Mas, para nós, o verdadeiro alarme costuma tocar noutro lugar: nos mercados internacionais. Foi assim com a guerra na Ucrânia. E começa a ser assim novamente. O preço do petróleo sobe, os custos de transporte aumentam e, pouco depois, a inflação atravessa fronteiras.
Ainda é cedo para antecipar todas as consequências da escalada militar no Médio Oriente. Os conflitos geopolíticos produzem impactos complexos nos mercados globais e, nesta fase inicial, muitas variáveis permanecem em aberto, desde a extensão da escalada até à duração da guerra.
Mas os primeiros sinais já são visíveis. A volatilidade no preço do petróleo aumentou e os mercados voltaram a olhar com preocupação para uma das zonas mais sensíveis do sistema energético mundial: o Golfo Pérsico.
Grande parte da produção global de petróleo concentra-se nesta região e depende de uma passagem marítima particularmente estratégica: o Estreito de Ormuz. Por esta estreita faixa de mar transitam diariamente cerca de 20 milhões de barris de petróleo, aproximadamente um quinto do consumo mundial.
Qualquer ameaça à segurança desta rota tem impacto imediato nos mercados energéticos.
Além disso, vários países diretamente envolvidos ou afetados pelas tensões regionais (Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e o próprio Irão) estão entre os maiores produtores e exportadores de petróleo do mundo. O Irão, por exemplo, produz cerca de três milhões de barris por dia e detém uma das maiores reservas petrolíferas globais.
Quando infraestruturas energéticas são ameaçadas ou quando rotas estratégicas ficam sob risco, os mercados reagem rapidamente, incorporando no preço da energia um prémio de risco geopolítico.
Para economias altamente dependentes de importações energéticas, como Cabo Verde, esse tipo de choque internacional tende a traduzir-se rapidamente em pressão inflacionista.
Quando a guerra na Ucrânia começou, o mundo assistiu a um choque energético e alimentar de grandes proporções. Os preços internacionais da energia e dos cereais dispararam e os países importadores sentiram o impacto quase imediatamente.
Em Cabo Verde, a inflação saltou de cerca de 1,8% em 2021 para quase 8% em 2022, refletindo a transmissão direta do aumento dos preços internacionais para o custo de vida das famílias.
O país conseguiu absorver o choque, preservar a estabilidade macroeconómica e evitar desequilíbrios mais profundos. Mas os custos existiram e ainda hoje são sentidos. O aumento do custo de vida reduziu o poder de compra das famílias e deixou marcas na economia.
O crescimento económico robusto registado nos últimos anos, com taxas médias próximas de 7%, tem permitido recuperar gradualmente parte desse poder de compra perdido.
Mas a experiência recente aconselha muita prudência.
Numa entrevista recente à CNBC, o economista Mohamed El-Erian chamou a atenção para uma variável decisiva neste tipo de crises: o tempo.
Segundo ele, os mercados parecem atualmente atribuir uma probabilidade elevada (próxima de 80%) de que o conflito seja relativamente curto e que a situação estabilize nas próximas semanas. O próprio El-Erian, contudo, é mais cauteloso e considera que a probabilidade de um desfecho rápido pode estar mais próxima de 50%.
Essa diferença de perceção é importante. Porque quanto mais tempo durar o conflito, maiores tendem a ser os impactos sobre os mercados energéticos, as cadeias logísticas globais e os preços internacionais da energia e dos transportes.
Para países importadores de energia, como Cabo Verde, esse tipo de choque externo tende a traduzir-se rapidamente em inflação importada e pressão sobre o custo de vida.
Mas esta nova crise internacional reforça uma outra lição importante.
Ela recorda-nos o quão acertada foi — e continua a ser — a decisão estratégica de Cabo Verde de apostar na transição energética. Como tenho dito, para nós a transição energética é mais do que uma agenda ambiental. É um imperativo económico. É uma questão de autonomia. É uma questão de independência.
Cada crise energética global confirma esta realidade.
Num país altamente dependente da importação de combustíveis fósseis, a volatilidade do preço do petróleo traduz-se inevitavelmente em pressão sobre a economia e sobre o rendimento das famílias.
Mas, como é consabido, temos uma vantagem estrutural importante: a abundância de recursos energéticos renováveis. A combinação de elevados níveis de radiação solar, regimes de vento favoráveis e a possibilidade de integrar sistemas de armazenamento de energia cria condições particularmente favoráveis para a produção de energia limpa no arquipélago.
A estratégia energética nacional tem procurado transformar esse potencial natural numa vantagem económica concreta.
Nos últimos anos foram realizados investimentos significativos na expansão das energias renováveis, na modernização das redes elétricas e no reforço da capacidade de armazenamento de energia. Entre 2017 e 2026 estão previstos investimentos superiores a 182 milhões de euros em infraestruturas energéticas, incluindo parques solares em várias ilhas, expansão da produção eólica, sistemas de baterias e a futura central de bombagem hídrica para armazenamento de energia.
Esses investimentos estão a produzir resultados concretos. A produção de energia renovável aumentou significativamente na última década e o país deverá atingir cerca de 35% de penetração de energias renováveis em 2026, aproximando-se da meta de 50% até 2030.
Este processo já está também a gerar benefícios económicos relevantes. A substituição progressiva de combustíveis fósseis permitirá reduzir significativamente as importações de combustíveis, com uma poupança estimada de cerca de 15 milhões de euros por ano a partir de 2026.
Num país pequeno e insular como o nosso, esta estratégia representa muito mais do que uma política energética. Representa uma política de segurança económica.
Talvez ainda não tenhamos dados suficientes para projetar todas as consequências desta nova guerra. Mas a história recente ensina-nos que os choques energéticos raramente desaparecem tão rapidamente quanto os mercados inicialmente antecipam.
Se o conflito durar mais do que o cenário otimista atualmente incorporado nas expectativas internacionais, os impactos sobre o preço da energia, os transportes e a logística global tornar-se-ão inevitáveis.
Para países como o nosso, isso traduz-se quase sempre da mesma forma: inflação importada e pressão sobre o custo de vida.
É precisamente por isso que a transição energética não deve ser vista apenas como uma agenda ambiental. Para nós, ela é antes de tudo um imperativo económico, uma questão de autonomia e de independência.
Num mundo onde as guerras continuam a influenciar o preço da energia, reduzir a dependência do petróleo importado pode ser uma das decisões mais importantes para proteger a estabilidade económica e o futuro do país.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1267 de 11 de Março de 2026.
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