PR apela à pacificação política e partidos divergem sobre alcance da mensagem

PorSheilla Ribeiro*,7 jan 2026 11:21

O apelo do Presidente da República (PR) ao diálogo, ao respeito institucional e à reversão do clima de crispação política, feito na mensagem de Ano Novo, gerou leituras distintas entre os partidos com assento parlamentar. Enquanto o MpD critica o silêncio do Chefe de Estado face aos ataques ao Ministério Público (MP), o PAICV interpreta o discurso como um alerta à instrumentalização da justiça contra a oposição, e a UCID aponta omissões quanto às desigualdades sociais e à actuação presidencial.

Na tradicional mensagem de Ano Novo, o Chefe de Estado sublinhou que 2025 foi um ano histórico, marcado pela celebração dos 50 anos da independência nacional, assinalando um percurso de cinco décadas de democracia, estabilidade e conquistas que sustentaram o desenvolvimento do país.

José Maria Neves realçou o duplo sucesso do futebol cabo-verdiano, com a inédita qualificação das selecções masculina e feminina.

Contudo, o PR lembrou que o ano ficou também marcado por tempestades que atingiram com particular gravidade São Vicente e Santiago Norte, causando devastação e perdas humanas, o que, no seu entender, evidenciou fragilidades na capacidade de resposta a calamidades associadas às alterações climáticas, defendendo intervenções estruturantes e atempadas para reforçar a resiliência do país.

Este ano, observou, será igualmente intenso, com a comemoração dos 35 anos da instauração da democracia representativa e a realização de eleições legislativas e presidenciais.

“Urge reverter e dissipar o actual e crescente clima de crispação, reaprender a cultura do diálogo e do debate fundado em ideias e argumentos e respeitar as instituições, para que a democracia saia fortalecida, o Estado de direito reforçado e se cumpra Cabo Verde”, disse.

No plano externo, reiterou que Cabo Verde, enquanto pequeno Estado insular e transnacional, deve agir com inteligência e pragmatismo, defendendo o multilateralismo, a paz e a cooperação, bem como protegendo as comunidades da diáspora e os seus interesses.

MpD

Em conferência de imprensa, o MpD manifestou surpresa pelo facto de o PR não ter abordado os ataques do presidente do PAICV ao MP e aos magistrados, considerando esse silêncio pouco coerente com as funções constitucionais do Chefe de Estado.

“Aquilo que tem feito o Sr. Presidente do PAICV, atacando directamente o MP e os seus magistrados, é de tamanha gravidade, razão pela qual não entendemos o silêncio avassalador do Sr. PR, o que configura uma atitude de pouca coerência e algum descomprometimento com a Constituição e com as atribuições adstritas a um PR”, considerou o líder parlamentar Celso Ribeiro.

Segundo o dirigente, a democracia e os princípios do Estado de direito democrático têm sido “afrontados brutalmente”. Apesar das críticas, o MpD disse concordar com alguns pontos da mensagem presidencial, reconhecendo os sucessos do país ao longo de 2025, com destaque para as conquistas no desporto.

O grupo parlamentar lamentou, no entanto, que o Chefe de Estado não tenha referido outros marcos relevantes, como a celebração dos 34 anos da liberdade e da democracia, o crescimento económico registado em 2025, um dos mais elevados da história do país, e a classificação de Cabo Verde como país de rendimento médio-alto pelo Banco Mundial.

O MpD rejeitou ainda as críticas à capacidade de resposta do Governo face às alterações climáticas, assegurando que o Executivo esteve à altura nas situações de catástrofe, como as chuvas torrenciais em São Vicente e em municípios do interior da ilha de Santiago, com apoio às famílias afectadas e à reconstrução.

PAICV

Já o PAICV afirmou que as referências feitas pelo PR aos riscos para a democracia e ao perigo de se tentar impor o mais forte podem ser lidas como um alerta dirigido à Câmara Municipal da Praia.

O secretário-geral do partido, Vladmir Ferreira, disse que o recurso à via judicial para limitar a acção política da oposição pode comprometer o normal funcionamento das instituições democráticas.

“Apelamos ao Governo, ao MpD, às instituições judiciais, para que cada actor relevante, cada instituição que faz parte do sistema democrático, actue com normalidade, para que o país possa seguir esse caminho com orgulho”, exortou.

Vladmir Ferreira sublinhou ainda que Cabo Verde está habituado a processos eleitorais, transições políticas e exercício da oposição em ambiente de normalidade democrática.

O dirigente afirmou que a situação é inédita na história recente do país e lembrou que o actual primeiro-ministro nunca foi alvo de perseguição judicial, apesar do seu percurso político.

UCID

Por seu turno, o presidente da UCID, João Santos Luís, disse que faltou uma abordagem mais clara e corajosa do PR relativamente à situação social dos cabo-verdianos, na sua mensagem de Ano Novo.

Na sua declaração à imprensa, a UCID sublinhou que, apesar da construção de uma democracia respeitada e de um Estado de direito funcional, tal não rima com pobreza extrema, nem com desigualdades sociais persistentes.

“Celebrar a democracia é importante, mas é igualmente essencial reconhecer que há cidadãos que ainda não sentem os seus benefícios no dia-a-dia. Combater a pobreza e as desigualdades sociais deveria ocupar um lugar central no discurso nacional e na acção política”, afirmou.

João Santos Luís manifestou preocupação com a intensa circulação do PR entre as ilhas em 2025, por levantar dúvidas sobre a separação entre funções presidenciais e uma eventual campanha de reeleição com recursos públicos.

Nesse sentido, considerou que a defesa da democracia passa também pelo respeito escrupuloso pelas instituições e pelo uso responsável dos recursos do Estado.

O presidente da UCID recordou ainda que o PR, ao exercer as suas competências no domínio do indulto em 2025, “esqueceu-se do preso político Amadeu Oliveira”, que se encontra detido há quase cinco anos na Cadeia Central de São Vicente.

*Com Inforpress

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1258 de 07 de Janeiro de 2026.

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Autoria:Sheilla Ribeiro*,7 jan 2026 11:21

Editado porClaudia Sofia Mota  em  11 jan 2026 23:22

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