Rescaldo das Eleições Legislativas em Cabo Verde: Mudança ou Ilusão? Os Riscos de um Retumbante Falhanço

PorJosé Fortes Lopes,1 jun 2026 15:00

​No passado dia 17 de maio realizaram-se eleições legislativas em Cabo Verde, disputadas pelos tradicionais partidos do chamado arco do poder: MpD, PAICV e UCID. Alegadamente posicionados no centro-direita, centro-esquerda e democracia-cristã, continuam a dominar praticamente todo o espaço político nacional.

O PAICV venceu com maioria absoluta. Contudo, trata-se de uma maioria curta: num parlamento de 72 deputados conquistou exatamente metade dos assentos, ficando o MpD com 34 deputados e a UCID com 2. Na prática, uma convergência parlamentar entre MpD e UCID poderá bloquear iniciativas fundamentais do novo governo.

Mais interessante do que a vitória do PAICV é compreender por que perderam o MpD e a UCID. O equilíbrio político manteve-se em grande parte do país. O PAICV ganhou sobretudo em São Vicente e na diáspora dos Estados Unidos, conquistando mais quatro deputados e beneficiando também do desgaste natural de um partido após uma década no poder. Erros de governação, ausência de reformas estruturais, falhas de comunicação política e incapacidade de responder às expectativas de mudança parecem explicar melhor o resultado do que uma adesão particularmente entusiástica ao projeto vencedor.

Há, contudo, um elemento novo que merece atenção.

O atual líder do PAICV é um outsider relativamente recente na política nacional. Ascendeu à liderança partidária num momento de fragilidade interna, conquistou a Câmara Municipal da Praia e alcançou agora a chefia do governo. O seu percurso foi marcado por um discurso fortemente crítico do funcionamento do sistema político cabo-verdiano, frequentemente apresentado como incapaz de responder às necessidades da população.

Tal como em 2001, o regresso do PAICV ocorre num contexto de desgaste governativo, descontentamento social e descrença institucional. Mas existe agora um fator adicional: a reabilitação, explícita ou implícita, de aspetos do antigo regime de partido único e uma narrativa revisionista sobre a história política recente de Cabo Verde.

A campanha foi marcada por promessas ambiciosas, forte mobilização emocional e soluções aparentemente simples para problemas complexos. É precisamente aqui que reside a minha principal preocupação.

Compreende-se a frustração de muitos cabo-verdianos que continuam sem emprego, oportunidades ou perspetivas, frequentemente obrigados a emigrar. Mas não eram precisamente esses os problemas cuja resolução foi prometida após o 25 de Abril e cuja solução alegadamente passaria pela independência de 1975?

Não acredito que a transformação de que Cabo Verde necessita venha do atual PAICV nem da liderança agora eleita.

Mais preocupante ainda é ouvir referências elogiosas ao sistema anterior a 1991 e a um alegado “entendimento de aço” relativamente ao regime de partido único. Durante quinze anos, Cabo Verde viveu sob um modelo de forte centralização do poder, controlo ideológico e limitação das liberdades fundamentais, cujas marcas políticas e culturais persistem, em parte, até aos dias de hoje.

Não se trata de afirmar que a História se repetirá, mas de reconhecer que certos reflexos autoritários permanecem latentes. Quando se normalizam nostalgias desse período, abre-se espaço para formas mais subtis de condicionamento da liberdade, do pensamento crítico e do pluralismo democrático.

Não há lugar para saudosismos de partido único numa democracia moderna.

Também inquieta a emergência de discursos identitários e revisionistas que procuram reinterpretar Cabo Verde através de narrativas próprias do contexto político de 1974 e 1975, mas pouco úteis para enfrentar os desafios atuais.

Prometer o resgate da dignidade de uma ilha, região ou grupo social pode ser politicamente eficaz, mas também pode aprofundar fraturas num país que sempre viveu da sua capacidade de integração e equilíbrio.

Enquanto isso, o debate político degrada-se. Torna-se mais superficial, tribalizado e dominado por slogans. A argumentação cede lugar à emoção e a análise ao marketing político.

