Na véspera, Segunda-feira, tem sido tradição (com altos e baixos) desfiles nocturnos e bailes. Terça-Feira Gorda é o dia dos grandes e pomposos desfiles que preenchem uma tarde de folia e alegria. A exibição de fantasias exuberantes e a passagem de imponentes carros alegóricos alimentam o sonho que se desfaz na Quarta-Feira… Em pleno Carnaval fui impelido para uma reflexão sobre alguns dos seus componentes, constantes do meu livro “Kab Verd Band Música & Tradições (2022) que passo a expor:
Carnaval – “Festa tradicional que ocorre em todo o arquipélago. Em termos musicais são elaboradas anualmente composições próprias (marchas), que animam os desfiles.” O investigador Moacyr Rodrigues, numa entrevista, à Inforpress, em 21 de Fevereiro de 2020, aponta que os compositores B.Léza e Nhâ Banha foram alguns dos “precursores das marchinhas de Carnaval em São Vicente.” Segundo aquele investigador “o Carnaval do Mindelo surgiu em 1920, numa espécie de continuidade do Entrudo português.” Este facto “social” Carnaval é abordado através de várias entradas/verbetes (inter-relacionados) sempre numa perspectiva informativa para o público em geral. Claro, não caberá num resumido artigo de jornal a descrição detalhada da evolução e o decorrer do Carnaval no Mindelo ou na Praia e análises sobre outras ilhas, nem o destaque devido às particularidades do Carnaval em S. Nicolau, espero, pois, a compreensão dos leitores.
«Mascrinha» é um elemento central do Carnaval, significa “Fantasia/disfarce carnavalesco na língua crioula.” «Mascrinha» é também“Música tradicional do Carnaval no Mindelo, S. Vicente e ilhas de Barlavento. De origem popular, é (era) tradicionalmente cantada no Mindelo por um grupo de tocadores de violão muitas vezes acompanhados de alguns elementos «mascarados» de mandinga que dançavam, faziam trejeitos, pediam uma contribuição em dinheiro.” Uma descrição das origens de «mascrinha» e da música são outra face da investigação, que leva a dois outros elementos: Mandinga e Música de Carnaval.
A música tem papel importantíssimo nesta “festa popular com tradição antiga/ enraizada nas ilhas de S. Vicente e S. Nicolau.” De notar, anualmente são encomendadas novas composições, os desfiles e bailes envolvem actualmente centenas de músicos e a partir dos anos de 1980 gradualmente “os festejos de Carnaval com desfiles e blocos intensificaram-se na capital Praia, estenderam-se paulatinamente aos diferentes concelhos e ilhas”. Sobre a “Instrumentação utilizada” e sua evolução em S. Vicente os dados históricos são curiosos: “até meados dos anos 1960 os músicos acompanhavam os desfiles com uma formação musical tradicional constituída por: violões; cavaquinho; instrumentos de sopro (trompete, clarinete e saxofone); na percussão: caixa clara; chocalhos pandeiros; cuícas; às vezes tumba/conga; este um instrumento adoptado para o Carnaval a partir dos anos 1950 quando da moda da música latina (Merengue, Calipso etc.); no Carnaval de 1968 o músico Luís Morais, integrou o desfile do bloco “Flor Azul” e fez sucesso com os solos de acompanhamento que ia fazendo enquanto passeava por entre os diferentes figurantes; no ano de 1970 o Conjunto Caites, integrou o desfile de um dos blocos, (…) uma inovação: instrumentos electrónicos instalados num camião; um gerador eléctrico alimentava, os amplificadores! Foi uma antecipação do que seria o trio eléctrico anos mais tarde.” Ainda relacionado com música e instrumentação, temos Batucada, a secção de percussão dos blocos, surgida em meados dos anos de 1970! Do recurso a definições de vários dicionários, sobressai a seguinte: “Batucada, ritmo de Samba nos desfiles de Carnaval.” De uma evolução em mais de 10 anos emana a definição: “Batucada, em crioulo, significa ritmo de Samba; grupo de pessoas, com diversos instrumentos que produzem esse ritmo; o som produzido dessa forma. Em Cabo Verde o conceito foi importado do Brasil, a partir