Como noutras sociedades crioulas do Atlântico, resultou de um longo processo de interação humana, cultural e linguística.
Ao longo de mais de cinco séculos, o crioulo evoluiu em permanente contacto com a língua portuguesa, adquirindo características próprias em cada ilha. Dessa evolução nasceram variantes linguísticas legítimas e representativas da diversidade histórica e cultural do arquipélago.
A língua portuguesa faz igualmente parte integrante da história de Cabo Verde desde o início do povoamento. Foi através dela que se estruturaram a administração, a educação, a imprensa, a literatura, a ciência, a vida jurídica e as relações internacionais do país. Continua a ser um instrumento fundamental de acesso ao conhecimento, ao ensino superior, à mobilidade internacional e à integração de Cabo Verde no espaço lusófono e global.
Crioulo e português não são patrimónios concorrentes. São patrimónios complementares. A identidade cabo-verdiana construiu-se precisamente na convivência entre estas duas realidades linguísticas e culturais.
Os subscritores deste Manifesto observam, contudo, com preocupação uma crescente divergência entre os princípios oficialmente proclamados de valorização da diversidade linguística e a realidade que muitos cidadãos percecionam no quotidiano.
Embora se afirme que todas as variantes do crioulo merecem igual valorização, assiste-se frequentemente à utilização de uma única variante como referência privilegiada da chamada “língua cabo-verdiana” em documentos oficiais, campanhas institucionais, materiais educativos e comunicação pública. Muitos cabo-verdianos das restantes ilhas não utilizam essa variante no seu quotidiano e sentem que as suas próprias formas de expressão linguística não se encontram adequadamente representadas.
Existe igualmente preocupação quanto ao surgimento de uma tendência centralizadora no domínio linguístico e cultural. Muitos cidadãos receiam que a crescente institucionalização de uma única variante possa conduzir, a prazo, à marginalização das restantes formas históricas de expressão linguística existentes no arquipélago.
Paralelamente, observa-se uma progressiva redução da presença social e institucional da língua portuguesa em diversos espaços da vida pública. Esta evolução levanta preocupações quanto ao futuro do bilinguismo cabo-verdiano e quanto à preservação de uma das componentes fundamentais da identidade histórica e internacional do país.
O desafio de Cabo Verde nunca foi escolher entre crioulo e português. O verdadeiro desafio sempre consistiu em garantir o domínio simultâneo de ambos.
Num país historicamente marcado pela emigração e pela mobilidade internacional, o domínio da língua portuguesa continua a constituir uma ferramenta essencial de acesso ao ensino superior, à ciência, à cultura, à diplomacia e aos mercados de trabalho internacionais. Os subscritores manifestam preocupação perante a possibilidade de futuras gerações de estudantes cabo-verdianos apresentarem níveis de proficiência em português inferiores aos dos seus pares dos restantes países da CPLP, situação que poderá traduzir-se em desvantagens académicas e profissionais.
As dificuldades atualmente observadas no domínio da língua portuguesa não podem ser explicadas apenas pela diglossia. Resultam igualmente de insuficiências educativas acumuladas ao longo de décadas, da ausência de uma estratégia linguística coerente e da excessiva politização do debate sobre as línguas.
Defendemos, por isso, uma política linguística orientada para o reforço simultâneo da língua portuguesa e do crioulo. A ambição nacional não deve ser reduzir o capital linguístico dos cabo-verdianos, mas ampliá-lo. O objetivo deve ser formar cidadãos plenamente competentes em crioulo e português e, idealmente, numa terceira língua internacional.
Os subscritores consideram ainda que a matéria da oficialização da língua cabo-verdiana não deve ser tratada como uma prioridade política imediata nem decidida através de consensos limitados a círculos institucionais ou académicos restritos. Trata-se de uma questão de enorme relevância histórica, cultural, educativa e identitária, com potencial para moldar profundamente o futuro de Cabo Verde.
Defendemos, por isso:
A preservação e valorização de todas as variantes do crioulo cabo-verdiano;
A promoção do ensino de excelência da língua portuguesa;
O reforço do bilinguismo crioulo-português;
O incentivo à investigação científica independente sobre a diversidade linguística nacional;
O respeito pela pluralidade histórica e cultural das diferentes ilhas;
A rejeição de qualquer forma de uniformização linguística ou hegemonia cultural;
A promoção do multilinguismo como fator de desenvolvimento humano e económico;
A realização de um amplo debate nacional sobre o futuro linguístico e cultural do país;
A suspensão de iniciativas de oficialização até que exista um consenso nacional genuíno e uma solução equilibrada para a atual situação de diglossia.
Acreditamos que a força de Cabo Verde reside na sua diversidade.
Defender as variantes do crioulo não é dividir o país. Defender a língua portuguesa não é negar a identidade cabo-verdiana.
Pelo contrário: é precisamente porque valorizamos a identidade nacional que defendemos a preservação de todas as suas componentes linguísticas, culturais e históricas.
O futuro de Cabo Verde constrói-se valorizando simultaneamente a diversidade das suas variantes linguísticas, a riqueza das suas culturas insulares e a abertura ao mundo proporcionada pela língua portuguesa.
Porque a diversidade não enfraquece Cabo Verde.
A diversidade é a própria essência de Cabo Verde.
* Pelo Grupo Promotor do Manifesto
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1280 de 10 de Junho de 2026.
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