O balanço dos dez anos de governação do MpD é, no mínimo, mitigado. O país tornou-se mais centralizado, mais dependente e mais desigual territorialmente. Muitas reformas prometidas nunca saíram do papel. O partido necessita de uma renovação política e intelectual profunda.

Mas também não consigo rever-me no atual PAICV nem na qualidade do seu discurso político. Continuo impressionado pela pobreza argumentativa de grande parte da campanha eleitoral, frequentemente reduzida a fórmulas simplistas e mensagens populistas. Cabo Verde merece um debate político mais exigente e líderes preparados para enfrentar desafios complexos.

Prometer um Estado mais eficiente, justiça social, melhores transportes ou menos privilégios é relativamente fácil. Difícil é explicar como tudo isso será financiado.

Governar não é distribuir benefícios sem indicar receitas nem construir um Estado-providência sem uma economia capaz de o sustentar.

Como observou David Leite, Cabo Verde é um pequeno país inserido numa economia globalizada. Depende do investimento externo, da cooperação internacional, das remessas dos emigrantes e da confiança dos mercados. Não pode ignorar essa realidade.

Quem governa Cabo Verde deve inspirar-se nos melhores exemplos da social-democracia europeia, mas sem esquecer as limitações concretas do país. É preciso, como diz o provérbio, fazer omeletes com os ovos que existem.

Mas o problema cabo-verdiano é ainda mais profundo.

Talvez tenha chegado o momento de reconhecer que a crise não é apenas de governação. É também uma crise do modelo político construído desde 1975 e apenas parcialmente reformado após 1991.

Cabo Verde continua preso a um sistema excessivamente centralizado, partidocrático e incapaz de libertar plenamente as energias criativas das ilhas. O resultado está à vista: desertificação humana de várias ilhas, concentração populacional crescente em Santiago, dependência económica persistente, emigração dos mais qualificados e empobrecimento gradual do debate nacional.

Existem hoje dois grandes partidos herdeiros, de formas diferentes, do universo político criado pelo antigo PAIGC. O PAICV continua ancorado na legitimidade histórica da independência e do legado do partido fundador. O MpD, apesar de ter surgido como alternativa democrática, acabou por se transformar numa máquina pragmática de poder sem identidade ideológica claramente definida.

A UCID desempenhou um papel importante na democratização, mas parece hoje resignada a uma posição de sobrevivência parlamentar, incapaz de se afirmar como verdadeira alternativa governativa.

O resultado é um sistema fechado sobre si próprio, onde a alternância raramente produz mudanças estruturais. Mudam os protagonistas, os slogans e as campanhas, mas o essencial permanece intacto.

O verdadeiro teste ao novo governo não será apenas cumprir promessas eleitorais. Será enfrentar problemas estruturais que sucessivos governos evitaram resolver: a excessiva centralização do poder, os desequilíbrios territoriais, a dependência económica externa, a desertificação humana das ilhas e a ausência de uma reforma profunda do Estado.

Sem regionalização, ou seja, um verdadeiro poder local, sem revisão séria das estruturas de governação e sem uma nova cultura política baseada na responsabilidade, competência e proximidade aos cidadãos, Cabo Verde continuará a discutir os mesmos problemas daqui a dez ou vinte anos.

A campanha terminou, a democracia falou e o resultado deve ser respeitado, Francisco Carvalho venceu as eleições.

Mas vencer eleições é a parte mais fácil.

A realidade começa agora: governar, cumprir, apresentar resultados e demonstrar que as promessas feitas ao eleitorado podem transformar-se em políticas concretas, sustentáveis e compatíveis com a realidade do país.

Os cabo-verdianos julgarão pelos resultados.

E estaremos todos cá para observar, analisar, escrutinar e exigir contas.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1278 de 27 de Maio de 2026.

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Autoria:José Fortes Lopes,1 jun 2026 15:00

Editado porFretson Rocha  em  1 jun 2026 15:19

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