrindo-nos para alguma tentativa explicativa da mesma. Por ora, todo o esforço de racionalização da “medida”, não passa de especulações. E causa, pois, admiração a postura de alguns analistas de televisões estrangeiras, que arriscam retirar conclusões seguras, num cenário, a todos os títulos, nebuloso. Ser taxativo sem o suporte factual, suficientemente seguro, ou informações firmes, é um exercício que não se recomenda, nessas situações. 

Mesmo que a intenção das forças russas seja o abandono efetivo dessa porção do território ucraniano, há uma avaliação de que não nos podemos eximir de fazer. E podemos começa-la com a seguintes questões: Que importância estratégica terá Kherson para os objetivos últimos da Rússia, neste conflito? Até que ponto a entrega desse território prejudicaria o projeto operacional das forças russas, no sul da Ucrânia? A declaração moscovita não poderá ser entendida como um acenar na direção de negociações, e, nessa eventualidade, como já dissemos, estaria a Rússia a querer mostrar ao mundo e, também, à própria Ucrânia de que está disponível para conversações? 

É importante dizer, aqui, que a Rússia tomou tal decisão num momento em que enfrenta uma forte pressão da contraofensiva ucraniana, nessa região. 

A manutenção de Kherson por parte da Rússia colocaria a Ucrânia numa situação muito difícil de ser aceite pelos ucranianos e por alguma opinião pública mundial, por denunciar a eventual intenção russa de querer encravar o território ucraniano, transformando a Ucrânia num estado interior, ou quase isso, sem uma saída satisfatória para o mar largo. 

Coloca-se-nos, ainda, com alguma plausibilidade a possibilidade de esse anúncio ter como objetivo central criar efeitos difusos, devendo ser para o consumo interno dos russos, e naturalmente dirigido, igualmente, ao povo ucraniano e à opinião pública de países aliados. Podemos, entretanto, interrogarmo- nos se isso não fará parte de um acordo secreto entre os governos ucraniano e russo, com o intuito de inferir da reação de outros atores. 

Kremlin poderá estar a procurar serenar algum setor da sociedade russa que tem endurecido as suas críticas às autoridades políticas e militares do país, sobretudo, depois do processo de mobilização parcial para a guerra, o qual encontrou muita resistência, entre famílias russas e a chegada à Rússia de notícias de mortes de soldados russos, em número não admissível pela sua população. 

Neste sentido, não podemos ignorar o conteúdo da declaração e a justificação apresentada para essa desocupação, que coloca a tónica na necessidade de proteger os militares russos, poupando a sua vida e integridade física e proteger civis russófonos do referido oblaste. 

Aqui, o Kremlin, que tem sido diabolizado por uma certa narrativa ocidental, parece querer, ainda, emprestar a si um certo rosto humano, dizendo à opinião pública mundial: afinal não somos assim tão maus, como se pretende. 

Para o povo ucraniano, tal anúncio poderá parecer mais uma assunção de derrota do que uma atitude de boa vontade por parte da Rússia. Contudo ambas as leituras significariam para os ucranianos o desejo/ a necessidade de Moscovo partir para negociações. Não podemos negar a importância política e simbólica de que Kherson se reveste para a Rússia, tendo sido declarado território russo, na sequência do referendo realizado, em setembro. 

Para a opinião pública de países aliados, a notícia poderá ser recebida como um sinal que a Rússia está a dar ao mundo, mostrando-se disposta a fazer cedências, com vista a um acordo de paz, o que poderá representar uma esperança para uma saída diplomática, tendo em conta a situação que se vem agravando um pouco por todo o mundo. 

Uma outra hipótese que podemos colocar é a de que Moscovo esteja a planear um ataque muito musculado e duro à Ucrânia, e esteja, com o anúncio, a promover uma verdadeira manobra de diversão, confundindo as forças ucranianas e os aliados ocidentais, enquanto ganha tempo, esperando pela chegada do inverno, dado às previsíveis condições favoráveis que representaria para si. 

Porém, estamos mais inclinados para acreditar que a liderança russa esteja desejosa de umas negociações para o fim da guerra, mantendo, no entanto, as regiões conquistadas. Seria uma forma de sair do conflito com a face intocada, até porque facilmente era possível justificar junto da opinião pública interna uma decisão nessa direção, alegando que os objetivos esestratégicos foram sobejamente alcançados, e que seria inútil mais esforço e derramamento de sangue. 

Se, entretanto, não conseguir levar Kiev à mesa das negociações, obtendo, simultaneamente, o aval dos aliados de Zelensky, tudo indica que não restará ao Kremlin outra alternativa senão lançar uma ofensiva de grande magnitude, contra a Ucrânia, procurando a decisão desejada, que levará esta a uma capitulação. Este desenvolvimento não seria muito interessante para os russos, de um ponto de vista estritamente político e também do da sua imagem externa, pelo nível de destruição e mortandade que provocaria. 

Essa possibilidade é-nos autorizada pela análise das fontes do anúncio e da forma como a “decisão” foi tomada, na qual, aparentemente, o presidente não participou, pois, o anúncio é “produzido” por escalões estratégicos abaixo do presidente russo. Esta opção deixa em aberto a eventualidade de Putin vir dizer que não esteve envolvido na decisão, e por isso, ela é inválida, como um modo de se resguardar, perante alguma alteração nessa intenção. 

Por outro lado, as declarações de Zelensky, que admite conversar com os russos no quadro de condições muito específicas, sugerem enormes dificuldades na prossecução de eventuais negociações, até pela sugestão de uma capitulação russa, inaceitável por Moscovo, quanto mais não seja pelas conquistas territoriais realizadas, e das quais não pretenderá abrir mão, por nada deste mundo, admitindo que a Rússia continue a pretender preservar algum estatuto regional e mundial.

JOSÉ DA GRAÇA 

Tenente-coronel na reforma e Mestre em História, Defesa e Relações Internacionais


Texto publicado originalmente na edição nº1094 do Expresso das Ilhas de 16 de Novembro

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Autoria:José da Graça,21 nov 2022 7:46

Editado porAndre Amaral  em  26 nov 2022 23:27

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