Quando Pensar Era Já um Acto de Liberdade

PorManuel Brito-Semedo,26 jan 2026 8:17

​Entre 1901 e 1909 nasceu a geração que deu forma à modernidade literária cabo-verdiana e ensinou o país a pensar-se antes mesmo de existir como Estado. Às vésperas das celebrações de 2026–2027, importa aprofundar esse tempo fundador – não como exercício memorialista, mas como critério para pensar a liberdade, a cultura e a democracia.

Antes do Estado, a geração

Os anos de nascimento dos protagonistas da modernidade claridosa não são simples dados biográficos. Funcionam como marcadores de uma experiência histórica comum, vivida sob o mesmo contexto colonial, idênticas fragilidades estruturais e a mesma ausência de horizonte político autónomo. Entre 1901 e 1909 forma-se uma geração que viria a marcar decisivamente a maneira como Cabo Verde começou a pensar-se no plano cultural e intelectual, muito antes da soberania política e da institucionalização da cidadania democrática, num tempo em que pensar era já um acto fundador de consciência e responsabilidade moral.

Por ordem cronológica, esse núcleo fundador integra António Aurélio Gonçalves (1901), João Cleofas Martins – Djunga Fotógrafo (1901), Jorge Barbosa (1902), João Lopes (1902), Jaime de Figueiredo (1904), Pedro Corsino de Azevedo (1905), Francisco Xavier da Cruz – B.Leza (1905), Baltasar Lopes da Silva (1907), Manuel Lopes (1907) e Félix Monteiro (1909). Não se trata apenas de uma coincidência cronológica, mas da inscrição de percursos distintos num mesmo tempo histórico, sob restrições coloniais idênticas, vulnerabilidades sociais semelhantes e urgências morais convergentes.

Formados num Cabo Verde marcado pela escassez estrutural, pelas secas cíclicas, pela emigração forçada e pela inexistência de representação política, estes autores atingiram a maturidade intelectual nos anos 1930, quando o país ainda não se podia dizer soberano, mas já se pensava criticamente. É esse desfasamento – pensar antes de poder decidir – que confere densidade singular à experiência claridosa, afirmando a primazia do pensamento crítico num tempo em que o poder político permanecia ausente. A Claridade, fundada em 1936, tornou-se o primeiro projecto colectivo de leitura crítica do país, onde literatura, ensaio, língua e realidade social passaram a ser pensadas em conjunto, de forma sistemática e exigente.

Num contexto colonial autoritário, descrever com rigor o real – a fome, a insularidade, a precariedade, a língua falada — era já um exercício de liberdade intelectual. A modernidade cabo-verdiana não começou com o poder; começou com a palavra. E começou, sobretudo, com a recusa do silêncio como destino.

Vozes, não rótulos

Apesar da unidade geracional, cada autor afirmou uma voz própria. António Aurélio Gonçalves trouxe uma atenção minuciosa à condição humana e às tensões sociais. Jorge Barbosa inaugurou uma poesia da insularidade moderna, urbana e desencantada, de linguagem depurada e anti-retórica. João Lopes afirmou-se como ensaísta, contribuindo para a reflexão crítica e para a leitura interpretativa da realidade cultural e social. Jaime de Figueiredo afirmou-se como ensaísta, crítico, dramaturgo e artista plástico, alargando a modernidade cabo-verdiana à reflexão estética e à experimentação artística, tendo organizado a primeira antologia de poesia cabo-verdiana, Modernos Poetas Cabo-verdianos (1961), gesto decisivo de canonização crítica e consciência literária. Manuel Lopes deu corpo romanesco à adversidade colectiva – a fome, a seca, a migração – conferindo-lhe densidade social e histórica. Baltasar Lopes ofereceu coerência intelectual ao conjunto, articulando criação literária, reflexão linguística, educação e pensamento social. Félix Monteiro, por sua vez, reforçou o campo ensaístico e antropológico, ampliando a densidade reflexiva do movimento. Pedro Corsino de Azevedo integra este arco geracional como participante do mesmo clima intelectual e cultural.

