Na sequência de Francis Bacon e da emergência do método experimental, com a revolução científica dos séculos XVI-XVII, tinha-se estabelecido que a ciência procede começando pelos factos observados, que se vão acumulando e repetindo até darem origem a teorias e leis. Esta versão do método científico baseia-se na indução, partindo do particular para o geral. Por exemplo, se verifico que sempre que empurro um objecto no vazio este tende a continuar o seu movimento, posso formular uma lei geral da inércia. Contrariando esta perspectiva, Popper diz que não podemos comprovar ou verificar uma proposição partindo das observações que, pretensamente, a corroboram. Por exemplo, se todos os cisnes que observo são azuis, passo a caracterizá-los afirmando: os cisnes são azuis – afirmação e definição que é válida, até ao momento em que encontrar cisnes amarelos. Se corrigir a afirmação para “todos os cisnes são azuis ou amarelos”, esta verifica-se até encontrar um cisne vermelho, e assim sucessivamente. O número de observações, por maior que seja, não garante que não possa vir a encontrar outras cores para lá das observadas. Seria preciso um número infinito de observações para encontrar uma definição válida – o que não está ao alcance das nossas limitações, as de existirmos num tempo e espaço limitados.
Então, Popper afasta-se do verificacionismo e da indução como modelos de ciência essencialmente empirista ou baseada na comprovação experimental das teorias, para propor uma concepção falsificacionista: não posso comprovar ou verificar inteiramente uma teoria, mas posso refutá-la ou rejeitá-la através da experiência. Em vez de ser uma acumulação de observações, a ciência depende da nossa capacidade de construir livremente teorias, hipóteses ou conjecturas, que permanecem válidas até que surjam dados observáveis que as contrariam – ou seja, a observação assume uma função negativa, de rejeição das teorias, em vez da função positiva ou de confirmação que lhe era atribuída.Como as espécies que vivem um tempo e depois se extinguem, também as ideias ou teorias científicas vigoram até serem refutadas.
A ideia de ciência como inovação vai dar lugar a uma controvérsia entre Karl Popper e outro dos maiores expoentes da nova filosofia da ciência, Thomas Kuhn. Ambos partilham da ideia de ciência como inovação e transformação, mas Popper entende que essa mudança continua ao longo da história da ciência, ou seja, há nela uma revolução permanente, enquanto Kuhn entende que há longos períodos de estabilidade em que vigora um paradigma, teoria ou modelo de ciência, designado como ciência normal, até que este começa a ser posto em causa, acabando por se operar uma revolução científica que conduz à emergência de um novo paradigma. Segundo a sua obra principal, A Estrutura das Revoluções Científicas. Kuhn afirma que a sua visão corresponde à prática científica: os livros didácticos inserem-se nas produções da ciência normal ou do modelo estabelecido de teoria e método científico, e a prática da investigação, por exemplo, nos laboratórios, segue uma rotina guiada por um paradigma dominante.
Popper favorece uma ideia de ciência como divergência em relação a teorias estabelecidas, enquanto para Kuhn há uma convergência em torno de um modelo de ciência, sendo a divergência a operar as roturas que culminam nas revoluções científicas, o que aconteceu, por exemplo, com a revolução copernicana que rompeu como o modelo aristotélico-ptolomaico geocêntrico e construiu um novo paradigma heliocêntrico. O pensamento destes autores contribui para compreender as mudanças que reinventam o conceito de ciência, quer sejam uma constante transformação (Popper) ou uma mudança situada numa época determinada (Khun). O conceito de ciência está sempre em mudança, quanto aos seus métodos, lógicas e procedimentos. Não há uma formulação que se mantém constante, embora possa permanecer durante largos períodos de ciência normal. A cultura científica é tão lógica como criativa. A nova filosofia da ciência foca-se, assim, na criação de conceitos, métodos e lógicas ou modos de pensar, libertando-nos de processos estabelecidos. Este novo olhar sobre a ciência centra-se na liberdade e criatividade como atributos da teoria e prática científica, afastando-se de qualquer modelo estabelecido de ciência. A aventura do pensamento científico nunca está concluída, e esta ideia de aprendizagem constante desafia-nos a pensar de novo aquilo que nos parece definitivamente adquirido. A formação humana deve, assim. Integrar as componentes científica e humanística como factores de inovação e criação de conhecimento. A filosofia da ciência deveria, nesta perspectiva, integrar tanto os currículos científicos e técnicos como os de humanidades, integrando a cultura científica no panorama geral do saber. Nomes como os de Popper, Kuhn, Feyerabend, Lakatos ou Bachelard, contam-se entre os que contribuíram para renovar o modo como pensamos a ciência, os seus conceitos e métodos.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1276 de 13 de Maio de 2026.
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