António Ludgero Correia - “As tensões no sistema político nacional no ano findo terão sido uma pálida amostra do que aí vem”

PorAntónio Monteiro,11 jan 2026 9:31

2026 promete ser um ano decisivo para Cabo Verde, não só pelas eleições legislativas, mas também pelas presidenciais. Para as legislativas que já estão à porta, o analista político António Ludgero Correia perspectiva uma postura dura e do vale tudo dos partidos do arco do poder com o MpD buscando manter a maioria, o PAICV a apresentar-se como alternativa ao governo e a UCID procurando afirmar-se como peça-chave no equilíbrio parlamentar e convencer o eleitorado a confiar-lhe o papel de charneira, rompendo assim com as maiorias absolutas que tem permitido governos estáveis, “apesar dos pesares”.

Relativamente ao que alguns colunistas e o próprio MpD consideram o silêncio do Presidente da República face aos actos extremos e declarações de partidos políticos, Ludgero Correia observa que se o PR reagisse pontualmente a cada diatribe que for produzida estaria prestando um mau serviço à Nação. “Não se trata de uma Magistratura de Silêncio, mas uma Magistratura que tende a ser cuidadosa e pedagógica”, afirma.

2026 é o ano das eleições legislativas e presidenciais. Como estão colocadas as peças no tabuleiro político para os dois embates do que avizinham?

No que às eleições legislativas diz respeito, temos o PAICV de Francisco Carvalho desafiando tudo e todos, assumindo-se, claramente, como alternativa à governação; o MpD de Ulisses Correia e Silva confiando ao Governo a missão de garantir a maioria necessária para continuar a ser Governo; e, por último, a UCID que nunca deixou de ser de António Monteiro querendo pôr fim à sequência de maiorias absolutas, posicionando-se em partido charneira, absolutamente indispensável para qualquer grande decisão que se tenha de tomar. Estas as pedras no tabuleiro. Agora, uma coisa é querer e outra, bem diferente, é poder. Será que o leite e o mel em abundância que Francisco Carvalho promete irão mobilizar o eleitorado a seu favor? Que o maná para todos, prometida abundante e igualitariamente para todos vai convencer os cabo-verdianos? Será que a figura de Francisco Carvalho, sua imagem, seus tiques, seu historial recente na organização, integração e liderança de equipas de trabalho, darão corpo à ideia que as pessoas têm de um Primeiro-ministro? Por outro lado, as acções propagandísticas e notoriamente eleitoreiras, de que o governo de Ulisses Correia e Silva lança mão, suportadas por obras que segue plantando, pelas primeiras pedras que vai semeando, por um discurso que pretende transmitir segurança, tudo feito num afã desenfreado, serão suficientes para fazer esquecer a falta de ideias inovadoras e os falhanços da governação desta legislatura? Conseguirá convencer o eleitorado a renovar-lhe a maioria necessária para continuar a ser Governo? João Santos Luís conseguirá fazer melhor de que António Monteiro, isto é, conseguirá desfazer a ideia arraigada de que a UCID é um partido regional? Conseguirá realizar o velho sonho de ter os assentos necessários para ter as benesses de uma bancada parlamentar? O discurso que segue produzindo convencerá o eleitorado a confiar-lhe o tal papel de charneira, rompendo com as maiorias absolutas que tem permitido Governos estáveis, apesar dos pesares? A ver vamos.

O ano passado ficou marcado por fortes tensões do sistema político cabo-verdiano. Como perspectiva este novo ano?

As tensões no sistema político nacional no ano findo terão sido uma pálida amostra do que aí vem. Os resultados das autárquicas de 2024 injetaram adrenalina pura no sistema. Egos inflamados, apetites despertos, consciência do recrudescer da luta pelo poder, aliados à aproximação das eleições gerais, a acontecer já em 2026, desembocaram em batalhas campais verbais, com discursos inflamados e em tomadas de posição que vão precisar ser consolidados neste 2026. Vamos ter um Francisco Carvalho que não larga o osso da CMP, mas que vai precisar dedicar tempo, engenho e arte para dar conta da imperiosa necessidade de reforçar a coesão interna do partido, fazendo voltar ao redil os recursos que alijara durante a campanha para a presidência do partido e para convencer o eleitorado que o seu partido é uma alternativa à governação e que ele pode ser um Primeiro-ministro melhor do que Ulisses Correia e Silva. Teremos, por outro lado, um Ulisses Correia e Silva que viu os órgãos nacionais do seu partido manter a confiança nele depositada na última Convenção electiva do MpD, mas que, junto dos cidadãos, terá ficado como o líder partidário que responsabilizou as mulheres do seu Governo pela derrota nas autárquicas e o Primeiro-ministro que não deposita muita confiança na Juventude, ao recorrer a septuagenários para substituir as senhoras dispensadas do Governo. Se juntarmos a isso o discurso eleitoralista e a opção pela comunicação propagandística, adoptados já em 2025, podemos esperar uma postura dura e do vale tudo dos partidos do arco do poder, muito ao gosto de Francisco Carvalho mas que poderá chocar a postura senatorial de Ulisses Correia e Silva.