A presença de João Cleofas Martins – Djunga Fotógrafo introduz a imagem como forma de pensamento, fixando o quotidiano, os rostos e os gestos num registo visual que dialoga com a escrita literária e ensaística da geração. Do mesmo modo, Francisco Xavier da Cruz – B.Leza afirma, através da música e da composição, uma outra via de modernidade, onde melodia, palavra cantada e experiência urbana participam na construção sensível da identidade cabo-verdiana.

Não é um detalhe: este pluralismo interno é uma das maiores forças da Claridade. Longe de impor uma estética única, a geração construiu um campo de possibilidades, unido por um compromisso comum – compreender o país sem complacência e escrevê-lo com responsabilidade. A Claridade não produziu unanimidade; produziu critério. E é isso que explica a sua durabilidade.

Imprensa, palavra pública e consciência democrática

Importa sublinhar um aspecto por vezes subestimado: a Claridade foi também um acto fundador da imprensa cultural como espaço de pensamento público. Num contexto de censura, vigilância e limitação do debate, a revista funcionou como lugar de mediação entre experiência vivida e consciência colectiva.

Essa dimensão é decisiva para compreender a actualidade do seu legado. A democracia não vive apenas de eleições e instituições; vive da qualidade do espaço público, da densidade da palavra circulante, da capacidade de argumentar e de escutar. Quando a palavra pública se empobrece, a democracia enfraquece por dentro.

A geração claridosa ensinou, sem o proclamar, que escrever é sempre um gesto com consequências públicas. A palavra não é neutra: ou esclarece, ou obscurece; ou constrói, ou degrada. Essa ética da escrita permanece hoje um critério exigente, sobretudo num tempo dominado pela aceleração mediática, pela opinião instantânea e pela erosão do debate informado.

Pensamento, educação e cidadania

Um dos legados mais duradouros da Claridade reside na sua função pedagógica indirecta. Ao colocar a literatura em diálogo com a realidade social, ao valorizar a língua viva e ao tratar temas até então marginalizados, a geração contribuiu para formar um leitor-cidadão: alguém capaz de relacionar cultura e vida colectiva, palavra e responsabilidade.

A democracia não se sustenta apenas em instituições e eleições regulares; depende de uma cultura cívica que saiba ler criticamente a realidade, distinguir argumento de propaganda e reconhecer a complexidade dos problemas colectivos. Sem essa base cultural, a liberdade tende a banalizar-se e o espaço público empobrece.

Nesse sentido, a herança claridosa não pertence apenas à literatura ou à história cultural. Pertence à educação cívica no seu sentido mais profundo: formação do olhar, exercício de discernimento, aprendizagem da complexidade e recusa do simplismo. Esse legado pedagógico não se esgota na formação do leitor: traduz-se numa exigência permanente dirigida à própria comunidade política.

Celebrar é pensar

É por isso que a Claridade continua a interpelar o presente. Num tempo marcado pela aceleração mediática, pela opinião instantânea e pela fragilização do debate público, a sua lição mantém inteira validade: pensar o país exige tempo, rigor, estudo e responsabilidade crítica.

As celebrações de 2026–2027 – os 35 anos da democracia, os 90 anos da Claridade, os 80 anos de Chiquinho e os 120 anos do nascimento de Baltasar Lopes da Silva – só ganham pleno sentido se forem lidas como partes de um mesmo percurso histórico. Caso contrário, correm o risco de se reduzirem a calendário e protocolo.

Celebrar, aqui, não é repetir fórmulas nem cristalizar figuras. É assumir um legado activo: prolongar a exigência crítica dessa geração, valorizar a cultura como política pública estruturante, reforçar a educação literária e cívica e proteger a palavra livre como fundamento da democracia.

Em Cabo Verde, pensar foi, antes de tudo, um gesto de sobrevivência moral num tempo sem garantias.

Continua a sê-lo.

E abdicar disso seria empobrecer não apenas a democracia, mas a própria ideia de futuro.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1260 de 21 de Janeiro de 2026.

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Autoria:Manuel Brito-Semedo,26 jan 2026 8:17

Editado porAndre Amaral  em  26 jan 2026 14:51

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