Há dias em que um país inteiro se afirma
Há algo de profundamente importante num dia de eleições. Não pelos resultados, que inevitavelmente trazem alegria para uns e desilusão para outros, mas pelo acto democrático em si.
Na fila silenciosa diante das assembleias de voto, no gesto simples de dobrar um boletim, existe uma ideia poderosa, durante aquele momento, todos os cidadãos são iguais. Poucas instituições humanas conseguem traduzir essa igualdade com tanta dignidade.
No domingo, 17 de maio de 2026, Cabo Verde voltou a demonstrar essa maturidade democrática. E, mesmo não sendo os resultados que eu desejava, fê-lo, mais uma vez, com serenidade e sentido de responsabilidade.
Uma democracia que nos orgulha
Há realidades que os cabo-verdianos, por hábito, tendem a considerar normais, mas que continuam a merecer a admiração do mundo. A alternância democrática do poder é uma delas.
Desde 1991, quando o MpD venceu as primeiras eleições multipartidárias e Carlos Veiga assumiu o cargo de Primeiro-Ministro, Cabo Verde construiu um percurso raro em África, mudanças de poder feitas sem violência, sem roturas institucionais e sem contestação da vontade popular.
Mais do que uma democracia eleitoral, Cabo Verde consolidou uma cultura democrática. Uma cultura onde a alternância é entendida não como ameaça, mas como parte natural da liberdade.
Por isso, o primeiro gesto depois de qualquer eleição deve ser sempre o mesmo, agradecer ao povo cabo-verdiano. Agradecer a quem votou. Agradecer também a quem não votou.
A abstenção de 53,4% não pode ser ignorada nem tratada como um simples desinteresse. É um sinal claro de distanciamento entre uma parte significativa da sociedade e a vida política nacional. E isso deve interpelar todos os partidos, sem exceção.
Parabéns PAICV
Ao Dr. Francisco Carvalho e ao PAICV, vencedores das eleições legislativas, dirijo as minhas sinceras felicitações pela confiança que o povo cabo-verdiano depositou no vosso projeto político. Vencer eleições é uma enorme honra, mas é também uma enorme responsabilidade. O país escolheu uma liderança, e essa escolha deve ser respeitada e honrada com trabalho, humildade e sentido de Estado.
Desejo sinceramente que este novo ciclo político contribua para o desenvolvimento de Cabo Verde, para o fortalecimento das instituições e para a melhoria das condições de vida do nosso povo.
Uma democracia saudável precisa de governos competentes, mas também de oposições responsáveis e construtivas. O interesse nacional deve estar sempre acima das disputas partidárias.
O que os resultados nos dizem
Cumprido o dever da cortesia democrática, importa agora olhar os resultados com honestidade.
Dois ciclos eleitorais consecutivos com derrotas, as autárquicas de 2024 e as legislativas de 2026, não podem ser vistas como um episódio isolado. São um sinal político claro de afastamento entre o partido e uma parte importante da sociedade cabo-verdiana. Esse afastamento não nasceu de um erro único. Resulta de uma acumulação de distâncias, na linguagem, na presença, na escuta e, muitas vezes, na capacidade de compreender as preocupações reais das pessoas.
Mais preocupante ainda é a dimensão da abstenção de 53,4%, a mais alta da história democrática de Cabo Verde. Quando mais de metade dos eleitores decide não participar, não estamos perante um problema de comunicação política. Estamos perante uma crise de confiança que interpela todos os partidos e toda a classe política. Esse silêncio também é um voto, e é talvez o mais exigente de todos.
A necessidade de renovação
O MpD foi fundado a 14 de março de 1990 por quem teve a coragem de exigir liberdade quando ela ainda não estava garantida. Foi construído sobre valores que continuam a ser os mais relevantes para Cabo Verde: democracia, liberdade, humanismo, economia aberta e Estado de Direito. Esses valores permanecem válidos. O que importa renovar é a forma como os comunicamos, como os praticamos internamente e como os traduzimos em propostas concretas para os desafios atuais do país.
O MpD tem história, quadros, experiência e dimensão humana suficientes para se reinventar. Mas essa reinvenção exige coragem. Exige abertura. Exige capacidade de escuta. E deve ser um processo conduzido sem ressentimentos, sem divisões e sem exclusões.
Num partido com esta história, todas as sensibilidades devem contar — porque numa família política forte ninguém deve sentir-se descartável. A unidade não nasce da uniformidade; nasce da capacidade de construir um objetivo comum apesar das diferenças. E esse objetivo deve continuar a ser Cabo Verde.
Deixo ainda uma palavra de reconhecimento merecido ao anterior Presidente e ainda Primeiro-Ministro, Dr. Ulisses Correia e Silva.
O meu compromisso
É neste contexto que assumo publicamente o meu compromisso, estar disponível para liderar o MpD e ser parte ativa neste processo de união e renovação.
Faço-o não por ambição pessoal, mas por um sentido de responsabilidade que não consigo ignorar. Há anos que escrevo sobre democracia, sobre o futuro de Cabo Verde, sobre a necessidade de renovar as nossas instituições e de ter uma visão de país à altura do que somos capazes. Chegou o momento de passar das palavras à acção, ou de reconhecer que as palavras nunca valeram grande coisa.
A minha disponibilidade para liderar o MpD assenta numa visão clara para Cabo Verde: a visão de um país que se afirma como Farol do Atlântico, uma referência de democracia, de estabilidade e de oportunidade numa região que precisa desses exemplos. E uma ambição económica concreta, a de transformar Cabo Verde na Singapura do Atlântico, um hub de excelência construído sobre os pilares da abertura, do mérito e do Estado de Direito, tirando partido da nossa posição geográfica única, da nossa estabilidade institucional e da confiança que inspiramos ao mundo.
Proponho um MpD refundado nos seus alicerces, renovado nas suas lideranças e reencontrado com o povo que durante décadas confiou nele. Um partido que pratica internamente a democracia que defende publicamente. Um partido presente no terreno todos os dias, não apenas em tempo de campanha.
O povo falou no dia 17 de maio. Com os votos que depositou e com os votos que não depositou. Cabe-nos, agora, provar que escutámos. Não com discursos, com actos. Não com promessas, com uma equipa motivada e unida, e comprometida com o futuro de Cabo Verde.
Esse compromisso assumo-o hoje, com humildade e com determinação. Não porque seja o mais indicado, isso caberá aos militantes decidirem. Mas porque acredito, sem reservas, que Cabo Verde merece um MpD à altura do que este país pode ser.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1278 de 27 de Maio de 2026.
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