Na sua mensagem de Ano Novo o Presidente da República apelou à união, resiliência e maturidade democráticas em 2026. Alguns analistas lamentam, contudo, o silêncio do PR face aos actos extremos e declarações de partidos e de titulares de órgãos de poder político. Qual é a sua leitura?

Com a avalanche de pronunciamentos que tem havido, com a verdadeira esgrima verbal a que temos assistido, se o Presidente reagisse pontualmente a cada diatribe que fosse produzida estaria prestando um mau serviço à Nação, sem contar que, imediatamente o estariam colando a um ou a outro dos contendores. Faz muito bem o PR em dosear a sua intervenção. Não se trata de uma Magistratura de Silêncio, mas uma Magistratura que tende a ser cuidadosa e pedagógica, aliás, em contraponto a um posicionamento dos primeiros anos em que entrava fora de tempo, como se, em vez de árbitro, fosse mais um player na luta pelo poder. Tem convocado políticos e demais forças vivas ao Palácio do Plateau para conversas sobre a vida política nacional. Tem a Mensagem de Ano Novo, tem o discurso do Dia da Independência, e tem outros momentos e oportunidades de falar à Nação que aproveitará para dizer da sua justiça e, quiçá, puxar algumas orelhas.

Em 2025 viveu um ano de intensas reivindicações salariais e greves em diversos sectores. Quais as causas e como vai continuar em 2026?

O poder de compra dos trabalhadores caiu a pique, de um modo que simples acções ao nível das retenções na fonte dos impostos a pagar não consegue escamotear. A moda de calar a boca de uns quantos pela via dos ditos quadros privativos, quadros especiais e quejandos se esgotou. Os trabalhadores querem planear suas carreiras, gerir suas expectativas, querem enfim ter garantias para saber a quantas andam, se ficam ou se partem, o que só pode ser garantido por quadro claramente definidor das condições de ingresso e de oportunidades de crescimento na carreira, de um regime salarial justo e com a plasticidade necessária para evitar perdas clamorosas do poder de compra. Os trabalhadores quando assinam contratos de trabalho não se entregam de corpo e alma ao empregador: estão oferecendo sua força de trabalho em troca de uma remuneração, tão justa quanto possível, e da oportunidade de progredirem. E enquanto isso não estiver satisfeito, estaremos a braços com reivindicações, paralisações, assunção de “procedimentos padrões” e o mais que a lei permitir enquanto forma de luta.

O ano passado ficou marcado pela celebração dos 50 anos da independência nacional. No dia 13 de Janeiro celebram-se os 35 anos do Dia da Liberdade e da Democracia. Que sinais serão emitidos para sinalizar a consolidação do pluralismo político em Cabo Verde?

Já devia ser tempo de sermos mais senhores do que pensamos e da forma como agimos ou reagimos. Mas há que ter presente que nesses 50 anos tivemos os primeiros 15 de um singularismo (permitam-me este termo inventado) brutal e os 10 subsequentes de uma democracia de partido dominante que é tão perigoso quanto o outro, salvaguardando as peculiaridades da alternância do poder. Depois disso vieram as maiorias absolutas interpretadas como licença para fazer o que bem se entendesse em favor dos novos melhores filhos da terra (leia-se militantes e empresas próximas). Daí que a bipolarização partidária acaba arrastando a sociedade rumo a uma bipolarização política geral, com todos os riscos inerentes. E, ou a sociedade civil se organiza, se posiciona e age (em defesa da civitas) com a força política que tem no seu bojo ou mergulhamos na bipolarização de toda a sociedade. Que dos partidos políticos não virão sinais favoráveis.

Quais são os principais desafios do país neste novo ano?

O país tem desafios a dar com pau: emprego, segurança, saúde, justiça, ligações inter-ilhas, organização da circulação nas cidades, revitalização da qualidade de vida no mundo rural, produção de inteligência (para consumo interno e exportação), que sei eu? E como isto não é uma jamahiriya, o primeiro passo será fazer com que o nosso sistema representativo funcione. Desde logo, fazendo as escolhas certas, o que é bem complicado numa relação em que aqueles que se disponibilizam para nos representar se esfalfam para nos convencer que podem dar (e prometem que vão dar) “nabiu na mar”e acabam não nos dando mais do que “lantxa nkadjadu”. O país tem estes desafios todos que só poderão ser enfrentados, e vencidos, por lideranças sérias e empenhadas, escolhidas a dedo por um eleitorado maduro. Alea jacta est.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1258 de 07 de Janeiro de 2026.

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Autoria:António Monteiro,11 jan 2026 9:31

Editado porAndre Amaral  em  11 jan 2026 20:19

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