Nação em Catarse

PorCésar Monteiro,13 jul 2026 8:06

César Monteiro - Sociólogo e Investigador
César Monteiro - Sociólogo e Investigador

​A presença histórica recente de Cabo Verde no Mundial 2026, culminando nos dezasseis avos de final com um confronto épico, de igual para igual, diante da campeã em título, a Argentina, constituiu um marco simbólico extraordinário.

Este feito transcendeu amplamente o desporto, afirmando-se como um autêntico fenómeno social e uma força propulsora da identidade crioula transnacional, construída e consolidada nos espaços diaspóricos, bem como um importante mecanismo de reforço da unidade nacional, da coesão social e da memória coletiva. Independentemente do resultado desfavorável, que ditou a eliminação de Cabo Verde da competição, o facto de ter enfrentado a Argentina durante 120 minutos constituiu, acima de tudo, um raro privilégio — aquilo que alguns designam por “meritocracia simbólica”.

Socorrendo-nos de um conceito clássico de Marcel Mauss, a campanha inédita de um país arquipelágico, com forte pendor diaspórico, configura-se mais do que um simples facto desportivo, como um “facto social total”. Pode ser interpretada como um caso singular de construção identitária, mobilização de vontades — dentro e fora das fronteiras —, projeção transnacional e catarse coletiva em torno da seleção nacional. De facto, numa sociedade diaspórica como a cabo-verdiana, caracterizada pela dispersão geográfica, pela insularidade económica e pelo fenómeno do interconhecimento, a participação num evento desportivo de tamanha projeção internacional funcionou como um poderoso fenómeno social total, colocando em movimento a sociedade no seu conjunto e as suas instituições.

O futebol, ao colocar Cabo Verde no centro das atenções globais, deixa de ser apenas uma modalidade desportiva para se converter numa instituição social relevante, que reflete, molda e atenua tensões estruturais, funcionando como válvula de escape e mecanismo de amortecimento. É neste contexto que os cidadãos, beneficiando dos “espaços de exceção” proporcionados pelos jogos da seleção nacional, libertam frustrações acumuladas e tensões recalcadas, num quadro em que o controlo social se revela frequentemente apertado. O tempo dos Campeonatos do Mundo “é o tempo da nação”, como afirmou Simoni Lahud Guedes (1998), ao refletir sobre o futebol enquanto campo de produção da identidade nacional. Dito de outro modo, o futebol atua como um campo privilegiado de produção de nação, em que vitórias e desempenhos positivos geram euforia coletiva e manifestações públicas de celebração, amplificadas pelas redes sociais. No contexto da globalização, assume-se também como um importante fator de circulação e agregação de identidades transnacionais, visível na participação de jogadores de segundas e terceiras gerações da diáspora, cujas trajetórias se desenvolvem fora do arquipélago.

Neste quadro, quando jogadores nascidos e formados na diáspora optam por representar Cabo Verde, o futebol funciona como um mecanismo de repatriação simbólica e de reafirmação identitária, no âmbitodas políticas de identificação e integração de talentos promovidas pela Federação Cabo-verdiana de Futebol. Embora o contacto físico com o país seja, muitas vezes, reduzido ou inexistente, Cabo Verde é conhecido por estes descendentes através de narrativas familiares, práticas culturais, música, gastronomia e redes sociais, que contribuem para a construção de uma “comunidade imaginada”, no sentido proposto por Benedict Anderson. O Campeonato do Mundo emerge, assim, como um exemplo paradigmático dessa comunidade imaginada, ao evidenciar a forma como cabo-verdianos dispersos pelo mundo se reconhecem na seleção nacional — verdadeiro “espelho da nação transnacional” — e se reconhecem como parte de uma mesma comunidade de pertença.

Nos momentos de confronto com potências do futebol mundial, como Espanha, Uruguai e Argentina, assistiu-se, em Cabo Verde, à suspensão do quotidiano e das normas sociais, à efervescência coletiva, na perspetiva de Durkheim, e à quebra das rotinas. Os jogos da seleção nacional funcionam como um ritual sagrado moderno, dominado por uma situação de exceção que não pode perdurar indefinidamente, constituindo apenas um parêntesis na vida social. Neste estado de transição ou de liminaridade, no sentido proposto por Victor Turner, marcado por um laço de communitas efémero em que as regras são temporariamente suspensas ou invertidas, a sociedade experimenta uma intensidade emocional partilhada, gerando um sentimento de igualdade absoluta, solidariedade e camaradagem entre os adeptos. A identidade individual é temporariamente absorvida pela força de uma identidade coletiva, na qual se esbatem as divisões habituais: todos vestem a mesma camisola e partilham o mesmo espaço, físico ou virtual, num ambiente festivo. O trabalho abranda e as tensões políticas, económicas e sociais passam para segundo plano. Os horários ajustam-se aos jogos e, durante os 90 minutos da partida, o estatuto social desvanece-se, instalando-se uma “nova ordem” e uma “nova normalidade” provisórias, o país suspende-se. O futebol, pela sua dimensão global e desterritorializada, constitui igualmente um novo palco de visibilidade internacional, reforçando a unidade nacional e a coesão social. Para além disso, tem a capacidade de suspender temporariamente a realidade e de adiar a contestação social face às dificuldades quotidianas, às assimetrias regionais e às ambivalências identitárias, que não implicam ausência de identidade. Funciona, assim, como fator de descompressão social e, perante resultados positivos, promove celebrações, atua como uma forma de “anestesia positiva” e, à semelhança da música cabo-verdiana, gera experiências partilhadas que reforçam o sentimento de pertença nacional.

A tristeza da eliminação da seleção nacional de futebol, longe de se traduzir em frustração depressiva duradoura, reforçou, pelo contrário, o orgulho nacional, o sentido de pertença e a autoestima coletiva, por via de um mecanismo de compensação e gratificação social. A eliminação do Campeonato do Mundo funciona como um “despertador social”. O país inteiro regressa à normalidade anterior, dissipa-se a igualdade provisória entre os cidadãos enquanto adeptos, produzida por uma situação conjuntural. Reinstalam‑se as clivagens do quotidiano e as rotinas de uma sociedade estratificada, marcada por assimetrias regionais, desigualdades socioeconómicas e divergências políticas, e põe-se termo ao clima de efervescência social e de euforia incontida, bem como ao estado de transição, de exceção ou de liminaridade, entretanto instaurado. Em última instância, a própria reprodução do sistema social implica a reativação das hierarquias momentaneamente suspensas e o retomar dos conflitos e de outras dinâmicas.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284 de 08 de Julho de 2026.

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Autoria:César Monteiro,13 jul 2026 8:06

Editado porAndre Amaral  em  13 jul 2026 10:19

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