A CPLP como ecossistema vivo - Uma visão para o futuro da lusofonia

PorPaulo Veiga,23 fev 2026 8:11

​A tomada de posse do Dr. Miguel Monteiro como Diretor-Geral da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa constitui um momento de elevado significado para a nossa comunidade e, em particular, para Cabo Verde. O seu percurso, competência e sentido de missão representam uma garantia de continuidade e, simultaneamente, uma oportunidade de renovação. Estes momentos são raros na vida das instituições. São momentos em que se torna possível não apenas gerir o presente, mas pensar o futuro com ambição.

A CPLP nasceu de uma visão extraordinária. A visão de que uma língua comum, partilhada por povos em diferentes continentes, poderia ser a base de uma comunidade com identidade própria, com capacidade de cooperação e com uma voz relevante no mundo. Como afirmou o Presidente brasileiro José Sarney, um dos principais impulsionadores da ideia, “A nossa língua é o nosso maior património comum.” Esta afirmação encerra uma verdade estratégica profunda. A língua portuguesa não é apenas um legado cultural. É um ativo geopolítico. É uma infraestrutura invisível que liga economias, sociedades e pessoas.

Hoje, a CPLP reúne países em quatro continentes, com mais de 290 milhões de cidadãos. É um espaço que atravessa o Atlântico e o Índico. É um espaço que liga África, Europa, América do Sul e Ásia. É um espaço que reúne diferentes realidades, mas uma identidade comum. Num mundo cada vez mais organizado em blocos regionais e espaços de influência, esta é uma vantagem estratégica que deve ser plenamente valorizada.

Como todas as comunidades vivas, também a CPLP enfrenta momentos em que é necessário renovar a sua visão. Momentos em que é necessário passar de uma fase de afirmação institucional para uma fase de aprofundamento funcional. A CPLP encontra-se hoje precisamente nesse momento.

O seu valor político, cultural e diplomático é amplamente reconhecido. A sua importância como espaço de concertação entre Estados é inequívoca. A ambição do passo seguinte deve ser consolidar, de forma progressiva e consistente, a sua dimensão prática na vida das pessoas e na dinâmica das economias.

O objetivo deve agora ser claro: transformar progressivamente a CPLP num verdadeiro ecossistema vivo. Um ecossistema onde a pertença à comunidade lusófona represente uma vantagem concreta. Onde a língua comum facilite a circulação de talento. Onde a confiança mútua reduza barreiras. Onde a cooperação se traduza em oportunidades reais para cidadãos, empresas e instituições.

A experiência internacional demonstra que os espaços que prosperam são aqueles que investem na mobilidade.

Jean Monnet, um dos fundadores da integração europeia, afirmou uma frase que permanece atual: “Não estamos a unir Estados, estamos a unir pessoas.” Esta ideia é particularmente relevante para a CPLP. A verdadeira força da nossa comunidade não reside apenas nos seus governos. Reside nos seus cidadãos.

Nos últimos anos, a CPLP deu passos importantes com o Acordo de Mobilidade, que constitui um marco relevante. Este instrumento abre novas possibilidades e cria uma base sólida sobre a qual se pode construir progressivamente um verdadeiro Espaço de Mobilidade Lusófono.

Um espaço onde estudantes possam circular com maior facilidade entre universidades. Onde investigadores possam desenvolver projetos conjuntos. Onde profissionais possam contribuir com o seu talento em diferentes países. Onde empresários possam explorar oportunidades num ambiente de maior previsibilidade e confiança.

Para Cabo Verde, esta visão é particularmente significativa. Somos, por natureza, uma nação aberta ao mundo. A nossa história é inseparável da mobilidade. A nossa diáspora é uma das nossas maiores forças. Sabemos, por experiência própria, que a circulação de pessoas é também a circulação de conhecimento, de investimento e de oportunidade.

A diáspora lusófona é um dos maiores ativos da CPLP, estendendo-se pelos cinco continentes e reforçando a presença global da língua portuguesa. Funciona como ponte entre sociedades, mercados e culturas, contribuindo para a projeção internacional da comunidade. Valorizar este potencial, através de programas de ligação às comunidades emigradas, incentivo ao investimento e mecanismos de partilha de conhecimento, pode ampliar a influência e o alcance estratégico da CPLP.

E se a mobilidade é importante, e um enorme desafio na conjuntura social atual, o futuro da CPLP passa também pelo reforço da sua dimensão económica.

O espaço lusófono representa um mercado significativo, com economias em diferentes fases de desenvolvimento e com enorme complementaridade. Existe potencial para aprofundar o comércio intra-CPLP, para promover o investimento recíproco e para estimular a criação de parcerias empresariais.

Citando o antigo Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, “Nenhum país pode prosperar isoladamente.” Esta verdade aplica-se também às comunidades de Estados. A cooperação económica não é apenas um ideal. É uma necessidade estratégica.