de meados dos anos 1970 bem como a instrumentação específica: surdos, tamborins, repeniques entre outros (…) foi sendo incorporada ao longo dos anos nos grupos de acompanhamento musical dos blocos carnavalescos, sobretudo no Mindelo, S. Vicente. Daqui a moda espalhou-se pelo arquipélago.” Da minha pesquisa resulta que “A batucada carnavalesca à brasileira, toma forma e ganha cidadania, depois que o grupo Samba Tropical, criou em 1988 uma escola de percussão, sob o comando de Mick Lima” cf. o jornal on-line Notícias do Norte, ed. 10 de Fevereiro de 2017 que escreve esta a razão por que “todos os mestres que este ano (de 2017) estão à frente da batucada dos grupos de São Vicente estiveram sob a sua alçada.” Logo, a Batucada teve um longo percurso evolutivo desde os anos de 1970 até actualidade! Minha opinião pessoal (de percussionista, baterista) expressa algures, seja no meu livro e artigos sobre o tema, é que uma maioria dos percussionistas nos grupos de Batucada, não consegue interpretar fielmente o «balanço» da batucada do samba brasileiro genuíno pelo que, muitas vezes surgem de forma inesperada, influências de ritmos tradicionais (inatos): Coladeira, Batuque, Tabanca, San Jon e outros… Quanto a mim, isso, deve-se à aprendizagem de ouvido, revela a necessidade de um «ensino teórico da música» para todos os instrumentos, este um tema, também abordado no referido livro sob diversos ângulos.
Vejamos agora “Mandinga”: “Máscara/disfarce tradicional do Carnaval na Cidade do Mindelo, Ilha de S. Vicente.” (…) Tradicionalmente eram apenas homens (como vimos anteriormente), mas a partir dos anos 1990, também mulheres utilizam este disfarce, depois de ter ocorrido o que se poderá chamar «fenómeno mandinga» que arrasta multidões na cidade do Mindelo.” Curiosidade, na minha pesquisa, deparei com uma figura chamada «Neg Marrom»: “Personagem do Carnaval na Guiana (francesa) em tudo parecido/semelhante ao Mandinga do Carnaval de S. Vicente, Cabo Verde, embora a origem seja diferente.” No Carnaval em Caiena, capital da Guiana, o “Neg Marron – besunta o corpo com óleo negro, representa/ encarna os escravos fugitivos que localmente eram chamados «marrons». Este «personagem /máscara de Carnaval» anda em grupos, assustando as pessoas, que fogem para evitar ficarem sujas devido ao contacto com o óleo.” A semelhança com o nosso Mandinga, levanta a questão: foi daqui para lá? Ou, veio de lá? Reflexão: o refluxo de manifestações «sincréticas na rota inversa do tráfico é um dado que não tem sido estudado, nem entrado na equação das origens da nossa música e cultura.
Deve compreender o leitor, não poderei no âmbito deste artigo de jornal apresentar todos os pormenores das entradas/verbetes constantes do meu livro um «Dicionário» da música e tradições cabo-verdianas. Mas, devo referir, neste campo “Carnaval” há ainda verbetes sobre: grupos carnavalescos e de batucada, biografias de mestres bateria/batucada, de compositores de música de Carnaval, sobre Bailes de Carnaval/de Cinema/de Amparo, etc. e ainda análises de figuras carnavalescas da região de sotavento, Bibidó e Punotcha, esta uma figura que existe no Brasil, chamada Bumba meu boi! De salientar, os mais de 3 mil verbetes/entradas que constam do livro “Kab Verd Band Música & Tradições” (800 pág. ed. do autor) são todos inter-relacionados. Talvez este artigo tenha despertado os leitores para a consulta desse livro, infelizmente esgotado… pois, a edição contou com apenas 300 exemplares! Espero surja o interesse de editores e patrocinadores para uma «2.ª Edição, Corrigida, Actualizada e Aumentada». Enfim, sinceras desculpas, por ter desempenhado o papel de crítico em obra própria, mas, com o devido respeito pela «deontologia» a que estou obrigado.
Dedicado ao amigo César Monteiro
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1264 de 18 de Fevereiro de 2026.
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