Há vozes que nascem do vento do mar e mãos que constroem o mundo antes de serem agradecidas. Em Cabo Verde, mulheres erguem nações com trabalho silencioso, com o cheiro da cachupa e a determinação de quem vê mais longe. Não é metáfora: é realidade diária, tantas vezes invisível, mas essencial.
Celebrar a mulher cabo‑verdiana exige mais que gestos simbólicos. A história deste país tem rosto feminino, mesmo quando não aparece nos livros. Durante séculos, foi empurrada para a margem: escravizada, silenciada, confinada ao doméstico. E, ainda assim, cuidou, resistiu e sustentou vidas, construindo a base da nossa sociedade.
Nenhuma estatística traduz a força de criar dignidade na escassez. As mulheres fizeram-no todos os dias, com resiliência e capacidade de transformar pouco em possibilidade. Muitas famílias têm o seu rosto: organizam, equilibram, garantem escola, comida, estabilidade. Quantas gerações avançaram porque uma mulher decidiu não desistir?
As respostas vivem nas histórias não contadas, nas madrugadas antes do sol, nas despedidas silenciosas. Como disse Teté Alhinho: “Se as mulheres pararem, o país pára.” E nunca pararam.
A coragem que não pediu licença
Antes mesmo de a resistência ter nome, já havia mulheres a exercê-la. Mulheres sem cargo, sem título, sem qualquer forma de reconhecimento institucional, mas com uma consciência clara da injustiça e uma coragem maior do que o medo. Foram elas que, em momentos decisivos, avançaram quando tudo parecia pedir recuo. Não por ambição pessoal, não por desejo de protagonismo, mas porque sabiam que aceitar o silêncio seria aceitar a injustiça como destino.
Em Cabo Verde, essa coragem teve muitos rostos e muitos nomes, e, talvez, um dos mais importantes foi Ana da Veiga “Nhanha Bomgolom”, que, sem poder formal, liderou a resistência quando poucos ousavam fazê-lo. Não foi exceção, foi a expressão de uma força que sempre existiu.
Essa força não desapareceu com o tempo. Transformou-se. Adaptou-se. Esteve presente na construção das comunidades, na educação das novas gerações e na forma como Cabo Verde se pensou a si próprio. Houve também quem desse palavras a essa experiência, como Dina Salústio, cuja escrita trouxe para o espaço público aquilo que durante muito tempo viveu apenas no silêncio das casas, nas vidas invisíveis, nas histórias não contadas. Através dessa voz, tornou-se impossível continuar a não ver.
Outras vozes também se fizeram ouvir, vozes que levaram o país além-fronteiras, que transformaram a dor em arte e a saudade em património universal, provando que a alma cabo-verdiana tem uma expressão profundamente feminina. Mulheres que escreveram, que ensinaram, que cuidaram, que lideraram, muitas vezes sem palco, mas sempre com impacto duradouro.
A verdade, essa, é simples e inegável, Cabo Verde foi construído sobre o mar, mas foi sustentado pelas mulheres.
O próximo passo é agora
Ser mulher cabo-verdiana não se resume a uma ideia romântica de força ou de sacrifício. É uma experiência concreta, feita de escolhas difíceis, de responsabilidades assumidas cedo demais e de uma capacidade constante de adaptação a contextos adversos. É nesse quotidiano, muitas vezes invisível, que se constrói uma das maiores forças do país, uma força que assenta na capacidade de resistir sem perder a dignidade, de cuidar sem reconhecimento e de continuar a avançar mesmo quando as condições levariam muitos outros a recuar.
Hoje, essa realidade está a transformar-se. A mulher cabo-verdiana conquistou espaço em áreas que durante muito tempo lhe foram vedadas e afirma-se, cada vez mais, como agente activa na construção do país. Está presente no ensino superior, no mercado de trabalho qualificado, na administração pública, no sector privado e nos espaços de decisão política. Este progresso é inegável e resulta de um percurso longo, marcado por luta, por persistência e por uma crescente valorização do papel das mulheres no desenvolvimento nacional.
Contudo, seria um erro confundir progresso com conclusão.
Persistem desigualdades que não podem ser relativizadas. Persistem diferenças salariais para funções iguais. Persistem barreiras, muitas vezes invisíveis, no acesso a posições de decisão. Persistem cargas desiguais dentro das famílias, onde o trabalho de cuidado continua a recair maioritariamente sobre as mulheres. E, acima de tudo, persiste uma realidade que deve envergonhar qualquer sociedade que se pretenda justa. A violência doméstica continua a existir, continua a destruir vidas, e continua a acontecer, muitas vezes, em silêncio. Nenhuma política pública, nenhum discurso, nenhuma celebração pode ser considerada suficiente enquanto houver uma mulher que vive com medo dentro da sua própria casa.
É por isso que o futuro exige mais do que reconhecimento. Exige ação. Exige uma visão clara e uma ambição nacional, a de fazer de Cabo Verde um país onde ser mulher não represente qualquer forma de limitação, mas seja reconhecido como uma força central do desenvolvimento.
Essa ambição passa por políticas concretas, mas passa também por algo mais profundo. Passa pela forma como educamos os nossos filhos, pela forma como olhamos para as nossas filhas, pelo que toleramos e pelo que recusamos. Passa pela construção de uma cultura onde a igualdade não é um conceito abstrato, mas uma prática diária.
Cabo Verde tem todas as condições para se afirmar como uma referência neste domínio, não apenas pela legislação que já construiu, mas pela base social que possui. Porque, ao contrário de muitos outros contextos, aqui a força das mulheres nunca foi exceção. Sempre foi regra e sempre foi estrutura.
Há, neste momento, uma geração que está a crescer com mais oportunidades, com mais acesso, com mais liberdade. Mas há também uma responsabilidade acrescida, a de garantir que essas oportunidades não sejam apenas promessas, mas realidades concretas. Garantir que nenhuma menina veja o seu futuro limitado pelo seu género. Garantir que nenhuma mulher tenha de escolher entre a sua dignidade e a sua segurança.
Há uma menina em São Vicente, em Santiago, ou na Brava, que hoje vai à escola porque alguém, antes dela, decidiu que ela teria esse direito. Há uma mulher que acorda antes do sol, que cuida da casa, que trabalha, que sustenta, que resiste, e que, mesmo assim, encontra espaço para sorrir. Esse sorriso não é conformismo, é dignidade, é força, e é a expressão de uma resiliência que não se ensina, mas que se herda.
As mulheres cabo-verdianas não são apenas parte da história do país. Elas são a sua base, o seu equilíbrio e o seu rumo. A nós, enquanto sociedade, cabe reconhecer isso com verdade, não apenas em palavras, mas em decisões. Cabe garantir que o futuro que estamos a construir está à altura do que elas já fizeram. Cabe transformar a gratidão em ação, o reconhecimento em política, a homenagem em compromisso.
Porque sem as mulheres, Cabo Verde não existiria, e com elas, pode ir mais longe do que alguma vez ousámos imaginar. Termino com uma citação tão forte quanto verdadeira. Uma frase que resume na essência tudo o que é uma mulher, e, acima de tudo, define a mais perfeita mulher do mundo: a cabo-verdiana.
"Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre." – Simone de Beauvoir
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1270 de 01 de Abril de 2026.
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