Com isso, a CPLP pode desempenhar um papel cada vez mais relevante como plataforma facilitadora de oportunidades económicas. Pode contribuir para aproximar empresas, promover redes de inovação, estimular o empreendedorismo e ajudar a criar um ambiente de maior previsibilidade e confiança.

Num mundo globalizado, a confiança passou a ser um dos ativos mais valiosos. E a língua comum um dos seus maiores facilitadores.

O terceiro eixo desta visão é a projeção internacional da lusofonia.

O português é uma língua global, de criação cultural, de produção científica, de diplomacia e de negócios. Para o escritor Mia Couto, “A língua é o lugar onde nos encontramos.” A CPLP pode ser o espaço onde esse encontro ganha dimensão estratégica.

Num contexto internacional em rápida transformação, a articulação entre países lusófonos pode reforçar a sua capacidade de influência e a sua capacidade de afirmação.

Para países como Cabo Verde, esta dimensão é particularmente relevante. A nossa geografia posiciona-nos como uma ponte natural entre continentes. A nossa história posiciona-nos como um ponto de encontro de culturas. Uma CPLP dinâmica amplia as nossas possibilidades e reforça a nossa capacidade de inserção no mundo.

Chegados a este ponto, importa dar um passo adicional e identificar iniciativas concretas que consolidem esta visão.

Propõe-se um Programa de Mobilidade Académica e Profissional Lusófono para facilitar a circulação entre países da CPLP, fortalecer redes e promover a cooperação. A transformação digital representa uma oportunidade única para aproximar ainda mais os Estados-membros, modernizar serviços e facilitar a cooperação entre instituições, empresas e cidadãos. Num espaço unido por uma língua comum, a tecnologia pode ser o grande acelerador da integração lusófona. O reforço da educação, desde o ensino básico até ao superior, com formação docente e intercâmbios, consolida competências linguísticas e identidade comum.

Os membros da CPLP também colaboram em resposta às alterações climáticas, através de energias renováveis, economia azul e gestão sustentável. Para ampliar essas ações, sugere-se criar uma Plataforma Digital Lusófona para Cooperação Económica, conectando empresas, universidades e investidores. Todas estas iniciativas expandem o trabalho institucional da CPLP, cujo desafio atual é articular as áreas para aumentar o impacto global da comunidade lusófona.

De modo mais aprofundado, o Programa de Mobilidade Académica e Profissional Lusófono pode incluir bolsas de estudo conjuntas, estágios internacionais, programas de mentorias cruzadas e acordos de reconhecimento mútuo de qualificação profissional. Isto fortalecerá não só a transferência de conhecimento, mas também fomentará oportunidades para jovens talentos que buscam experiências enriquecedoras em diferentes contextos culturais. No âmbito da transformação digital, destaca-se o potencial para implementar plataformas colaborativas, sistemas interoperáveis entre administrações públicas e formação em competências digitais relevantes para o mercado atual, tornando os Estados-membros mais competitivos globalmente.

Na área da educação, a promoção de projetos multilaterais, conferências temáticas e fóruns docentes incentivará uma comunidade educativa dinâmica e inovadora. Já na vertente ambiental, a partilha de boas práticas sobre energias renováveis, preservação marinha e cadeias produtivas sustentáveis poderá impulsionar políticas conjuntas com impacto regional. Por fim, a Plataforma Digital Lusófona pode ser o epicentro de inovação e networking, facilitando o acesso a recursos, parcerias estratégicas e financiamento para iniciativas empreendedoras que consolidam o papel da CPLP no cenário internacional.

A tomada de posse do Dr. Miguel Monteiro ocorre num momento em que esta ambição pode ganhar novo impulso. A sua liderança poderá contribuir para consolidar este caminho e para reforçar o papel da CPLP como uma comunidade cada vez mais relevante e próxima dos seus cidadãos.

A história demonstra que as instituições que evoluem são aquelas que sabem adaptar-se, renovar-se e projetar-se no futuro.

A CPLP tem todas as condições para o fazer. Tem uma língua que une, uma história que legitima e um futuro que pode construir como protagonista no mundo.

O desafio e a oportunidade são claros: transformar a CPLP não apenas numa comunidade de Estados, mas numa comunidade de pessoas. Não apenas numa herança comum, mas numa plataforma de oportunidades. Não apenas numa ideia, mas numa realidade viva.

Cabe-nos agora, com visão e sentido de missão, concretizar todo o seu potencial e recordar Fernando Pessoa quando escreveu: “A minha pátria é a língua portuguesa.”

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1264 de 18 de Fevereiro de 2026.

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Autoria:Paulo Veiga,23 fev 2026 8:11

Editado porAndre Amaral  em  23 fev 2026 8:11

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