Cabo Verde vive hoje um ciclo de afirmação que já não se esgota nos relatórios técnicos nem nos indicadores macroeconómicos. O crescimento sente-se no quotidiano: nas cidades mais dinâmicas, nos aeroportos mais movimentados, na restauração cheia, no comércio ativo, nos transportes e no alojamento. É um crescimento real, vivido, que entrou na vida das pessoas.
O turismo tem sido um dos motores centrais desse percurso. Nos últimos anos, Cabo Verde consolidou-se como um dos destinos mais estáveis e competitivos do continente africano, beneficiando de vantagens competitivas claras como a segurança, estabilidade política, previsibilidade institucional e abertura ao mundo. A chegada dos voos low cost aceleraram esta dinâmica e trouxeram um novo perfil de turista: mais urbano, mais móvel e mais integrado na economia local. Um turismo que não se concentra apenas em grandes empreendimentos, mas que circula, consome e cria procura em ilhas como Santiago, São Vicente, Santo Antão, São Nicolau e Fogo. É um turismo que faz o rendimento chegar a mais pessoas e a mais territórios.
Nada disto é fruto do acaso. Resulta de opções estratégicas claras: a concessão e modernização da gestão aeroportuária, a abertura do mercado aéreo à concorrência, a redução dos custos de acesso ao destino e o reforço da imagem de Cabo Verde como país seguro e confiável. Este novo ciclo cruza-se, aliás, com um dado estrutural maior: Cabo Verde é hoje um País de Desenvolvimento Médio-Alto.
Esse percurso de sucesso foi agora validado por um facto de enorme significado: a subida do rating soberano de Cabo Verde para “B+”, com perspectivas positivas. Este upgrade está longe de ser um detalhe técnico. É um reconhecimento independente do progresso alcançado ao nível da consolidação fiscal, da disciplina orçamental e do reforço da posição externa do país. É um selo de confiança que diz aos mercados, aos investidores e aos parceiros internacionais que Cabo Verde é hoje mais robusto, mais previsível e mais confiável.
Um melhor rating tem efeitos concretos. Reduz custos de financiamento, atrai investimento, amplia a visibilidade internacional e reforça a confiança dos agentes económicos. No turismo, essa credibilidade traduz-se em maior procura, diversificação de mercados emissores e intensificação do interesse por Cabo Verde enquanto destino.
O impacto do turismo vai muito além da hotelaria. O seu efeito é direto e indireto sobre toda a economia. Contribui para o crescimento do PIB, reforça as receitas fiscais e aumenta a capacidade do Estado financiar o seu próprio processo de desenvolvimento através do Orçamento do Estado. É esse crescimento que cria espaço orçamental para políticas públicas concretas: para os aumentos salariais que estamos a assistir, para o reforço da ação social e para investimentos estruturantes.
As receitas do turismo alimentam diretamente instrumentos fundamentais. O Fundo do Turismo tem sido determinante no financiamento de requalificações urbanas e na valorização das ilhas. O Fundo Mais, canalizado para o Rendimento Social de Inclusão que apoia hoje mais de 20 mil famílias cabo-verdianas. Isto é impacto económico real, com expressão social concreta.
Mas o sucesso tem um efeito colateral inevitável: atrai atenção. Atenção positiva, sob a forma de mais turistas, mais investimento e mais oportunidades. E também atenção negativa, sob a forma de tentativas de exploração mediática, campanhas oportunistas ou narrativas que procuram colar fragilidades a quem está a crescer.
É neste contexto que devem ser enquadradas as recentes notícias que tentam associar óbitos de cidadãos estrangeiros às suas férias em Cabo Verde. Trata-se de um tema sensível, que exige humanidade, rigor e seriedade. Mas exige também responsabilidade nacional. Uma coisa é a existência de episódios trágicos, que merecem sempre apuramento rigoroso; outra, bem diferente, é a tentativa de transformar esses casos em narrativas de descredibilização de um destino que está a afirmar-se.
Importa recordar que este fenómeno não é exclusivo de Cabo Verde. A própria ABTA revelou que um em cada cinco britânicos já foi contactado para apresentar pedidos de indemnização por alegadas doenças contraídas durante férias, num universo que pode atingir cerca de 9,5 milhões de pessoas. Estamos perante uma realidade transversal ao turismo internacional, frequentemente associada a práticas oportunistas e tentativas de fraude, que tende a intensificar-se em destinos que ganham escala e visibilidade.
O essencial é este: Cabo Verde passou a jogar noutra liga. O país cresceu, ganhou estatuto, reforçou a sua credibilidade e tornou-se mais visível. Esse sucesso, agora validado pelo rating soberano, traz enormes oportunidades, mas exige também maturidade política, responsabilidade cívica e sentido de Estado para proteger o que foi conquistado.
Naturalmente, o crescimento traz desafios operacionais. Maior pressão sobre aeroportos, serviços, restauração, mobilidade e alojamento é, antes de mais, sinal de procura e de dinamismo. São desafios de adaptação, próprios de um país que se abriu ao mundo e que passou a competir a outro nível. A resposta não é desvalorizar o sucesso, mas geri-lo melhor, com planeamento, investimento e profissionalismo.
Talvez o maior desafio que enfrentamos hoje não seja económico, mas de consciência coletiva. Crescemos como país, ganhámos reconhecimento externo e reforçámos a nossa posição internacional. Proteger esse percurso é uma responsabilidade de todos.
O turismo continua a ser o setor-coração da nossa economia. Alimenta o crescimento, reforça o Orçamento do Estado, cria espaço para melhores salários, financia políticas sociais e sustenta instrumentos que chegam diretamente às famílias cabo-verdianas. Defendê-lo é um dever patriótico. Não é um favor a um setor nem a um Governo; é a defesa do interesse maior da nação.
Porque crescer é importante. Mas proteger aquilo que nos faz crescer, sobretudo quando o mundo começa a reconhecer esse sucesso, é o verdadeiro sinal de maturidade de uma nação.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1263 de 11 de Fevereiro de 2026.
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